Tá querendo desquitar

Uma coisa que algumas pessoas podem não saber é o fato de que, na minha adolescência, eu era incrivelmente apaixonado pela boa música que a banda Raimundos fazia. Na verdade, até hoje eu ainda sou, mas fiquei muito tempo sem ouvir o som dos caras. Aquela época em que você decide ouvir coisas novas pra conhecer boa música e pra saber que você nunca devia ter se afastado de sua origem.

Não só pelas letras de duplo sentido, não só pelos acordes, não só pela atitude. A banda possuía um conjunto de qualidades que a fez difícil de superar, mesmo na época, em que muitas bandas do mesmo gênero surgiram no Brasil. A inteligência das letras, a agilidade nas rimas e as histórias, quase sempre baseadas em acontecimentos reais, faziam e ainda fazem a banda ser uma das minhas preferidas.

Na escola, naquela fatídica hora em que escolhemos quais amigos ficarão conosco durante o ano, e alguns durante a vida, eu me aproximei exatamente do cara que também era apaixonado por Raimundos. Como eu. Além de gostar ele também sabia tocar violão.

Do contrário do que você pensa, ele não era um bicho grilo, mais chato que o encontro anual dos hispsters de violão. O cara tocava as melhores músicas de forma perfeita, ainda por cima não gostava de Legião e não curtia essas bandas Ploc’s anos 80. Se uma pessoa sabe tocar violão e NÃO gosta de tocar Legião, esse alguém precisa ser meu amigo.

O nome dele era Cleiton e com ele eu tive as melhores aulas de música e de bandas novas. O cara era uma enciclopédia de bandas sensacionais. Hoje em dia estamos afastados, mas a lembrança da amizade e a certeza de um sentimento de amizade mútuo me confortam.

Em uma dessas situações chatas da escola, fomos obrigados a formar um grupo para compormos uma música, uma poesia ou um texto que retratasse o cotidiano de algum personagem. Não poderíamos inventar nada, tudo teria que ser baseado em algo que você viu. Seja a história de um vizinho corno ou como foi sua primeira vez em um puteiro, embora esta segunda opção não fosse bem o que te daria uma nota 10.

O tempo foi passando e os grupos se formando. Nós, que não estávamos muito preocupados com o trabalho largamos de mão e fomos viver nossas vidas. Até o dia da apresentação. Que pareceu chegar em um piscar de olhos.

Assim que a professora adentrou a sala e perguntou quem seria o primeiro a se apresentar meu coração bateu em slow motion. Como assim se apresentar? Era aquele o dia da apresentação? O tempo dado por ela passou tão rápido assim? Onde estávamos neste tempo?

Cleiton, Sérgio, Suilan e eu entramos em desespero. Sim, Suilan é o nome de uma amiga minha que também havia ignorado sumariamente o trabalho e naquele momento se pegava pensando no que fazer.

O primeiro grupo se apresentou com um texto estranho sobre o nascimento de uma criança. Eu não sei se foi a narração ou se as palavras escolhidas foram ruins, eu só lembro de ter pensado em suicídio algumas vezes enquanto ouvia os caras narrando as aventuras da mãe de um deles nessa “nova empreitada de ser mãe”.

De repente os grupos foram ficando indecisos. Ninguém mais tinha coragem de se apresentar e, a julgar pelo que ouvi, eles estavam com medo de se apresentar depois desse grupo do bebê. Ao que parecia, ele tinha sido mais legal do que eu havia ouvido, para causar medo nos demais.

Então eu me levantei e fui até a frente da sala. Chamei o pessoal e eles ficaram do meu lado, esperando para saber o que eu pretendia dizer, uma vez que ninguém esperava uma reação minha. Mas como diz o Capitão Nascimento “nada melhor do que uma crise para aguçar a criatividade”.

Então a professora perguntou sobre o que seria nosso trabalho. Eu olhei para o Cleiton, como que pedindo um sinal de cumplicidade e disse:

– Nosso trabalho é uma música que fizemos para um vizinho meu. Seu Vavá é o nome dele e ele tem tido problemas com seu casamento.

No momento em que falei o nome a galera entendeu. Algumas pessoas da turma já tinham nos ouvido cantando essa música e também tinham entendido, mas jamais seriam capazes de nos desmascarar.

Quando a professora deu o sinal para começarmos, nós cantamos essa música abaixo:

Sabe o que é melhor? Depois da cara de espantada da professora perguntando se nós mesmos tínhamos feito a música, foi ver que ninguém mais ousou levantar seu rabinho da cadeira para tentar desvendar nosso trabalho.

Depois que isso aconteceu eu tive certeza de uma coisa. Por mais que todos amem bebês fofinhos e historias sobre seu nascimento, Raimundos ainda é Raimundos e ninguém consegue desbancar os caras.

Anúncios

4 comentários

  1. O melhor foi a professora falando que aquilo ali sim era exemplo de trabalho e que devíamos ensinar as pessoas a se dedicarem a apresentação. Lembro que exatamente nesse dia, além do violão o Cleiton levou um triangulo confeccionado por ele. Então como tínhamos o violão o triangulo a música bem “ensaiada” foi sensacional. Parecia que tínhamos nos preparado pra situação.

    Valeu por me fazer lembrar disso!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s