Eu conheci o pai da mentira e ele se chama Jeová.

A mentira tem perna curta. Cabelo grande, cabeça enorme, corpo magro e um filho. E seu pai se chama Jeová.

Sim, é a mais pura verdade e tenho amigos que podem comprovar isso, sem sombra de dúvidas.

Uma das melhores épocas para se conhecer pessoas, caso você não seja um homicida, é a época da escola.  Há quem dica que a melhor época é a faculdade, mas o fato é que na faculdade você já é uma pessoa formada, com personalidade e desejos que os jovens, na época da escola, ainda não o têm.

Na faculdade, se você é um chato, vesgo e desengonçado, você vai continuar a ser chato, vesgo e desengonçado. Na escola, ainda há época de corrigir isso. Ou fazer vídeos e ficar rico através da internet.

Nessa época da escola, eu sofri um bocado, até um certo tempo. Eu era cabeludo e não tinha tantos amigos, e ainda tinha problemas demais com a timidez. Ainda tenho até hoje, mas consigo contornar bem fingindo ser descolado.

Lembro que foi em um ano, acho que a 7ª série em que eu resolvi mudar e me destacar. Além de ser um cara que tirava notas boas, queria ser um cara que fosse legal, que fosse interessante de se bater um papou, ou simplesmente de se juntar e ficar zoando o intervalo inteiro. E eu consegui, devo dizer.

O João Gordo (RIP) falou uma vez que se você é gordo e não gosta de ser zoado, o melhor caminho é virar roqueiro. De cara você já perde a alcunha de gordo para ser o roqueiro. Em seguida, você começa a zoar, ao invés de ser zoado. Ele estava certo. Uma pena que foi dessa para a melhor.

Na escola onde estudei, havia todo tipo de gente. Como uma escola deve ser.

Uma outra coisa que me irrita nos dias de hoje é o fato de pessoas ficarem choramingando pelo fato de “a época da escola ter passado e não ter como voltar”. Outro dia cheguei a debater com os amigos no Twitter que o fato da época de escola ter acabado, não é motivo para choramingar. Quem realmente era amigo e quem realmente fazia parte da tua vida, não vai simplesmente desaparecer porque a época da escola acabou.

Aí as pessoas postam fotos no orkut/facebook em busca de tocar o coração de seus amigos e dizer “Sinto falta dessa época” e o que eles fazem? Postam “Saudade” e falam pro amigo ao lado “Essa mina era mó chata”. Então, caros amigos, ou você são amigos, ou vocês foram amigos.

E eu tive uma amiga. A conheci por intermédio do Pará, aquele da história da árvore, lembram? Assim que nos conhecemos, ele se aproximou dela e começou a namorá-la. Era uma garota legal, com bastante conhecimento e que sempre conversávamos sobre muitas coisas. Como era namorada de um grande amigo meu, não havia nem a possibilidade de ficarmos ou de rolar interesse, aí era mais fácil ainda de conversar na boa, sem que qualquer parte confundisse a situação.

Ela comentou conosco que era modelo. Ela era magra. Só.

Não tinha muito conhecimento, mas com certeza magreza não é só o motivo para se ser modelo, mas eu não sabia disso. Nem o Rafael, que a apresentou pra toda a família dizendo, com o peito cheio, “Ela é modelo”.

Sério, hoje eu olho e penso “Caralho, ninguém como ela seria modelo”.

Mas aí você pensa, por que alguém mentiria sobre algo tão trivial? Não há motivos para mentir sobre coisas banais do seu cotidiano. Para nós, porque pra ela a mentira era só uma forma de se tornar interessante.

Eu tenho essa teoria sobre pessoas que se acham personagens de novela. Quando a pessoa sente que sua vida não tem nada que possa ser passado adiante, ela inventa, criando dramas e personificações de situações em que ela gostaria de estar, mas que, em outras situações, ela estaria longe disso.

Assim era nossa amiga. Ela mentia pelo simples prazer de mentir. Até hoje acredito que seja assim. Como falei no começo, perdemos contato há algum tempo.

Certa vez, conversando, ela deixou escapar “sem querer” que todo o seu dinheiro como modelo era investido em uma poupança criada pela sua família, para que ela não gastasse antes do tempo. Logo, nas contas dela, ela tinha um montante em torno de 20 mil reais. Para nós, pequenos adolescentes, esse era um dinheiro considerável.

E poxa, nossa amiga, pessoa íntima da gente, tinha uma conta de dar inveja a qualquer um.

Muitas foram as histórias. Muitas foram as dúvidas, mas nós nunca tivemos coragem de questionar. Na verdade, não era interessante. Até aquele momento, não havia surgido a dúvida real da situação.

Até que…

Nós estudávamos no turno da manhã e tínhamos como costume ficar até o fim da tarde, para encontrar com conhecidos e fazer novas amizades. Era um costume besta mas que pra nós fazia sentido, afinal, não teríamos nada pra fazer em casa mesmo.

Em uma dessas situações, cruzamos com uma menina pequena, muito bonitinha e muito sorridente. Ela nos disse “oi” como se nos conhecesse e seguiu adiante. Ficamos sem entender e deixamos ela seguir a vida dela. Ela poderia realmente nos conhecer ou ser uma doida psicótica. Eu não queria saber a resposta da pior forma possível.

Mais tarde, no intervalo deles, nós esbarramos com ela de novo, agora rodeada de colegas. Fomos até ela e perguntamos “Who the fuck are you?”. Ela sorriu e disse, apontando pro Rafael: “Ele fica com a minha irmã”.

Questionamos ela de quem raios seria a irmã dela e ela nos disse, que era a modelo. Aquela que citei lá em cima.

Na hora vimos uma oportunidade de tirarmos todas as nossas dúvidas sobre as “verdades” contadas pela irmã. Rapidamente ela riu e desmentiu a maioria dos boatos de que a irmã era modelo e tudo mais. Inclusive, uma das mentiras era que ela era descendente de alemães. O sobrenome dela realmente era próximo de algo alemão, então nunca questionamos, mas essa a irmã dela riu MUITO e disse “Vai lá em casa qualquer dia, vocês vão tirar a dúvida pessoalmente”.

Bom, o Rafael namorava ela e a irmã mais nova dela havia acabado de nos convidar para ir em sua casa. Mesmo que fôssemos vampiros, estaríamos dentro dos moldes do convívio social. Nos apressamos para visitá-las no dia seguinte.

Ao chegar, ela foi nos apresentar para sua família, com toda a inocência de que nós teríamos memória curta e não lembraríamos de nada que nos havia contado. Ao que tudo indica, ela contava muito com a possibilidade das pessoas nunca lembrarem das histórias, porque diversas vezes ela contou histórias iguais com finais diferentes.

Uma dessas histórias envolvia ela, o namorado dela, um carro e uma, como posso dizer, relação sexual duradoura. Por duradoura quero dizer que ela, sem pudor nenhum, afirmou para um grupo de amigas que seu novo namorado (na época dessa mentira ela já havia se separado do Rafael) era um animal, que em uma situação qualquer, no carro dele, ele havia conseguido realizar o ato 17 vezes. Sim, 17 vezes.

No momento em que ouvi isso, eu fiquei imaginando o estado da piroca do maluco depois de ficar 17 vezes roçando-a em parte do corpo dessa nossa amiga. Era impossível para uma pessoa normal realizar isso sem ao menos chorar sangue. E quando digo chorar, imagino que vocês entendam o que estou querendo dizer.

Sim, 17 vezes. E você aí se gabando daquela noite que você inventou para os amigos onde tinha conseguido “Dar 3 sem tirar de dentro”. Seu amador de merda.

Pois bem. Chegamos na casa dessa nossa amiga. Lembra aqueles milhões que estavam guardado na poupança? Realmente estavam fazendo falta, porque a casa da guria era só obra, do teto ao chão. Tudo estava em obra, e pela textura da terra do lado de fora de seu muro mal construído, a obra já estava parada há uma boa quantidade de meses. Pena que ela não podia sacar tal quantia. Naquele momento era óbvio que ela estava precisando muito.

Ela foi muito solícita e nos convidou a entrar, explicou que seu pai era uma pessoa ótima e não ligava dela ter filhos homens. Na verdade, ele até gostava. Por ser um assíduo fã de videogames, ele adorava passar o tempo dele com os amigos dela, jogando. E ele se chamava Jeová.

Assim que pisamos na sala dela, bateu o constrangimento. O pai dela realmente era uma ótima pessoa, muito amigável e muito gente boa. Não ligava de ser zoado, adorava zoar bastante e estava sempre rindo e brincando. Mas, se não me falha a memória, aquela cabeça quadrada com marcas de quem carregou muita lata dágua na cabeça tinha pouquíssimas semelhanças com os alemães. Mesmo a mãe dela, uma adorável senhora, diga-se de passagem, não chegava nem remotamente perto de ser uma parente de alemães.

Eu nunca consegui desmascarar ninguém assim, na cara de pau. O Rafael, por outro lado, nunca se mostrou preocupado em fazer isso. Daí, quando saímos da casa e sentamos na calçada, foi fácil pra ele perguntar “Aí, fulana, cadê o resto da tua família, aqueles que têm a parte alemã no sangue”.

Eu não me aguentei. E ela ainda tentou se explicar, dizendo que era o avô dela que era alemão, o que a irmã prontamente desmentiu, dizendo que o tal “Avô” dela, alemão, era um conhecido da famíla e que isso nunca entraria no sangue dela, afinal, se sua família tem um amigo loiro de olhos azuis e seu filho nasce parecido com ele, só há uma explicação para o fato e todos sabemos qual é.

Em mais uma de suas mentiras, nossa amiga afirmou, em tom de brincadeira, que seu novo namorado (aquele das 17 vezes) podia chamar a mãe dela de mala, porque havia carregado ela dentro do porta mala do carro. Nós rimos e achamos a situação engraçada. Quem nunca fingiu entrar na mala do carro para sacanear e se divertir com a situação, né?

O problema é que em seguida ela resolveu completar a história e disse que sua mãe havia sido carregada do Rio de Janeiro até Cabro Frio, DENTRO DA MALA DE UM PUMA. Atente a imagem:

Imagine viajar aí dentro

Imagine viajar aí dentro

Imediatamente, todos caíram na gargalhada. Sério, até eu que era uma pessoa quieta e que não queria rir das mentiras dela não consegui me conter. Sério, não dava mesmo. Só de imaginar que alguém viajou por horas e horas, enfrentando engarrafamento e tudo mais dentro de uma mala que não cabe nem uma bolsa de supermercado era demais, até pra ela.

Não parou por aí. Alguns meses depois ela comentou conosco que havia discutido feio com o pai dela e que, em um momento de fúria, ela foi até o banco, sacou todo o dinheiro e jogou na cara dele. Para ele parar de cobrar a ela por tão pouco.

O Rafael olhou para mim, olhou pra ela e então perguntou “Mas esse dinheiro não era pra ser sacado só depois dos 18 anos?”. Ela ficou branca. Sério, acho que ela nunca imaginaria que fôssemos lembrar disso, mas como era de costume, sempre comentávamos as mentiras dela, então todas elas estavam frescas em nossa memória.

Ela realmente não soube o que responder. Inventou meia dúzia de palavras e as colocou em ordem, imaginando que fosse fazer algum sentido. Não fez. Dali em diante, tudo que ouvíamos dela soava como mentira.

Até hoje temos um jargão entre nós que veio dela. Toda vez que chegávamos na casa dela e ela nos oferecia algo para comer ou beber e nós dizíamos sim, ela ficava sem saber o que fazer. Então ficava nos questionando, insistindo que nós não íriamos comer, que só estávamos falando de zoação e que ela nem ia se dar o trabalho de preparar porque sabia que nós não iríamos aceitar. Mesmo se continuássemos insistindo, ela desconversava e desistia de nos oferecer, afinal, nós não iríamos aceitar mesmo.

Hoje em dia ela está casada, tem um filho (com a cabeça ENORME, diga-se de passagem) e temos muito pouco contato. Só mesmo quando nos cruzamos na rua.

Ela é uma dessas pessoas que sempre reclama que a época da escola passou e que não vai voltar atrás, mas ninguém que reclama disso percebe que se todas as pessoas ainda existem e ainda podem se encontrar conosco, não há porque lamentar de alguma coisa que pode ser recuperado.

Se você é uma das pessoas que ficam choramingando por esse tipo de banalidade, seja homem, crie algumas bolas e vá ver seus amigos. Se são seus amigos mesmo, todos vão querer o contato de volta.

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3 comentários

  1. HAHAHAHAHA que mina mentirosa.
    Aqui na rua tinha um que mandava cada uma mais tensa que a outra! Teve uma vez que ele falou que foi a praia e ficou preso em um buraco a maré encheu e ele ficou debaixo d’águas por meia hora! kauAKUAakUAkUKA
    Apnéia pra ele é brincadeira.

    P.S. Quando eu tinha uns 16 anos eu já andei na BR101 dentro da mala de um Apolo (http://bit.ly/eHhlrM), porém com a tampa aberta e a pressão do vento forçando para fechar é uma coisa surreal. Sim, eu sou retardado.

  2. Esqueci de falar uma coisa.
    Eu sinto falta da época do colégio as vezes, mas não pela as amizades pq tenho contato com todos até hoje, sinto saudades das merdas que faziamos e de não ter responsabilidade com porra nenhuma praticamente, exceto passar de série.

  3. Não consigo criar amizade com gente mentirosa, sério. Quando eu era mais novo, tinha (mais de) um colega de rua que contava absurdos, nem gosto de lembrar.

    Como eu era (era?) meio bobinho, acreditava em algumas coisas… quando pensava que podia ser mentira, ficava p da vida.

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