Meu irmão, meu amigo e meu braço explodindo

Eu já contei várias vezes aqui sobre meus irmãos, aqueles bem sucedidos homens de família que outrora eram homens do gueto e faziam pequenos delitos por aí, né? Quer dizer, hoje em dia eles não são nem 1% do que já foram e isso é orgulhosamente bom de se dizer. Hoje posso dizer com total certeza que posso me espelhar em qualquer um deles que me tornarei alguém bom no futuro.

Pois bem, desses irmãos, um deles sempre se destacou em proximidade e coleguismo. Não por indiferença dos outros dois, que fique claro. Fato é que dois dos irmãos semi-meliantes não moraram comigo nem perto de mim por boa parte da minha vida, então era muito difícil existir uma proximidade entre nós. Atualmente sou bem próximo deles, sendo inclusive padrinho do filho dele, com orgulho. Já este que vos apresentarei hoje esteve sempre comigo, morando na mesma casa, ignorando o fato de eu destruir as coisas dele e contar para minha mãe todas as besteiras que ele fazia.

Seu nome é Ademar (música tema do Batman).

Você acha o nome feio? Muito mais bonito do que o nome bíblico do seu filho semi analfabeto, não concorda? Pois bem, continuemos.

Ademar sempre foi muito próximo de mim. Talvez pela idade mental, talvez pela falta do que fazer ou talvez por gostarmos um do outro mesmo. Para terem a noção da idade mental de Ademar, uma de minhas sobrinhas (filha do Cleber) nasceu com um problema gravíssimo e durante muitos anos de sua vida foi obrigada a ser operada, viver com sonda e esperar a boa vontade dos médicos de cuidarem dela. Nessa época, ela era MUITO magra e parecia sempre muito debilitada. Não sei se por descuido dos médicos ou do meu irmão, mas ela parecia mesmo uma criança doente.

Como falei, ela era bem magra, parecia sempre estar doente (devido às constantes visitas ao hospital) e tinha uma sonda que a impedia de ser feliz como criança. Porra nenhuma, devo dizer. Meu irmão Ademar (padrinho dela), colocava a garota em uma caixa de leite. Antes que se espante e olhe com dúvida para meu texto, deixa eu esclarecer. A caixa de leite a qual me refiro não é a caixa que guarda o leite, é a caixa que guarda as caixas de leite. Entendeu?

Pois bem, nessa época, Ademar colocava ela na caixa de leite e rodava pelo quintal puxando a garota enquanto ela se debulhava em gritar e cantarolar como se fosse uma cowgirl. Ela tinha lá seus problemas mas estava bem feliz, pra falar a verdade. Tudo isso culpa do Ademar.

Outra situação de carinho extremo de Ademar era quando ele tentava ensinar a esta mesma menina a falar palavras simples de nosso cotidiano, como “Faca” e “sofá”. Além do problema da sonda ela tinha também um problema na dicção que a impedia de falar os “F”, “V” e “S”. Quer dizer, não a impedia, mas ela substituía um pelo outro em todas as frases. Sendo assim, ela me chamava de “Zinícius”, chamava sofá de “fofá” e faca de “saca”.

Ademar, em seu auge da falta do que fazer, resolveu provar que não era doença que a impedia de falar isso (e não era mesmo e vocês devem saber disso mais do que eu) e resolveu ensiná-la a falar direito. Conclusão, até hoje ela fala pelos cotovelos sem trocar letra alguma. Ponto pra ele.

Pois bem, essa enrolação toda foi só para apresentar um pouco do irmão que tanto admiro.

Há anos atrás, quando eu ainda era um moleque muito pequeno, resolvemos brincar na rua de trás da minha casa. Eu era muito pequeno mesmo, devia ter uns 2 ou 3 anos, eu acho, mas como eu tinha irmãos mais velhos, eu acabava ficando no meio deles enquanto eles iam realizar tarefas saudáveis, como colocar uma bombinha nas asas de um morcego, como explodir tijolos com cabeção ou coisas assim.

Em uma dessas situações, acompanhado de um outro irmão, um dos amigos da gente resolveu ter a estúpido idéia de arremessar um desses explosivos para o alto. Claro que, como em um foguete, haveria contagem regressiva, todos teriam certeza de que só fariam isso quando fosse a hora certa e quando todos estivessem devidamente abrigado em suas barricadas. Isso teria dado certo, se a besta quadrada que era esse amigo não tivesse resolvido precipitar toda a brincadeira arremessando o explosivo para o alto e gritando “Corre, porra!”.

Naqueles instantes que se seguiram eu fui capaz de ver a velocidade incrível que o ser humano consegue se teletransportar de um ponto a outro em menos de 1/2 segundo. Foi como piscar os ohos e ver que não havia mais ninguém ao meu redor. Era como se eu estivesse fazendo parte de algum teste de elenco para participar de “I’m a Legend”.

Todas as pessoas ao meu redor sumiram. Desapareceram no ar como se fossem ninjas.

Eu, que nunca fui de correr muito, sempre atrás nas brincadeiras de apostar corrida, sempre atrás no futebol, sempre atrás em qualquer brincadeira que envolvesse correr, acabei ficando parado, sem saber exatamente o que fazer para fugir daquela situação.

Eu não acredito que tanta coisa assim tenha passado pela minha cabeça, afinal eu era muito pequeno para me lembrar detalhadamente, mas lembro com riqueza de detalhes quando eu vi o artefato bélico retornando de sua viagem aos céus e indo de encontro ao meu braço. Por cagaço do caralho sorte, o artefato bateu no meu braço e resvalou para o lado, explodindo a uma distância de uns 5 a 10 centímetros de mim. Não houve estrago algum comigo, não houve nem sequer um arranhão, mas pelo desespero da situação eu abri a boca a chorar.

Ah, agora que tu é adulto tu vem pagar de fodão e dizer que eu sou bichinha, mas eu queria ver se você com 3 anos, ao invés de ficar brincando de boneca com tuas primas e servindo de olheiro para os namoradinhos delas brincarem de médico estivesse em situação semelhante se você também não iria abrir o berreiro. Não foi uma escolha minha, foi quase que automático.

Os moleques que fugiram ficaram desesperados achando que meu braço tinha caído, que eu tinha perdido a perna ou que, na melhor das hipóteses, eu tivesse virado um super herói graças ao poder radioativo do explosivo.

Para azar meu e sorte deles, nada disso aconteceu, eu estava completamente intacto, exceto pelo susto de uma mini dinamite ter explodido a centímetros de distância de meu corpo.

Como por instinto eu corri para os braços da minha mãe, desesperado por ter escapado da morte certa. Minha mãe ouviu a história toda de forma assustada. Antes que pudéssemos ver, Ademar já tinha se dirigido ao local e ido tirar satisfação com a pessoa que quase me matou.

Não sei de foi por carinho, por dó (que dó, que dó, que dóóó) de me ver chorando ou simplesmente porque ele não tinha nada para fazer, ele já chegou distribuindo socos e pontapés nos envolvidos. Quem via de fora parecia que estava presenciando a visita do Taz Naquelas cenas em que ele vem rodopiando e destruindo tudo em seu caminho.

Ademar sempre me defendeu quando eu precisei e muitos anos depois ele foi um conforto para meus problemas, muitas das vezes sem nem mesmo saber disso. Em homenagem ao dia do amigo (amanhã), deixo aqui o meu muito obrigado a ele e toda sua valentia que me defendeu por anos e anos.

É claro que todos os irmãos foram muito importantes para mim, mas o Ademar sempre teve uma idade mental mais atrasada e por isso eu me identificava tanto com ele. Por ele ser quem ele é hoje e por eu ser quem sou eu agradeço a ele, meu querido irmão “Litofut”.

Anúncios

6 comentários

  1. ” mas o Ademar sempre teve uma idade mental mais atrasada e por isso eu me identificava tanto com ele”

    QUE LINDO!!!!

    PS: Pollyana daqui há alguns anos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s