Vitor e o velotrol reciclado

Olá queridos leitores. Desculpe pelos últimos meses de desaparecimento. Metade da minha casa caiu e eu precisei reconstruí-la com a ajuda de estranhos que fizeram um mutirão para auxiliar neste feito.

Antes que seus sentimentos se desenvolvam demais, deixe-me dizer que o primeiro parágrafo é mentira. Só o escrevi na intenção de você sentir pena de mim e continuar a ler o post, que consegui escrever com muito esforço depois de tanto tempo ausente.

Mas dessa vez prometo que vai.

Hoje, para voltarmos ao clima de vergonha alheia de infância, eu contarei a história de um menino chamado Vitor. Um garoto pobre, filho de pais separados e que era meu vizinho, assim permanecendo por quase 4 anos, tempo suficiente para conhecer e admirar toda a excentricidade desta criatura vesga.

Vitor era pequeno, com o cabelo bem curto (uma daquelas técnicas das mães preguiçosas que raspam a cabeça dos filhos para que eles não peguem piolho ou doença pior nessas escolas públicas da vida). Vitor tinha uma característica marcante, ou duas se fosse visto pela sua própria visão. Vitor era vesgo. Estrábico. Ou “Caolho”, como era conhecido entre seus amigos.

Vou te dizer que a diferença entre vesgo, estrábico e caolho ainda é um mistério para mim até os dias de hoje. Claro que alguns segundos no Google sanaria minha dúvida, mas que graça teria eu saber algo que demorei tanto tempo para “não aprender”? Por isso eu prefiro fechar meus olhos e ignorar que hajam diferenças entre tais…particularidades.

Fora esta deficiência visual de Vitor, ele era perfeitamente normal. Exceto pela forma como ele costuma encontrar diversão.

Enquanto todas as crianças gostavam de brincar com carrinhos caros, com bonecas pomposas (Ah gente, sem preconceito, vai. Tu ainda pode ter filho um dia), bicicletas luxuosas e bonecos que simulavam soldados para trucidar os “vilões” de outros países, Vitor tinha o péssimo costume de brincar com tudo que ele encontrava no lixo. Sim, caros amigos, Vitor era viciado em lixo.

Neste momento você deve ter recostado em sua cadeira de forro rasgado e pensado “Ah, tanto mistério pra isso?”. O que vem a seguir é muito mais animador, acredite.

Vitor não era um desses pequenos meninos que catam coisas velhas no lixo do escritório do pai. Vitor nem tinha um pai vivo, na verdade. Fora criado pelo avô e pela mãe, em uma casa horrenda e de decoração de gosto muito duvidoso.

Vitor ia mais longe em seu vício. Tal qual um viciado em cocaína abre sua própria refinaria, Vitor montou um grande e fétido lixão nos fundos de sua casa. Para rechear seu lixão com coisas novas, ele ia até as enormes caçambas de lixo nas esquinas e catava tudo que podia encontrar de útil ou de mais inútil nelas. Brinquedos destruídos, contas pagas, documentos inúteis, papel e mais papel, algumas coisas que nunca sabemos a utilidade e por aí vai.

Vitor mantinha em sua casa um lixão particular, onde todo tipo de porcarias encontradas por ele pelas ruas era levado para lá e organizado de uma forma peculiar: Lixo na esquerda, lixo na direita, em cima e embaixo, mais lixo. Era lixo para todo lado.

Com o avô trabalhando e a mãe tomando conta da irmã mais nova, Vitor foi construindo seu próprio depósito de lixo dentro de casa, sem ninguém perceber.

Entendam que o lixo era acumulado em pequenas sacolas, assim algum adulto intrometido que fosse até os fundos de sua casa e tentasse entender o que se passava, Vitor podia apenas balançar a cabeça como um autista qualquer e dizer que estava brincando com coisas velhas. Se ele conseguia montar um lixão dentro de casa, não seria difícil despistar os pais com uma desculpa dessas.

O que Vitor nunca contou era que um dia poderia acontecer um acidente e um de seus poucos amigos que sabiam da história do lixo entregar para a mãe dele o que estava havendo. Antes que me acusem de ser um delator como Judas, eu digo, em minha defesa, que alguém precisava interromper aquela insanidade.

Você sabe o que é um velotrol? Sim, aqueles brinquedos com cores espalhafatosas que possuem três rodas e um pedal. Lembrou? Então, quarde bem a imagem dele em sua cabeça, pois você irá precisar.
Em uma dessas incursões às caçambas do bairro, Vitor encontrou um velotrol em ótimo estado, segundo ele. Algumas rachaduras, a roda estava meio destruída, o pedal estava sem a capa plástica, mas no fim das contas até que era um velotrol enxuto.

Vitor ficou fascinado pelo velotrol. Brincava com ele onde podia. Divertia-se empurrando aquele pedaço de lixo pra cima e pra baixo. Sempre sentado e cantarolando feliz em cima de seu velotrol.

Claro que haviam jogado o velotrol fora por um motivo. O velotrol não só quebrou ao ter o peso de Vitor sobre ele por tantas horas que um pedaço do tamanho de uma mão aberta adentrou suas nádegas e lá permaneceram até um médico especializado retirá-lo de lá. Vitor gritou como se não houvesse amanhã, tentando avisar sua mãe o que havia acontecido. Por sorte eu estava com ele nesta hora, assim, quando a mãe dele perguntou o que houve e ele não pôde falar pelos gritos histéricos (bem gays, devo acrescentar) que estava proferindo, eu a ajudei e expliquei-lhe a situação (viram como não fui nenhum Judas?)

Vitor foi levado ao médico com um pouco de urgência. Ganhou alguns pontos em sua nádega e ficou sem sentar por um bom tempo. No final das contas ele ficou alguns dias sem falar comigo, porque eu fui um bastardo traidor, em suas palavras (embora eu duvide que ela tenha tido a requinte de me chamar de bastardo).

Vitor aprendeu que não se deve montar em coisas encontradas no lixo da pior forma possível. Não sei ainda usa estas lições até hoje, mas com certeza a cicatriz ainda está lá para lembrá-lo de como ele foi idiota ao montar em um pedaço de plástico vagabundo e implorando para ser destruído.

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