Minha mãe e a história da vaca e o que isso tem a ver com a minha vida. E com a sua.

Antes que possa começar a ler este texto imaginando que haverá uma solução para os seus problemas. Pare! Não haverá. Se eu soubesse como resolver os seus problemas, eu não estaria metido nos meus problemas.

Neste sábado estávamos todos conversando com a minha mãe quando ela simplesmente resolve contar a história da vaca. Uma história que alguém enviou pra ela, ainda não sei como lhe foi enviada, mas se foi por e-mail eu devo dizer que minha mãe é muito moderna.

A história da Vaca

Era uma vez uma família muito pobre no meio dos desertos da puta que o pariu.* Eles não tinham nada pra comer. Viviam do sustento oferecido por uma vaquinha que eles possuíam.

Certa vez, um monge e seu discípulo que vagavam pelo mundo aprendendo sobre a vida passara por suas terras. O monge se dirigiu ao chefe da família e perguntou: “Porra, velho, por que vocês estão passando fome?”

O Chefe da família, assustado com o linguajar do monge, disse “Não estamos passando fome. Temos uma vaca e tiramos o nosso sustenta dela. Metade do leite da vaca nós consumimos, a outra metade nós trocamos com os vizinhos por coisas para comermos”.

O monge e seu discípulo deixaram a família e continuaram a vagar. Quando passaram pela vaca o monge ordenou ao discípulo para ir lá e matar a vaca. O Discípulo ficou bolado com a ordem, mas tinha que obedecer, afinal, ele era o mestre dele.

Foram embora e nunca mais voltaram.

Muitos anos depois o discípulo ainda bolado com a história da vaca resolveu voltar às terras da família para saber o que havia acontecido com eles.

Quando chegou, se deparou com uma fazenda imensa, repleta de frutas e árvores que vieram do além. Animais, crianças e a tecnologia bluetooth havia chegado na fazenda. O Discípulo ficou bolado, de novo, e foi até o chefe da família perguntar como aquilo havia acontecido, ao que prontamente lhe respondeu:

“Quando a nossa vaca morreu a gente teve que se virar. Tivemos que arrumar novos meios de ganhar dinheiro e nos tornarmos porcos capitalistas”.

Daí então o monge entendeu. Além do fato do mestre dele ainda ser um filho da puta, ele tinha conseguido tirar aquela família da zona de conforto que todos nós nos metemos uma vez ou outra.

O que isso tem a ver com a minha vida?

Eu fico aqui pensando o quão difícil foi para aquela família sair da zona de conforto. E o quão difícil é para todo mundo, inclusive o monge, sair da zona de conforto. Quais traumas se criam, quais dores se causam e quais feridas ficam marcadas para sempre. Quanta dor aquela família sentiu ao perder a vaca e a única coisa que lhes dava sustento? E daquela dor, o que ficou com eles e vai ficar até o fim de suas vidas?

É muito fácil para alguém dizer “saia da sua zona de conforto” mas quanta dor será causado por isso? Será mesmo que é preciso sair da zona de conforto?

Algumas vezes só queremos ficar no nosso cantinho, curtindo nossa família e fazendo cada dia mais brincadeiras internas que só vocês entenderão. Esse não é o sentido da família? Para alguns, esse é o sentido da felicidade, inclusive.

Até que vem um monge bem do filho da puta e te tira tudo. Cria a dúvida, mata seu sustento e te tira as únicas coisas que importavam nos últimos meses. É lógico que a dor vai acabar. É lógico que um dia eu também terei uma “fazenda” e árvores bonitinhas no meu pomar. Mas até lá, qual o custo disso e quais cicatrizes ficarão comigo até o fim?

Uma coisa eu sei. Se eu encontrar com esse monge na rua eu arrebento ele na porrada.

“Pareço bonzinho, mas mato vacas”

*quanto mais chateado e mais triste eu fico mais palavrões saem da minha boca, portanto, releve isso tudo.

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8 comentários

  1. hauhauhauha Boa!!

    Minha mãe sempre me conta a mesma história! Sempre! o.o
    Mas eu fiz ela mudar o destino da vaca… Porque eu acho que a pobre da vaquinha não tinha culpa de nada e não merecia morrer por causa da acomodação dos donos, então eu fiz ela mudar para “e eles levaram a vaca embora”. Pronto… Vaca salva, família desenvolvida, e todo mundo feliz no final das contas. XD

    Mas é fato… Eu pensei muito nessa história quando resolvi mudar de emprego e acho que ela me influenciou bastante a tomar a decisão. É difícil sim, não posso negar, mas depois disso, de vez em quando eu mando embora a minha própria vaquinha, quando acho que as coisas precisam mudar. 😉

    1. Mas no meu caso eu não mandei vaca nenhuma embora. Assim como na história, alguém mandou a vaca embora por mim e agora eu sou obrigado a sofrer as consequências disso, entende? Tento a vaca um final feliz ou não, eu continuo com a obrigação de viver sem ela me fornecendo aquilo que eu precisava pra sustentar.

      E, no caso de não ter entendido, não é de emprego que estou falando. É de uma pessoa (mas ela não é a vaca, ela era o conf…ah, acho que você já entendeu.).

  2. Caramba, Van. Ainda to esperando você explicar o que isso tem a ver com a minha vida.

    Brincadeira. Ontem eu tive uma conversa parecida com a minha mãe, mas no caso quem ‘contava a história’ era eu. Às vezes alguém precisa matar a vaca, ou levá-la embora, pra que a gente perceba que não dá pra ficar ali na sua vidinha perfeita/medíocre pra sempre.
    Tenho vivido há algum tempo na zona de conforto. Trabalho, estudo, pago as contas e está tudo certo. Está tudo bem, sabe? E às vezes penso no que pode acontecer “amanhã” pra quebrar essa rotina, já que eu mesma não me animo a quebrá-la.
    Mas veja pelo lado bom: se a vaca morrer, dá pra fazer um churrasco. E se quiser aparecer, sinta-se à vontade.

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