Seu filho é normal

Hoje falarei de um assunto que sempre me incomodou e com certeza incomoda metade da população mundial. Um problema de proporções tão homéricas que deveriam criar uma sociedade secreta para compartilharem tais curiosidades. Crianças prodígio.

Nesse momento seu pâncreas deve ter se corroído de dor achando que eu falaria da Maysa, do Jordi , do Trem da Alegria ou de alguma criança (ou grupo de) que sua memória possa lembrar. A grande questão é que este texto não será dirigido às crianças que hoje ganham a vida procriando com criminosos ou com franceses (?) esquecidos pelo tempo. Não é nada disso meu querido leitor ensandecido. Hoje eu falarei de algo ainda mais pecaminosamente profano: o seu sobrinho/afilhado/filho/neto ou o que o valha.

Não entendeu? Eu explico.

Não é de hoje que a divulgação de informações dignas da revista Caras sobre a vida do seu filho é novidade. Não importa o quanto pareça simples ele…arrotar. Peidar, ou sorrir, ou simplesmente fazer um cálculo de 2 dígitos quanto se tem 18 anos. Não importa o quanto isso soe ridículo para você. Para os mais chegados, sempre vai ser sinônimo de perfeição e esperteza, afinal, qual criança que você conhece já consegue falar “hahryiii” ou “thahko” com 2 anos? Mesmo que ambas as palavras pareçam desconexas e e proferidas por alguém com alto teor alcóolico no sangue para você, para os mais próximos e praticantes desta falácia elas significam, respectivamente: “Pai, eu quero ir na feira com você e carregar o carrinho de compras” e “Olha só, já estou em idade de abrir o guarda roupas e escolher minha própria roupa, mamãe”.

Seu filho dança como o Sidney Magal? Guarde isso para você.

Uma das técnicas mais profanas comumente usada é a de desmistificar o que a criança está pensando e traduzir para palavras “humanas” para as vítimas mais próximas da situação, sendo obrigadas a participarem da asneira coletiva ou simplesmente desligarem seu cérebro para o fato à sua frente.

Uma criança abre a porta de baixo do seu guarda roupas, pega um cinto e leva até você, na cama.

O que para você parece apenas uma demonstração de que a criança possui polegares opositores e capacidade de caminhar, para os pais/avós isso tem um significado muito diferente do analisado por você e por seu “olho gordo invejoso”.

Para uma mãe, esse gesto significa: “Veja, mamãe, eu decidi que este cinto aqui combina melhor com a minha roupa e a partir de agora eu irei usá-lo para sempre, porque eu amo couro falso de cobra“. Pelo menos é assim que ela vai traduzir para você.

Não importa quão veementemente você alegue que o que ela fez não tem nada de racional. Ela só agiu como o cérebro subdesenvolvido dela manda ela agir. Ela não está realizando tal feito consciente, ela só faz porque…bem, porque ela acha que é certo fazer.

Pior do que ouvir de sua irmã, mãe, avó ou parente próximo, é ouvir isso de um completo estranho, que sentou por acidente em um banco próximo a você enquanto você esperava o laudo do IML da sua mãe, ou algo assim.

Se quando você ouve isso de pessoas próximas já é um saco, imagina ouvir isso de alguém que você sequer se importa? Ai de você que tente ser sincero: – Não minha senhora. Eu não acredito que seu neto com apenas 6 meses sabe abrir a geladeira e implorar para que você faça batata frita como as do Mc Donalds para ele.

Duelo de Mães

O pior de tudo, na minha opinião, não é a lista de coisas mágicas que seu filho faz, não é a quantidade de palavras novas que ele aprendeu. Há algo além disso tudo que me deixa mais angustiado e com vontade de ter meus intestinos devorados por um lobo albino faminto. É o que eu chamo de Duelo de Mães.

Duelo de Mães é a prática que TODA mãe gosta de participar. Este duelo consiste em duas mães narrarem as façanhas em tom de narração de bardos medievais. A luta se desenrola até a platéia perceber que ambas estão delirando e tudo que elas estão dizendo não passa de uma mentira muito da mal contada.

Engraçado é que não há vencedores em um desses duelos. Eles não se utilizam da regra clássica dos duelos, onde um oponente caído é obrigatoriamente o perdedor. Neste duelo, cair significa que você precisará de ainda mais força para subjugar seu oponente, utilizando-se até mesmo de sua vasta imaginação para vencê-lo. Derrota não é uma palavra conhecida pelas mães ávidas por disputa.

Já vi mães falando que as meninas, com 1 ano de idade, sobem em cima de latas e fingem “estar andando de salto alto”. Pior, elas falam “mamãe, salto alto!”

As mães bradam ensandecidas os feitos de suas crianças, que aos poucos vão ganhando personalidade, signo, jeito de falar e sotaque. Mesmo que ela só tenha 2 anos.

Má educação

Agora vem a pior parte. Quando tratamos de mentiras contadas pelos pais nós podemos simplesmente virar as costas e ir embora, ignorando todas as mentiras contadas pela mãe da criança insuportavalmente chata. Agora, lidar com a má educação dada pelos pais é algo que eu ainda não aprendi como fazer.

Eu juro que jogo direitinh…crec.

Não importa o quão valioso seja seu videogame, não importa o quão importante seja para você uma edição do Senhor dos Anéis autografada pelo Tolkien, não importa o quanto você goste de Star Wars e seus Box de DVD’s sejam raríssimos, você precisa deixar a criança mexer, afinal, “ela não estraga, não”. Claro que a frase vai pro ralo no primeiro “trec” que você ouve quando ele põe a mão em alguma coisa.

A vantagem da criança mal-educada é que você pode direcionar a culpa aos pais, que na verdade são os verdadeiros culpados da criança ser uma mini Britney Spears. Na maioria das vezes, dizer não para uma criança mal-educada é comprar briga com os pais pro resto da vida, o que, se olharmos por um lado, não é uma má idéia.

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2 comentários

  1. Não gostei da citação à Britney. e___e
    …Não que eu discorde uhauahhuhua

    Lembrei de uma menininha de 8 anos que uma vez veio tentar “ajeitar” o meu biquíni, porque segundo ela, “tava preso aqui, ó”.

    Explicando: A parte de cima era cortininha e, pra não pagar peitinho na primeira onda, tinha uma linha extra entre as duas partes, prendendo MESMO. Era a intenção. Não tinha NADA errado com aquilo. E eu adorava me sentir segura.
    A garota apenas meteu a mão (eu estava com o biquíni) e arrebentou a linha, separando as duas partes antes mesmo que eu conseguisse começar o “NÃO METE A MÃO AÍ, SUA…”
    Crianças adoráveis. Pais que sabem o que é melhor pra todo mundo podem gerar crianças que acham que também sabem, porque, né. Exemplo é tudo (ou quase).

    Sempre um prazer ler seus textos. Lembre-me de não ficar me gabando de Ana Luiza, Matheus e/ou Sophia, sim? =P

  2. AMEI o texto. Concordo completamente e fico feliz de ver que não penso sozinha. Especialmente no que diz respeito à falta de educação dos pais-filhos. A pouco tempo minha família teve um problema SÉRIO que quase rolou processo porque a filha de um amigo mexeu com o vizinho. E o pai disse que ela estava certa e ele muito orgulhoso da filha. Lógico, não saiu do bolso dele todo o dinheiro gasto para resolver a questão.

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