O dia em que eu tive uma banda

Não é da nova banda que estou falando, estou falando de uma banda de muitos anos atrás. Tempo em que eu ainda tinha saco para ficar fazendo coisas que eu tinha certeza que não daria certo. Era uma banda de verdade. Uma banda mesmo, com baixista (não que fosse preciso), um guitarrista, um bateirista e um vocalista (eu).

Para quem me conhece minimamente bem, ou já ouviu minha voz no Rockcast, sabe que a minha voz não é lá essas maravilhas e nem de perto é aceitável para se cantar, mas a intenção não era recriar um Pearl Jam, ou tentar imitá-los, como fez o Creed. A idéia era só criar uma banda em que pudéssemos nos divertir, tocar e zoar. Coisa que toda pessoa quer com uma banda, acredito eu.

O mais difícil de tudo foi reunir membros para a banda. Todo adolescente que decide montar uma banda passa por estes problemas de formação de banda. Na maioria das vezes chama um amigo que estava presente na hora da discussão e o obriga a aprender a tocar algum instrumento.

Passamos por algumas más formações até chegarmos ao que eu chamaria de formação perfeita. Antes dos integrantes efetivos, tivemos uma baixista que curtia Korn (nossa banda tinha, ou deveria ter, um som mais hardcore), um vocalista que não sabia cantar (e ainda tinha) e um bateirista que não tinha uma bateria. Coisa de adolescente, claro.

Quando eu resolvi que a banda precisaria ser mais “forte” e seguir mais o rumo que eu imaginei, eu tive que tomar algumas decisões, e fomos atrás de outros membros. Achei um bateirista foda que soubesse tocar e tivesse uma bateria. Achei um baixista e um guitarrista e continuei minha empreitada para cantar.

Além disso, precisávamos de um nome. Depois de algumas tentativas vergonhosas, chegamos ao nome Free Suicides. Que eu gosto até hoje, pra falar a verdade. Quando vou jogar alguma coisa e precisa de um time ou de uma banda, sempre ponho esse nome para homenagear a minha extinta banda.

O fato de eu ser o vocalista da banda nunca foi porque eu achava que sabia cantar, ou que podia fazê-lo de forma satisfatória. A situação era que eu escrevia as letras e achava que uma outra pessoa não saberia pegar o mesmo rumo que eu estava pensando, entende? Era algo como se o Eddie Vedder escrevesse uma letra na esperança de outra pessoa cantá-la. Soaria estranho, eu acho. Daí, a decisão de eu ser o vocalista da banda. Imagino que este seja um dos maiores problemas para quem compõe músicas e não as canta. Não é fácil ver que alguém pegou a letra e cantou de forma diferente do que aquilo que você esperava.

Como era uma banda de hardcore/punk, nunca fiquei preocupado em saber cantar ou não. O importante era zoar.

Acontece que zoamos demais, imagino eu. A primeira letra que tínhamos falava de um garoto chamado “Lúcio Fernando”, que passou por destrato da família e resolveu se revoltar contra ela. Que tinha um “pai” que dava mais atenção a um determinado irmão e isso causava inveja nele, obrigando-o a tentar superar seu irmão. Sendo “rejeitado” por isso.

Se são espertos, perceberam que Lúcio Fernando é um nome que lembra “Lúcifer Nando”…

Eu tinha 13 anos nessa época, por isso a primeira letra que achei por bem escrever era falando do fator religião. Aquele que, para mim, era um dos maiores combustíveis de revolta nessa época. Ainda é, até hoje.

A música era engraçadinha e passava bem a mensagem que eu queria. O problema é que minha grande influência de Raimundos me prejudicava muito nas letras que eu escrevia e em tudo que eu fazia. Sempre estava pensando como eles (humildemente, claro), me espelhando neles e me focando em como eles escreviam as letras deles. Foi daí que surgiu a letra “Pudim de leite”, que falava (prefiro que você pule esse parágrafo se você for uma bichinha chata que vai reclamar do tema da música. É nojento, eu admito) de uma reunião de família onde o pai ficava encarregado de fazer o pudim mas percebia em cima da hora que havia acabado o leite e…usou o leite…hum…entenderam, né? Não é a melhor música para se tocar em um jantar de família, admito, mas essa era a intenção.

Conversei com alguns membros e marcamos um ensaio. Fomos até para um estúdio, para tocarmos e vermos o que sairia, mas não era jogo arcar com um estúdio só para treinar. Daí conseguimos arrumar um amigo que tinha um espaço próprio para o que queríamos. Na verdade, não lembro de onde surgiu a casa onde ensaiamos, mas sei que era um lugar bacana e meio isolado de tudo, então poderíamos ficar a vontade para fazermos nosso som.

Muitas letras vieram e a maioria eu esqueci. Algumas eu ainda tinha salvo no pc, mas acredito que nenhuma delas se salve hoje em dia. Hoje eu sei muito mais do que sabia naquela época, então meu senso crítico está muito mais apurado.

Marcamos o ensaio e partimos para a casa para tocarmos. Como o bateirista era doido por músicas próprias, ele pediu para que só trabalhássemos em cima de nossas músicas. Depois até decidimos tirar alguns covers, mas a idéia era trabalhar o máximo possível em cima de músicas próprias.

Foi uma experiência interessante, embora tenha acabado de forma chata. Hoje eu quase não tenho contato com o guitarrista e quem eu acho que poderia substituí-lo, com certeza eu não posso contar mais. Perdi um amigo e um guitarrista para minha futura banda. Uma pena.

A não ser, é claro, que eu recorra a internet.

Como vocês viram lá em cima, eu já recorri. E estou montando uma banda virtual (da pesada) para dar continuidade ao que eu quis alguns anos atrás. Dessa vez é por mais zoação que da outra. É por mais diversão e por mais interesse. Se tudo der certo, seremos fodas.

É claro que isso não vai dar certo e que abandonaremos a idéia daqui a alguns dias, mas é legal a idéia de poder fazer o que eu quiser sem me preocupar com a dificuldade de distância e com a falta de amigos próximos.

E eu ainda sou vocalista. Mesmo sem saber cantar NADA.

Anúncios

1 comentário

  1. Eu sempre recebi vários convites para ter banda sem ao menos saber tocar nenhum instrumento, tenho que tomar vergonha na cara e voltar a me dedicar ao meu baixo. Sim o instrumento que o senhor acha inútil.

    Abraço

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s