No dia em que eu morrer

Quero que leiam o texto abaixo com o máximo de seriedade que puderem. Vou deixar este texto escrito aqui para que no dia em que eu estiver morto vocês retornem a este link e saibam exatamente o que eu planejei para mim, na minha “post mortem”. Não deixem escapar nenhum detalhe, por favor. Nunca pedi nada a vocês, seria muita sacanagem esquecer um detalhe pequeno no meu funeral. Agradeço a compreensão e segue o texto.

Quando eu morrer…

Bom, é o seguinte. Eu não sei quando nem como eu irei morrer (embora eu imagine que não seja de morte natural. Não sei muito bem o porque de pensar assim, mas sempre me imaginei morrendo em um acidente trágico ou em alguma coisa misteriosa) nem muito menos a hora da minha morte, então levarei em consideração que vocês estarão aptos o suficiente para adaptarem meus pedidos ao tempo certo em que tiver ocorrido minha morte.

Em primeiro lugar, queria agradecer a compreensão de todos que tiverem ido ao meu funeral. Para isso, serei obrigado a nomear um porta voz para agradecer a cada pessoa que me der as “boas idas” aos céus. Em nome da sabedoria, nomeio o meu grande amigo Sérgio Luiz como porta voz depois que eu tiver morrido.

Não que ele esteja apto a passar para os visitantes tudo que eu gostaria de passar, mas de todos os amigos que tenho, ele é o único que passou a maior parte do tempo comigo, sendo assim, ele deve me conhecer melhor do que meus outros amigos.

Ele tem lá seus defeitos e suas opiniões duvidosas (algumas, inclusives, tiradas de DVDs crentes sobre viagem à Lua). Não deixem, por favor, que ele comece a tagarelar sobre essas coisas no meu funeral. Eu queria que meu funeral fosse algo divertido, algo digno de ir para o Top Five do CQC. Sabe? Aqueles últimos minutos de fama? Tá! Melhor não, eu não gosto de CQC e isso acabaria virando alimento para algum tipo de piada idiota.

Ok, vamos lá. Melhor focar.

Eu sempre disse que não queria ser doador de órgãos. Eu menti.

Minha mãe sempre me fez acreditar que doadores de órgãos morrem primeiro, porque, segundo ela, as pessoas que se declaram doadoras, chegam nos hospitais e são assassinadas pelas enfermeiras/médicos em busca de vender os órgãos para pessoas necessitadas. Eu sempre acreditei nisso e sempre fui contra a doação de órgãos, mas no fundo, no fundo, eu acho uma ótima idéia que pessoas que já foram dessa para melhor possam ajudar outras pessoas a continuarem vivendo. Se puder escolher, queria que meus órgãos fossem doados a pobres. Mas queria que fossem pobres mesmo. Pessoas que não têm onde morar, pessoas que não têm o que comer ou, principalmente, pessoas que sofrem de dor de dente. Eu sei como é ruim porque vivi a minha infância inteira sofrendo deste mal e nunca fizeram nada por mim. O que eu puder fazer para diminuir um problema na vida de quem tem dor de dente, eu farei. Ficaria muito grato se meus órgãos fossem doados para pessoas com estas características.

Segundo, vêm minhas posses. Não é muita coisa, eu sei, mas é o que tenho e gostaria que minha vontade fosse respeitada.

Eu não tenho nada. O carro não é meu, a casa não é minha. Tudo da esposa e ela merece ficar com isso (e com muito mais, se eu tivesse). Tudo que ela passou, tudo que a magoei e tudo que ela sofreu na vida (por problemas de saúde e tudo mais), ela mereceia ficar milionária depois que eu morresse. Infelizmente isso não vai ser possível .

Falando em destino, quero deixar claro que ainda não acredito em deus, mas sempre invejei quem acredita. Dessa vez não é brincadeira, dessa vez é realmente um desabafo sincero: eu tenho inveja de quem acredita em deus. Não tenho inveja de quem se acha o foda por acreditar N’ele, não tenho inveja de quem usa a fé para pisar nos outros. Tenho inveja daqueles que se sentiram só e com frio em uma noite chuvosa e tiveram a quem pegar na mão. Inveja daqueles que acordam de manhã e não precisam se questionar todo santo dia em como o sol foi parar ali e como as coisas acontecem no mundo. Inveja de quem simplesmente vive, na certeza de que Deus tem um plano para eles e que tudo que acontecer, está nas mãos dele. Inveja daqueles que sonham, sabendo que só dependem de Deus para que aquilo se concretize. Inveja, pura e simplesmente.

Quero pedir desculpas também a todos que magoei por minha vida. Ninguém em especial, pra dizer a verdade. Não lembro de cada pessoa que magoei, mas tenho certeza que nesta imensa vida que vivi (ou não) eu deixei alguns pontos soltos. Peço perdão por algum dia ter te tirado algo e não ter te dado a chance de se explicar. Peço desculpas às pessoas que fiz chorar por simplesmente mudar de opinião do dia para a noite. Peço desculpas, principalmente, aos meus amigos que tratei mal por ser minha “personalidade” e por ter certeza que vocês nunca me abandonariam. Se não fiz isso ainda em vida, peço desculpas agora, depois de morto.

Quando vivemos, temos a certeza de que certas pessoas nunca se afastarão de nós. Algumas vezes acabamos nos aproveitando disso e deixamos os defeitos transparecerem. Já diziam os poetas do Orkut: “Amigo não é aquele que aponta o teu defeito. Amigo é o que sabe de todos eles e ainda assim é seu amigo” – Clarice Lispector.

Agradeço aos amigos que sempre estiveram comigo. Aos que jogaram RPG durante toda minha vida e me fizeram perceber que o RPG não é um jogo, o RPG é um modo de convivência. Por muitos anos jogamos sem nem mesmo querer jogar, mas se não fosse pelo RPG, todas aquelas pessoas, de tribos tão diferentes, nunca se reuniriam em um mesmo quarto e nunca ririam das mesmas piadas.

Peço para quem puder, que vá lá em casa e tire os jogos das prateleiras. Dependendo de como for a minha morte, alguém pode querer usar os livros de RPG ou os jogos de videogame como influência macabra em minha vida. Pelo contrário, os jogos nunca foram um problema, o meu desinteresse pelas coisas é que sempre me criou problemas. Não era por vontade de jogar videogame que eu o fazia, era por falta de opção entre discutir, brigar, gritar ou ficar entediado. No fim, só me restavam estas minhas “fugas”. Eu sempre achei melhor do que sair de casa e cometer os erros tão comuns à juventude. Eu não era assim e nem nunca quis ser.

Mas é claro que eu sempre me diverti muito jogando. Era o meu futebol, a minha cerveja. Tudo que eu não fazia, por questão de gosto, eu trocava pelo videogame. No fim das contas, parecia muito mais do que deveria ser.

Peço desculpas ao Sérgio, por ter quebrado seu dedo e por ter tacado o tênis nele. Isso me marcou de uma forma que você não tem noção e se hoje você é a pessoa que é, o meu respeito por você cresceu e cresce a cada dia e nada disso vai mudar. Infelizmente eu fui idiota e te agredi de formas inimagináveis, mas por você ser o porta voz do meu funeral, espero que você esteja recompensado (também pode escolher UM dos jogos da minha prateleira, assim, já que eu não fiquei rico, você vai se sentir duplamente recompensado).

Queria partilhar um espaço crucial aqui para o Rafael, ou Pará, como é chamado por nós. O Pará não é meu amigo. Não é um irmão. O Pará é uma parte de mim que foi criada por outra família. Por tantos anos me perguntei como fomos ser amigos. Como nós, pessoas tão diferentes e com costumes totalmente estranhos um ao outro, pudemos nos identificar de tal forma que hoje em dia não há nada que eu não consiga pensar em fazer que você não esteja incluso. Eu já deixei uma foto dele aqui no blog. Se vocês puderem dar uma procurada, gostaria de pedir-lhes que toda vez que encontrarem com ele na rua, digam que ele tem um sotaque de paulista muito bonito. Com certeza será um elogio e tanto para ele que ele tem um sotaque de paulista muito bonito, já que muitas das vezes nós discutimos sobre a origem dele.

Meus pais e minha mãe (se já não tiverem ido), quero dizer que sei bem como é sofrer por um filho perdido. Não que eu tenha perdido um filho ou algo assim, mas sei todo dia o que é lidar com a perda de alguém que ama. Sei como é acordar todo dia e perceber que cada dia mais suas ações te afastam daquele que você quer bem. Por isso, pai e mãe, peço que não chorem por minha morte. Peço que não parem de viver por isso. Nunca fui a favor disso e não serei agora, depois da minha morte.

Pelo contrário. Vou fazer um pedido que tenho certeza que será sacrificante o suficiente para ambos: Parem de trabalhar. Arrumem um bom empréstimo e façam viagens pelo Brasil. Foda-se se não vão ter como pagar depois. Se eu já morri, é bem provável que vocês morram logo, logo (sem querer desanimar vocês). Vão onde quiserem ir. Conheçam o que quiserem conhecer e, mãe, não fique pensando em como vai ser quando voltarem para casa, que a sua casa vai estar bagunçada enquanto você está dormindo em um hotel de luxo. Apenas desfrute do que pode agora. Quando voltar pra casa você resolve o que vai acontecer com sua vida, mas neste momento, neste momento crucial, apenas viva. O maior presente que vão poder me dar é a vida.

Aos meus amigos da internet, aqueles que só conheço a distância, eu digo que vocês foram parte importante de tudo isso. Por maldade da sociedade, somos obrigados a trabalhar mais do que ficamos em casa e por conta disso, acabamos sofrendo mais do que descansamos. Em todo este tempo que trabalhei, tive contato com vocês quase que diariamente. Algumas vezes eu só estava ali para irritar, algumas vezes tentei acrescentar algo (e espero que tenha conseguido) e algumas vezes apenas tentei fazer amigos. Nunca quis falar nada para irritar ninguém e nunca imaginei que pudéssemos desenvolver um vínculo tão forte com pessoas que desconhecemos.

Com certeza minha morte não vai ser muito impactante para vocês, mas espero que pelo menos pensem por um minuto o que fizemos “juntos” e o que foi divertido disso tudo.

Ah, antes que eu esqueça. Pelo amor de deus, não ponham no Orkut/MSN/Facebook a mensagem “Luto pelo Vanguedes”. É sério. Luto é um estado de espírito em que a pessoa está refletindo a perda do fulano de tal. Estar no msn enviando “kkkk’s” não é bem uma forma de luto que quero pra mim. Eu entendo que você não tenha se importado com a minha morte, mas dizer que está de luto enquanto está rindo e brincando é ofensa a minha alma. Respeito, por favor.

Acabei que não falei das minhas posses.

Queria que todos os meus jogos/brinquedos/videogames fossem doados para uma criança que saiba cuidar das coisas. Se puder, façam uma enquete para saber qual criança deve ganhar. De preferência, para o meu filho (dependendo da idade dele), mas caso não seja para ele, que seja para uma criança que vai entender o real valor dos brinquedos que estão sendo dados a ela. E não falo valor monetário, falo valor “espiritual”.

Aqueles brinquedos me acompanharam por toda minha vida. Muitas vezes me mudei para uma cidade nova e, na falta de com quem brincar, eles foram meus amigos. Muitos deles ainda o são, até hoje. Por isso, espero que a criança que os receba, seja uma criança que vá entender exatamente qual é a situação dos brinquedos doados.

 

Voltando a internet, queria falar dos meus projetos online. Fiz algumas coisas das quais me orgulhei e algumas das quais tenho vergonha. O Rockcast foi uma delas, que me orgulho, pra falar a verdade. Por mais que a qualidade tenha deixado a desejar, era um sonho meu ter aquele programa. Desde garoto, na escola, eu imaginava um programa onde pessoas de “estilos” diferentes defenderiam suas teorias sobre as coisas e apresentariam música nova ao público em geral. Infelizmente a execução deixou a desejar e acabou se tornando o que era. Espero que vocês entendam que o que vale ali é o conjunto espiritual, e não a obra em si.

O Blog eu gostei e fiquei feliz em ter deixado aqui. Todos os textos, todas as histórias, tudo que aconteceu está listado aqui. Se sentirem saudade de mim por alguns instantes, só virem aqui e perderem algum tempo lendo-o. Tinha um professor na faculdade que dizia que ler um livro era como bater um papo com o autor do mesmo. Neste caso, faça desta mesma forma. Ler meu blog é como bater papo comigo, em meu plano espiritual.

Falando sobre meu funeral, queria fazer alguns pedidos bem rigorosos. Em primeiro lugar, gostaria de solicitar que todos fossem de uma cor só, mas que não fosse o preto. Poderia ser vermelho, azul, ou até verde. Sei lá, só queria procurar um padrão de fácil diferenciação na hora de outras pessoas chegarem ao velório. Pode ser até que faça sucesso na internet como um flashmob no enterro, ou algo assim.

Também queria pedir que a música Jeremy, do Pearl Jam fosse tocada à exaustão, durante o velório. Se é para sofrer pela morte de alguém, que seja com uma música de qualidade.

E, por último, queria que todos sentassem em círculos ao redor do meu caixão e começassem a conversar sobre os assuntos mais non-sense que puderem. Quero ver até onde pode ir sua imaginação e até onde pode ir a liberdade de se fazer últimos pedidos nos velórios. Minha intenção com isso é apenas dar boas risadas. Se eu morri, a tristeza já se foi comigo. Não é preciso mais momentos de tristeza para que possam refletir a minha morte.

Quando se sentirem sós, peguem uns DVD’s do Friends e vão ver. Com certeza eu estarei rindo com vocês de meu túmulo.

Ps.: Na minha lápide deverá conter a escritura “Aqui jaz um destro”.

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3 comentários

  1. O BOM DE TD, É QUE VC AGORA ACREDITA EM DEUS, Q TD PODE, TD VÊ. ENTÃO AKELAS PREOCUPAÇÕES VC JÁ NÃO AS TEM. VC CONTINUA VIVO,E ELE NÃO IRIA DEIXA-LO MORRER ANTES DAS PROMESSAS DE VIDA QUE ELE TEM P/ VC. GOSTEI DO VISUAL DO BLOG, RSRSRS, ESSA SENSAÇÃO DE ESTAR NEVANDO, QUE CALOR RSRSRS

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