Com amor, Emily

Este texto foi vencedor de uma promoção que participei alguns anos atrás. Daí, andando pela internet, eu o achei e fiz questão de publicá-lo aqui para que vocês vejam. Tinha uma limitação de caracteres, então, infelizmente, alguns pontos ficaram sem melhores descrições e tudo mais. Aproveitem:

Era tarde da noite e eu sabia que conseguiria alguma informação naquela noite. Não saberia dizer quantos dias passei procurando informações; quantas noites andei sozinho entre os prédios tentando, entre um traficante e outro, descobrir o paradeiro daquele que vinha procurando há tanto tempo.

Não faria sentido continuar buscando se não soubesse, ao menos, que aquele bastardo, filho da mãe, estivesse vivo. Do que adiantaria procurar um homem morto? Estaria mesmo morto? Eu tinha certeza que naquela noite eu conseguiria a resposta. Ou a resposta, ou algo muito pior.

Peguei minha magnum com o cabo grafitado. Era uma típica arma daquela época. Por algum motivo os bandidos haviam começado a grafitar nos cabos das armas, alguns buscavam destaque, outros apenas estavam na moda. Eu não. Minha arma estava grafitada porque ela não pertencia a mim. Pertencia ao homem que ia receber todos os tiros que ela poderia disparar no meio da testa. Como havia dito, daquela noite não passaria.

Eu fiz publicidade por um tempo e achava aquelas novas tendências de “Changing Outdoor” um saco. Já era chato encarar aquelas modelos de biquíni para expor apenas um relógio, agora vê-las mudando de posição, como um filme pornô passado quadro a quadro era nauseante. Tinha vontade de procurar o homem que inventou aquilo e matá-lo.

Eu nem sempre fui dessa forma. Nem sempre busquei sangue e morte em todo canto. Houve uma época em que só queria chegar no conforto do meu lar, deitar, assistir TV com minha querida Emily e depois ir dormir. Não era pedir demais, era?

Eu trabalhava em um antigo posto de gasolina por ali. Alguns carros não haviam alterado o sistema de combustível e ainda usavam gasolina. Era um trabalho que me permitia continuar sobrevivendo. Era só o que eu queria. Continuar sobrevivendo.

Andei por algumas ruas escuras, fiz mais alguns contatos, fui obrigado a comprar algumas drogas e dizer não para algumas putas. Eu não tinha problema com putas, não me importaria de pagar para tê-las aos meus pés. Mas aquela noite era diferente. Eu não queria putas, eu queria um cadáver. Somente isso. O homem que matou Emily.

Vaguei por mais algumas horas. Não saberia contá-las, não tinha intenção de parar antes de encontrá-lo. Já havia recebido a informação de que ele tinha uma tatuagem de um dragão no corpo. Era um dragão oriental, um daqueles que os malditos otakus tanto amam. Não sabia a cor nem o tipo do dragão, mas sabia que sua cabeça aparecia no pescoço. Era a pista que eu precisava.

Umas noites atrás consegui tirar de uma puta que ela já havia atendido um homem com aquela descrição em um bar ao sul dali. O bar não era um dos melhores. Já estava sentado ali há duas horas e nenhuma garçonete tinha vindo me atender. Fui até o balcão, pedi uma cerveja e sentei-me num canto. Não queria chamar atenção. Convidei uma puta e paguei bebida para ela. Um homem sozinho só tem dois motivos para estar sozinho: Ou é gay ou está espreitando algo. Eu não queria passar a impressão errada.

Esperei por boas horas ouvindo papos de quanto ela conseguia engolir, de quantos já havia atendido em apenas uma noite e outras coisas que não me lembro. A vingança me cegava e me ensurdecia. Só comecei a ouvir direito quando o vi descendo as escadas. Enganei-me profundamente sobre o fato dele chegar pela porta. Ele já estava ali quando cheguei, comendo uma puta no andar de cima. Enquanto eu me sufocava ele se aliviava. Era bom, não queria tirar o direito de uma última transa. Agora sabia que eu não faria tão mal pra ele.

Esperei mais alguns minutos para que ele saísse. Bebeu algo no balcão e caminhou pra fora. Era minha deixa. Joguei algumas notas em cima da mesa e saí. O segui até o estacionamento. Fiz o máximo de silêncio que podia. Esperei chegar até próximo do carro. Encostei-me a um beco feito por dois veículos, verifiquei a munição e andei em direção a ele. Antes que pudesse enfiar a chave na fechadura lhe dei um tiro no joelho. Se não fosse tão ruim de anatomia, diria que o que saltou pra fora foi a rótula dele, mas nem sei como se parece uma rótula. Se for um ossinho meio arredondado e com potencial de saltar quando tomar um tiro, aquela era a rótula.

– Não vai se lembrar de mim, mas eu nunca vou me esquecer de você.

Ele olhou claramente confuso. Sabia que já tinha ferrado com muitas pessoas, mas não tinha a menor idéia de quem eu era.

– Clairemount Avenue, Apartamento 104. Você esteve lá algum tempo atrás. Roubou umas jóias, um dinheiro e saiu. Deixou uma vítima e saiu. Como se nada tivesse acontecido. Lembra disso? ?

Seria difícil pra ele lembrar, sei que era apenas mais um roubo para ele. Mas para mim não. Puxei uma foto da carteira e botei a 5 centímetros da cara dele. Esfreguei bem nos olhos dele pra ele lembrar.

– Era só uma cachorra cara. Ela pulou em mim. Eu tive que me defender.

Ele podia ter dito qualquer coisa. Talvez eu não tivesse ficado tão puto se ele não tivesse falado daquele jeito. “Era só uma cachorra”. Como assim? A Emily não era só uma cachorra.

– É cadela, seu merda!

Eu nunca entendi o motivo dos policiais usarem aqueles tampões de ouvido enquanto treinavam tiro ao alvo. Talvez pelo barulho, talvez pelo estampido ensurdecedor que a pistola produzia quando você atirava. Naquela noite eu entendi. Não era pelo barulho. Era pela dor. Cada tiro que eu dava, conseguia ouvir a pequena Emily latindo em algum lugar abafado. Era como se a única forma de mantê-la viva por um tempo fosse continuar apertando o gatilho. Não sei por quanto tempo isso durou, mas posso garantir que a pequena Emily latiu tempo suficiente para que o desgraçado que a matou não pudesse ser reconhecido nem por ele mesmo em um espelho.

Pra mim tinha acabado. Não precisava mais fazer nada. A minha Emily dormiria tranqüila e eu também. Aquele desgraçado nunca mais faria mal a ninguém, nem a ele mesmo.

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2 comentários

  1. Clap Clap Clap

    Mandou bem Van!

    Muito bacana a história, curta , visceral e direta ao ponto, devia se arriscar em contos maiores cara você tem talento.

    Ps: a parte da cadela foi sensacional rs

    1. Obrigado, meu amigo. Fico feliz que tenha gostado.

      Esse eu fiz só pra participar do concurso. Acho bacana e tudo mais, mas nem sempre tenho disposição para escrever contos. Fiz um que era “baseado” em Suckerpunch. Se curtir o filme, eu te passo o link, pra ver se te agrada.

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