Doe um fone a um funkeiro

Tenho visto já há alguns dias uma prática sendo difundida pela galera “divertida” do Facebook. Milhares e milhares de pessoas estão compartilhando a mesma imagem, a imagem de uma campanha fictícia que solicita aos amigos para doarem um “fone para um funkeiro”.

Campanha bacana, né?

O único problema da campanha, ao meu ver, é o fato de excluir diretamente muitos outros públicos que sofrem do mesmo mal dos “funkeiros” da campanha. Evangélicos, roqueiros, pagodeiros e forrozeiros. TODOS deveriam ser atingidos por esta campanha.

Mas na verdade, a intenção do post nem é essa.

Vejo muita gente reclamando dos tais funkeiros, dizendo que eles não respeitam ninguém e que todos deveriam morrer (inclusive com imagens bonitinhas de funkeiros sendo jogados dentro de um poço com espinhos) e blá blá blá. Não só o fato da estupidez desnecessária, esta campanha de preconceito contra os funkeiros e o funk me traz muitos pensamentos à cabeça e um deles, o mais importante, diga-se de passagem, é que parece que TODOS estão competindo para ver quem chama mais atenção.

Na minha mente, o funkeiro que ouve funk no ônibus está fazendo isso para chamar atenção. O único motivo dele comprar aquelas caixas de som importadas da China é porque assim o som sai ainda mais alto e ele consegue chamar ainda mais atenção, certo? Se observarmos comportamentos semelhantes de outras tribos podemo chegar à conclusão do porque o funkeiro ouvir funk gera tanto incômodo assim.

Quando você veste sua camisa do Slipknot, com coturno, calça preta, sobretudo, gel no cabelo pra parecer punk e vai para o SHOPPING, não parece ser muito diferente do que o funkeiro faz.

“Ah, mas o funkeiro incomoda quem está ao seu redor” você pode alegar.

Sim, verdade. Mas a maioria desses “roqueiros” (observem as aspas, pelo amor de vosso senhor) também se vangloriam de ficarem bebendo vinho (ui, ele bebe vinho – e chupa bala de menta pra mãe dele não bater nele quando sentir o cheiro do álcool) na porta do shopping, de ficarem cantando músicas aos berros e andarem no shopping como se fossem “excluídos da sociedade”. Quer saber um segredo? Vocês não são.

Quando um grupo cria costumes e regras para serem excluídos da sociedade e passam a criar um pré-conceito sobre seu comportamento o grupo está sendo excluído da sociedade ou incluído? Reflita.

Voltando ao assunto.

Eu ouvi rock durante toda minha adolescência e vi todo tipo de pessoa que gostava do ritmo. Desde pessoas que simplesmente gostavam do ritmo até pessoas que combinavam de usar camisas com dizeres ofensivos ou imagens igualmente ofensivas quando fossem para lugares públicos. Com o único objetivo de chocar e “incomodar” as pessoas “normais”.

Sem contar que várias vezes já vi pessoas ouvindo rock em alto e bom som dentro do ônibus.

Fora os roqueiros, nós temos também os cristãos. Vocês sabem a implicância que tenho com eles, então vou tentar ser o mais imparcial possível.

Da mesma forma que já vi roqueiros fazerem besteiras em público para chamarem atenção, já vi cristãos fazerem o mesmo (ou até pior). Na maioria das vezes o cristão faz questão de fazer humor sexual ou de comportamento “mundando”, apenas para mostrar para as pessoas ao seu redor que “cristão também vive”. Não é reprovável. Cada um faz o que quer. Se você acha legal juntar todos os membros da sua igreja em um ônibus para ficar falando que vai dar de presente para a líder do grupo jovem uma calcinha comestível, ótimo, vá em frente, mas não pense que está fazendo isso porque é legal. Se fosse legal as pessoas fariam isso sozinhas. Em casa. Se fazem isso na rua, em ônibus, é porque possuem apenas um objetivo: chamar a atenção.

Claro que existem exceções. Em todas as tribos, exceções são sempre bem vindas. Sempre vai existir o cara que ouve rock e GOSTA de usar roupas com imagens satânicas. Sempre vai existir o crente que fala de sexo abertamente. Tudo isso sem a menor vontade de chamar a atenção.

Mas se tem uma coisa que minha mãe me ensinou MUITO BEM é que o seu limite começa quando termina o do próximo. Se você percebe que está começando a se exaltar e falar um pouco mais alto que o normal em um ambiente que não é o seu “habitat”, seria de muito bom tom você diminuir um pouco a voz, mudar de assunto, ou simplesmente cortar o papo pelo meio. Não com medo do que as pessoas vão pensar, mas só pelo fato de saber que alguns tipos de assuntos não são bem vindos em ônibus, em elevadores e em locais com alta aglomeração de pessoas.

Ao invés de uma campanha para doar um fone de ouvido para um funkeiro, vocês deveriam fazer uma campanha de respeito ao próximo. Independente da religião, tipo de música que ouve ou nível de alfabetização. Respeito deveria ser universal. E se é assim, os funkeiros também merecem o seu.

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