Nosso Senhor do Busão

O ônibus é um lugar de sofrimento coletivo, onde todos sentem o mesmo cheiro, ouvem os mesmos sons e dançam a mesma música. Mesmo quando essa música é tocada em um mp152, com televisão, 4 chips e câmera de 128 Giga Pixel.

No ônibus é que vemos o futuro das pessoas refletidas em suas ações. Desde a jovem vestida com uniforme de futura professora se negando a levantar e ceder o lugar para alguém centenas de vezes mais velho que ela. Aquelas que deveriam estar aprendendo cidadania para repassá-la em nossas escolas, para nossos futuros filhos, estão praticando a “descidadania” e, sem dúvida alguma, é isso que ela ensinará para nossos filhos. Desde este tipo de jovem até os mais velhos que insistem em sentar e puxar conversa com o primeiro incauto que olhar para seu rosto e sorrir.

Mas um tipo muito comum em minha cidade e que me irrita muito mais do que qualquer outro personagem do ônibus, é o crente que se sente na obrigação de evangelizar e incomodar-nos em nossa pacata viagem.

Vocês podem dizer que eu poderia ignorá-lo, que eu poderia não tirar o fone do ouvido quando o vejo se direcionando ao centro do ônibus para, em seguida, puxar sua bíblia e começar seu texto. Mas, do contrário dele, eu tenho o mínimo de educação e esse mínimo de educação pede para que eu dê atenção aos outros quando eles falam alguma coisa, mesmo quando eu discordo ou não acredito em nada daquilo.

Pode parecer besteira, mas eu não consigo simplesmente colocar os fones de volta e deixar o cara falando sozinho. Ao relento.

Esses dias foi exatamente assim. Entrei no ônibus onde costumo sempre entrar. Ele foi se enchendo meio que automaticamente e em um certo ponto, todos os lugares estavam cheios. Alguns metros a frente, sobe este que será chamado apenas de “crente analfabeto”.

Sim, infelizmente, a pessoa em questão também era analfabeta.

Uma das maiores desculpas que os crentes inventaram é de que “Deus não escolhe os capacitados, mas sim capacita os escolhidos”. Se, e eu disse SE, isso fosse verdade, deus teria um pouquinho mais de consciência e escolheria alguém que pode, ao menos, falar o próprio nome, sem colocar nenhum R em locais indevidos. Fora isso, o fato de não conseguir pronunciar o próprio nome, haveria também a importância de que a pessoa fosse capaz de conjugar os verbos e usar os plurais de forma adequada.

Concordo que isso seria elitismo de minha parte (caso eu fosse deus, eu quero dizer), mas é melhor um elitista representado por pessoas que se chamam Flávio (ao invés de Frávio), conjugam os verbos e conseguem usar plurais do que uma entidade cósmica com poderes fenomenais representada pelo Tiririca, por exemplo.

Digam o que quiserem, mas a Igreja Católica tinha este padrão na Idade Média. Só os que possuíam poder para passar sua palavra eram os dotados de um mínimo de inteligência para saber ler.

É bem verdade que eles foram filhos da puta o suficiente para usar isso em benefício próprio e destruir meio mundo com suas profecias malucas e com suas regras bizarras. Mas não estamos discutindo se eles estavam certos ou errados. A questão aqui é outra.

Voltando ao ônibus.

Este homem subiu, se apresentou por algum nome estranho e começou.

De tudo que falava, 99% das coisas não fazia sentido. Era um misto de não saber o que estava lendo, com um pouco de não entender o que estava lendo e mais algum pouco de não conseguir se expressar direito, a ponto de ficar repetindo incessantemente a mesma palavra (fé, fé, fé, fé, fé). Incrível era ver que algumas pessoas ao redor ainda concordavam com ele. Não deviam estar ouvindo as mesmas besteiras que eu.

Antes das pedradas, quero que fique claro que o fato de me referir a “besteiras” não é por ele estar recitando passagens da bíblia, mas sim por ser alguém que, claramente, não deveria estar fazendo isso.

O homem continuava, profecia atrás de profecia, versículo atrás de versículo, e no final nem ele mesmo sabia do que estava falando. Por diversas vezes o observei ir por um raciocínio e, do nada, mudar a direção, como se não tivesse mesmo idéia nenhuma do que ele estava falando antes.

Interpretações equivocadas eram comuns em seu texto ensaiado. Era como se ele mudasse a bíblia ao seu bel prazer, esperando que em um momento, tudo que ele dissesse estivesse fazendo sentido e eu não estivesse mais o observando com um olhar de reprovação.

Minha paz já havia ido embora. Eu não podia simplesmente seguir viagem e ignorá-lo. Eu já tinha começado a ouví-lo, não tinha como voltar atrás.

Continuamos, eu em meu canto, observando-o e percebendo quão sem sentido as coisas que ele dizia era e ele no canto dele, me observando e pregando como se esperasse que eu fosse cair em mais uma de suas armadilhas da fé.

Novamente, eu explico o termo “armadilhas da fé”.

Muitos anos atrás, líamos um livro de tarô, minha mãe e eu, e no livro, o primeiro ensinamento era “Observe bem o seu cliente. Tudo que você precisa dizer está nele. Se ele está com aliança, o problema não é buscar amor, mas sim a confiança. Se ele tem duas alianças, é viúvo. Se está sem aliança, é quase certo que esteja buscando alguém”. Logo, não fazia sentido nenhum ler todo aquele livro se já de cara ele invalidou todos os ensinamentos que viriam a seguir. Largamos o livro e nunca mais demos atenção.

Assim como no livro de Tarô, a igreja evangélica também tem seu “livro de regras”. Lembro de certa vez quando minha cunhada resolveu dar um culto de ação de graças em sua casa, seja lá o que quisesse que ela estivesse agradecendo, eu deveria ir, afinal, é minha cunhada e isso era importante para ela.

No meio do culto, vieram as revelações. O rapaz bem arrumado que entoava cânticos em um nível mais alto que os outros resolveu nos revelar o que ele estava “prevendo”.

Meu sogro cairia morto por um ataque fulminante do coração.

Minha esposa morria ensanguentada em uma escada.

E eu, caros amigos, era visto envolto em capuzes negros e com meus “amigos” me levando para o buraco comigo. No final ainda havia um alerta “Cuidado com seus amigos. Muitos que dizem que são, não são”.

Seria surpreendente se, minutos antes do culto, meu sogro não estivesse se vangloriando de o médico tê-lo elogiado por seu coração ser de um menino de 10 anos. Estando MUITO longe da possibilidade de ter um infarto.

No meu caso, a explicação é menos assustadora ainda. Quem me conhece sabe o quão babaca eu sou e quão meus amigos também o são. Nenhum dos meus amigos estão metidos em alguma coisa errada. Posso dizer isso com 100% de certeza. Portanto, fica muito difícil de acontecer algo que ele estava prevendo.

Claro que minha aparência o ajudou a chegar nesta conclusão. É muito fácil olhar pra mim e me imaginar bêbado, drogado e jogado embaixo de alguma ponte com os supostos amigos. Porém, eu não fumo, não bebo e meus amigos ficam, no máximo, jogados no chão da minha casa depois de algumas horas de RPG, a diversão mais inocente já vista.

Minha esposa, eu confesso, pode morrer a qualquer momento, de qualquer coisa. Ela é frágil como Elijah Price.

As armadilhas da fé, ao qual me referi antes, é justamente isso. Quando um crente te julga pela tua aparência e acaba caindo no erro de achar que ele é puro e sensato enquanto você é só um drogado sem valor. Algumas vezes eles estão errados.

Voltando ao assunto do ônibus. Prometo não me afastar mais dele.

O rapaz continuava lá, cantando, cultuando e louvando ao senhor.

Eu ficava pensando como seria repugnante para alguns ali presentes se alguém subisse no ônibus de branco, com um turbante na cabeça e começasse a dançar e rodar, tocando tambores e entoando cânticos africanos. Com certeza a recepção seria diferente. Afinal, todos temos a liberdade de pregar a nossa fé, contanto que ela não seja diferente da minha, aí o lance é pessoal.

Algumas pessoas entravam na onda dele e curtiam (botão do facebook e tudo) o culto particular. Se bobear eu era o único incomodado com o que ele estava fazendo.

Não ligo de estar presente em manifestações religiosas, só gostaria que estas manifestações fossem em locais mais apropriados, onde pessoas não estão preocupadas com milhares de outras coisas em suas vidas e em um local onde gritar, cantar e te julgar seja mais bem vindo.

Em um ônibus eu prefiro a paz e tranquilidade de uma viagem quente e superlotada. É pedir demais?

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