Orgulho da prole alheia

Houve uma época no passado em que eu tive um filho. Não um filho como o próprio nome diz, um filho no sentido de ter alguém que eu respeitava e apoiava, como os pais devem fazer com os filhos.

Eu explico, caso você não tenha entendido ainda.

Assim que casei eu comecei morando em um bairro de vizinhança gentil e humilde. Ainda moro nessa mesma região até hoje, mas o local onde moro agora não tem os mesmos vizinhos e a mesma gente que tinha antes.

Não serei hipócrita e direi que gostava de todos os vizinhos. Tinham alguns que eu não suportava. Tinha o casal que espancava a filha por simplesmente NADA, tinha a velha gorda que tomava conta da vida de todos na vizinhança, tinha o vizinho maconheiro de mesmo nome que o meu, e tinha o meu filho. Desse último eu gostava, por óbvia associação.

Minha esposa sempre teve queda por caras de cabelo grande, foi assim, logicamente, que eu a conquistei. Nem precisei fazer muito esforço. Toda minha beleza e minha semelhança com o Brad Pitt, associado ao meu cabelo grande fez ela me desejar instantaneamente. Embora eu a ache muito parecida com a Angelina Jolie, ela discorda de mim.

Esse meu filho, Lucas Amorim, tinha um cabelinho de “cuia”. Aqueles cabelinhos liso de crianças em idade de “escolha de personalidade”. Sabe? Aquela idade em que você não escolhe roupas nem corte de cabelo, sua mãe o faz por você e você só colhe os frutos colhidos por ela.

Lucas era um garoto comum, como qualquer outro. Tinha suas vontades, mas trocava todas elas por ficar jogando videogame comigo durante algumas noites.

Lucas estava rodeado com tudo que há de pior para os jovens. Quando começou a crescer era natural que ele fosse para o lado mais “fácil” da correnteza. Se deixando levar.

Eu me mudei daquele local, fui para algumas quadras dali e acabei me afastando mais do que gostaria de Lucas. Daí pra frente, só soube de histórias.

Os amigos de Lucas estavam fumando maconha, alguns roubando, alguns brigando na rua e alguns sendo crianças, mesmo quando tinham 19 anos de idade. Sabe? Aquela idade em que você ja é velho mas não tem a menor idéia do que quer da vida e fica por aí, fazendo todas as merdas que sua mente consegue imaginar.

Quando encontrava Lucas na rua, já grande pra cacete e com cara de “muleque piranha” eu pensava: “Poxa, uma sacanagem eu não estar do lado dele pra dar uma força”. Claro que Lucas tinha família, irmãos, irmã e a mãe, que sempre cuidou muito bem dele, mas quando você cria um vínculo com a pessoa, sempre deseja que essa pessoa esteja melhor do que está, mesmo ela estando no nível máximo de qualidade de vida.

Vê se a cara de "muleke piranha" ajuda?

Isso me entristecia, pra dizer a verdade. Era muito triste ver que uma criança tão “especial” tinha se tornado um jovem “comum”, daqueles que não sabem o que fazem da vida e daqueles que não pensam em nada a não ser “qual a boa de sexta feira”.

E isso, meus amigos, é uma bela lição de como a vida lhe ensina a ser menos filho de puta e de como você não deve julgar as pessoas apenas olhando pra elas.

Hoje vindo no ônibus, eu encontrei com a mãe de Lucas. Sempre passava por ela pela rua e sempre acenava ou dava-lhe um sorriso, uma coisa simples que só mantinha acesa aquela amizade que outrora nos uniu pelo seu filho.

Houve uma época em que o Lucas disse pra ela que estava jantando na casa “do pai dele” e eu fiquei super preocupado em como isso soaria aos ouvidos dela. Rapidamente eu tratei de me encontrar com ela pra esclarecer que éramos amigos, que gostávamos muito do filho dela e que não tínhamos intenção nenhuma de vendê-lo no mercado negro de filhos perdidos.

Pode parecer loucura, mas imagine que você tem um filho e que seu filho liga pra sua casa e diz para a própria mãe que está jantando na casa de um estranho qualquer ao qual você chama de pai. Agora diga-me, como você se sentiria em relação a isso?

Para evitar quaisquer problemas eu corri atrás dela para resolver esse problema.

Antes mesmo de me explicar ela já tinha dito que ele já havia contado pra ela, que nós éramos legais e que chamávamos ele de filho somente por carinho, por amor mesmo. Somente isso.

A mãe dele era uma ótima pessoa (por sorte nossa, devo dizer. Isso poderia gerar um problema enorme) e não se preocupou nem um pouco em ter dois estranhos chamando seu filho de “filho”. Pelo contrário, achou ótimo que tivesse mais gente gostando de seu filho e o ajudando a dar um “caminho” pra sua vida.

Acontece que, no ônibus, como havia dito, ela me informou de algumas façanhas desse meu filho esquecido. E qual não foi a minha surpresa ao chegar no trabalho, pesquisar por Lucas Amorim no Google e encontrar dezenas de links mostrando como foi dificil a luta dele para entrar na escola onde estuda.

No ônibus, sua mãe me contou que Lucas estudou MUITO para entrar na escola onde estuda. Que a escola era modelo de ensino para muitos e que, em parceria com a Oi, haviam criado um dos maiores núcleos de ensino multimídia do Estado do Rio de Janeiro, senão do país.

Aí, clicando em um dos links eu encontro isso:

Nada mais nada menos que a história daquele que um dia eu chamei de filho. A história de um dos moleques que viviam correndo ali pela vizinhança. A história onde conta que Lucas Amorim, não só ingressou na melhor escola multímidia da região como também foi ganhador do Projeto Geração Futuro, sendo premiado com um computador para poder praticar seus futuros projetos.

Daí você se pergunta. Ah, mas quais projetos?

Uma das práticas tidas como “normais” desse Núcleo Avançado em Educação é de os professores dar projetos de criaçãode jogos para os alunos fazerem. Daí, uma das informações que a mãe de Lucas me passou é que ele, simplesmente, passa algumas noites acordado “CRIANDO JOGOS”. Porra, criando jogos? Enquanto você com todo seu conhecimento de PS3 e Xbox não consegue fazer um panfleto em tamanho A6 o moleque está criando jogos. E aí, onde está seu Deus agora?

E, pelo que soube, ele está caminhando pra ser um dos finalistas de um “concurso” que dará início a um projeto com uma verba inicial fornecida pela própria escola.

Só não sinto mais orgulho dele porque estou guardando o máximo de orgulho quando meu próprio filho tiver suas conquistas, até lá eu me felicito demais com as conquistas desse meu filho emprestado.

Então, meus caros amigos, quando vocês ouvirem no futuro sobre um tal de Lucas Amorim, lembrem-se de seus vizinhos que ficam na rua soltando pipa e brincando de pique esconde. Porque o meu vizinho, estará criando jogos.

E aí você se pergunta do porque de ser tão importante que o governo invista pesadamente em educação, né? Porque realmente nossos garotos (os pipeiros) são exemplos de educação bem aplicada. Acordem, por favor.

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6 comentários

  1. O Amorim é isso tudo e mais um pouco: é educado, carinhoso, estudioso…
    O que o prof. fala no vídeo é verdade: ele se ajoelha ao meu lado na mesa e fica tirando dúvida sem parar; me pára no corredor, me segura pelo braço e diz que eu só vou embora quando terminar de explicar!!
    Com certeza,ele é um dos orgulhos do Nave.

    Mas, aquele vídeo, na sala de aula… não é assim não!!! Tão concentrado assim…. os que estão ao redor dele então… todo mundo só na zoeira!!!

    Parabéns pelo filho!!!!

  2. Não consegui e nem ao menos tentei ler este post não me emocionar. Naquela época em que conheci meus novos pais, não lembro exatamente o que senti ou o que eu achava daquilo, mas lembro que eu gostava de ter essa atenção. Não foi algo fútil ou imperceptível, tanto é que não esqueci dos momentos. Lembro de cada detalhe, lembro do meu pai me ensinando a fazer mágica com cartas, lembro de uma festa que me levaram e teve uma tal brincadeira pra saber que pai tinha o pé maior, daí o vinícius levou o sapato dele, só não lembro quem ganhou rs, lembro das 3 beyblades(acho que é assim que escreve, :s) que vocês me deram, lembro até mesmo de ver umas 4 ou 5 pessoas jogando RPG e eu tinha curiosidade de aprender.
    Sem dúvidas, foi importante ter vocês como meus pais. Tenho total respeito por vocês e gostaria ainda de manter contato.
    Obrigado pelas palavras, obrigado por me adotarem rs, obrigado por tudo.
    Abração,
    Seu filho, Lucas Amorim.

  3. Emocionante. Acredite @vanguedes, vc tb é responsável por ajudar esse muleke piranha estar onde ele está hj. Parabéns a todos os envolvidos.

    PS: Porra, o garoto aparece aqui e vc se gaba de ter ganhado a gincana?? Mostre esses emoções escondidas, homem!

    1. Não preciso, já está tudo claro demais no post. Realmente me emocionei em vê-lo aqui. Saber que em algum momento o que eu fiz foi importante pra ele é o máximo. Fico muito feliz mesmo.

      Compramos um jogo de mágica pra ele, porque ele adorava aprender mágicas. Cara, durante um bom tempo nós realmente adotamos ele.

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