Dinossauros e o incêndio iminente

Eu amo dinossauros. Pelo menos, amei por um bom tempo de minha humilde vida.

Durante uma pequena época de minha vida, munido de uma renda mensal advinda de venda de doces na porta de casa, eu decidi colecionar alguma coisa. Qualquer coisa que fosse. Qualquer coisa importante, lógico.

Eu sempre gostei de bonecos, conforme citei no texto onde o Thiago supostamente havia roubado meu boneco. Se você não o leu, ele nunca roubou.

Durante esta minha infância, eu nunca tive paciência pra colecionar coisas de forma organizada. Sempre fui ansioso demais pra ficar aguardando o próximo mês pra comprar apenas mais um boneco para completar uma coleção besta que eu estivesse fazendo. Nunca tive saco pra isso e não tenho até hoje.

Posso tirar uma foto da minha caixa de bonecos (sim, eu ainda os tenho) e mostrar pra vocês. Se vocês encontrarem mais de 2 bonecos da mesma “série”, eu dou todos a vocês. Nunca segui um padrão para comprar bonecos. Só comprava os que me interessavam e pronto.

Exceto os famigerados dinossauros.

Houve uma época, em que o Inmetro provavelmente não existia,  que uma enxurrada de brinquedos perigosos e assassinos foram largadas no mercado por empresários que só se importavam com seu dinheiro e nada mais. Hoje em dia até brinquedos feitos na china devem ter um selo do Inmetro para liberá-los no mercado brasileiro.

Um desses brinquedos largados nos camelôs eram os Dinossauros de borracha.

Os meus eram parecidos com estes

Os meus possuíam uma cor mais próxima da realidade, mas ainda assim a foto acima reflete bem como eles eram. Eram exatamente assim.

Eu comecei comprando um ou outro, só por diversão. Sabe quando você precisa de algum monstro gigante pra destruir a cidade e só tem bonecos maiores que os outros e tem que improvisar? Então, eu precisava de alguma ameaça real para desafiar meus “heróis”.

Como todo mês eu ganhava uma “mesada” dessa venda de doces, eu ia sempre na primeira segunda feira do mês com a minha mãe em algum lugar distante para comprar os dinossauros.

Minha mãe era dona de casa nessa época, então ela não podia largar tudo e todos para sair comigo apenas para comprar bonecos. Então, eu ficava aguardando algum dia em que ela fosse sair e pedia pra ir junto, na esperança de comprar meus dinossauros.

Minha mãe sempre teve uma ótima vantagem para andar na rua. Ela não se importava nem um pouco em andar a cidade inteira até achar o que estivesse procurando. Ela só priorizava as coisas que precisavam ser feitas, depois o passeio era todo meu, atrás dos meus dinossauros ou de coisas aleatórias que eu quisesse naquele momento.

Eu não lembro bem porque da minha fixação por dinossauros, mas eu lembro muito bem de uma das fixações insanas da minha mãe. Quando digo insana, quero dizer exatamente isso. Insanidade pura.

Minha mãe sempre teve graves problemas de memória. Problemas esses que nos levaram a criar um código para avisar que estávamos fazendo certa coisa. Nós dançávamos enquanto realizávamos tais atos.

Por exemplo. Se você sempre se esquece se trancou a porta ou não. Tranque a porta dançando, cantarolando “estou trancando a porta” e aquilo vai ficar marcado para sempre em sua memória. Ou pelo menos até você começar a confundir o dia em que dançou, se foi antes de sair de casa ou se a dança que está se lembrando é do dia anterior. Aí já é um novo problema e eu não tenho dicas pra isso.

Acontece que esta técnica ainda não havia sido desenvolvida por nós na época dessa história. Começo a imaginar até que ela só foi surgir por conta desta situação, em especial.

Como falava, minha mãe tem duas fixações insanas: Trancar portas e fechar a porra do clique do gás. A inclusão do “porra” foi por minha conta.

Eu realmente não sei o nome daquele “clique” do gás. É a alavanca que interrompe ou libera o gás para que o seu fogão comece a aquecer a santa comida posta em sua mesa. Não é o botão do fogão, é o “clique” que fica acoplado ao botijão.

Se você mora em prédio e não sabe do que estou falando, fecha o site e vá se jogar da janela. Ninguém gosta de você por aqui.

Estas duas fixações sempre foram alvos graves de preocupações alheias da minha mãe. Não importava o que ela estivesse fazendo. Se por um instante passasse um flash pela cabeça dela e ela lembrasse que “não fechou a porta/não fechou o clique”, fudeu, ela parava de fazer o que estivesse fazendo para correr desesperadamente pra casa.

Neste dia, pra variar, não foi diferente.

Havíamos andado boa parte da cidade em busca dos dinossauros e não havíamos encontrado nenhuma das barracas regulares em que comprávamos. Só nos restava uma última opção. Uma pequena loja que ficava do outro lado do viaduto onde estávamos próximo. Era coisa de 1 Km, ou menos.

Eu não tenho noção de distância, então, desconsidere.

Era bem perto. Só precisávamos andar um pouco mais, atravessar este viaduto e estaríamos exatamente onde a loja se encontrava.

Meu sorriso já estava estampado na cara. Toda a felicidade por qual aguardei um mês inteiro estava para se materializar em forma de uma criatura ancestral de borracha.

Caso você não saiba, eu tinha um pouco de esquizofrenia aguda e conversava com meus bonecos. Portanto, todos já estavam esperando ansiosos qual seria o novo desafio a ser enfrentado naquela tarde.

Vou fazer um teste para interromper um pouco seu raciocínio.

Pense em uma fruta. Agora pense em uma ferramenta. Pense em uma novela. Pensou? Pois bem. Nesta mesma velocidade em que você pensou nestas inutilidades, a minha mãe pensou “Porra, não fechei o clique do gás”.

Aí você me pergunta, com toda sua inocência, como eu soube o que ela pensou.

No instante em que começamos a subir o viaduto ela apertou minha mão mais forte, olhou pra mim com um semblante sério e perguntou “Você lembra se eu fechei o gás?”.

Caraca, quando ela falou aquilo eu já imaginei meu mundo acabando e ela me arrastando de volta pra casa em uma velocidade absurda. Como se alguns minutos que demorássemos ali fosse salvar a casa de ser carbonizada ou não.

A única diferença é que eu não precisei imaginar por muito tempo. Em questão de segundos ela começou a me arrastar pelo braço e fazer exatamente o que eu descrevi no parágrafo acima.

Eu ainda questioneu, disse que estávamos perto demais pra voltar. Ela me mandou ignorar os questionamentos de minha mente juvenil e disse para eu me calar porque estávamos voltando pra casa “Naquela mesma hora”.

Eu não tive tempo de pensar. Quando dei por mim já estava no ônibus voltando pra casa.

Eu não sabia o que fazer. Não sabia como agir diante daquela situação. Já tinha visto ataques de pânico da minha mãe frente a estas situações, mas nenhuma delas havia me prejudicado tão diretamente assim (porque naquela época, perder minha casa era bobeira em frente a não comprar meus dinossauros).

Ela veio no ônibus me pedindo desculpas. Explicou que voltava lá outro dia, “amanhã até”, mas que ela não podia deixar isso pra depois. Era mais forte do que ela.

Eu nunca fui bem em lidar com frustrações (Nem o Dexter, reflita) e fiquei mesmo muito chateado.

Antes de chegarmos em casa, uns 3 quarteirões antes (onde o ônibus maldito nos deixava), ela viu uma fumaça negra subinda em direção ao céu exatamente onde estaria a nossa casa. Ou pelo menos assim foi interpretado pelo nosso cérebro. Naquele momento eu senti um pouco de remorso por me preocupar mais com o dinossauro do que com a minha própria casa.

Corremos desesperados já esperando os bombeiros em nossa porta para nos dar a triste notícia. Como era de se esperar, o incêndio não era em nossa casa. Nem na de ninguém.

Lembra daquela história do Vitor, do velotrol? Então, algum infeliz resolveu botar fogo na caçamba onde o Vitor costumava “morar” e a fumaça parecia realmente vir de nossas casas.

No dia seguinte ela me levou, como prometido, no centro da cidade e eu pude comprar o meu tão querido dinossauro. Até que olhando assim, não parece ter sido um estrago tão grande.

O Tiranossauro foi o mais difícil de conseguir

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2 comentários

  1. Sua mãe não esta sozinha nesse mundo, eu tb sempre fecho o click do gás, porém não tenho a necessidade, insanidade ou esquecimento de correr para casa para fecha-lo! lol

    Dançar ou cantarolar para guarda algo é novidade pra minha pessoa e certamente engraçado. Imagina alguém na rua fechando um portão dançando! kauAKaUAKauA

    Unica vez que me envolvi com dinossauros de brinquedo foi quando eu estava na quinta série e eu e meus amigos fizemos um vulcão na feira de ciências com direito a erupção e tudo com pó royal, vinagre e corante! Certamente a maior obra prima da minha vida!

    Eu nunca fui de colecionar nada, exceto álbum de figurinhas e uma vez cismei de colecionar latinhas até o dia que me encheu o saco e joguei tudo fora!

    Abç VanGuedes

  2. Essa preocupação com gás e porta é normal. Confiro ambos umas 20 vezes antes de sair de casa, mas não conhecia este método da dança… daria um bom filme indiano =)

    Já ouvi a história de um cara que entrou no banheiro de um supermercado cantarolando que ia fazer o numero 2, e cantava enquanto arranhava a louça, narrando o ato… isso é bizarro…

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