Uma bunda e um cactus. Uma combinação infeliz

Vamos fazer uma pequena viagem no tempo?

Alguns muitos anos atrás. Minha mãe tinha uma floricultura. Antes de ter sido floricultura de novo, bar, fliperama, centro espírita, casa de inseminação artificial, museu de história antiga, loja de departamento de aeroporto, central física do Google inc. do Brasil e Albergue de espíritos perdidos pela terra. Não lembro muito bem, e tenho quase certeza que estou errado, mas acho que o primeiro estabelecimento nesta loja (que ela possui até hoje) era uma floricultura. Em outra houve um bar, um armazém e um fliperama (até onde sei), mas nessa que ela comprou com venda de doces foi mesmo uma floricultura.

Eu era moleque. Muito moleque. Moleque a ponto de precisar de um de meus irmãos mais velhos pra me defender na rua caso algo acontecesse. Talvez moleque a ponto de ser as primeiras coisas que eu lembre de minha infância, ou seja, muito moleque mesmo.

Muitas histórias antigas se passaram nessa loja. Era um local propenso a isso, eu acredito. Como não tínhamos dinheiro, passávamos a vida ali. Morávamos onde trabalhávamos. De manhã era uma loja, a noite era uma casa. Imaginem dormir quase uma dúzia de pessoas juntas, entre vasos de plantas e balcões de mostruário. Imaginaram? Pois eu vivi isso. Até me orgulho, em certo ponto.

O que interessa é que nessa época era raro ganharmos alguma coisa legal. Alguma coisa nova. Normalmente ganhávamos presentes doados pelos primos. Roupas idem. Acontece que não me lembro quem (isso sim é raro, pois sempre me lembro perfeitamente de quem me deu o que em todas as épocas da minha vida), por uma obra do destino resolveu me presentear com um carrinho de controle remoto.

Meu irmão mais velho (o que me defendia sempre), também ganhou um. Diferente do meu, é claro, mas ele também ganhou, o que me faz crer que foi alguma data especial como dia das crianças, aniversário ou algo do tipo.

Quer dizer, aniversário eu duvido, porque Ademar, Cleber (outro irmão) e eu fazíamos aniversário MUITO pertos um do outro (fazíamos, porque agora não fazemos mais, né? Idiota). Ademar faz aniversário dia 17. Cleber faz junto com Jesus, em março. Mentira. Cleber faz dia 25 e eu faço dia 27. Todos no sagrado mês de dezembro. Logo, era quase impossível para nossa querida mãe (minha mãe, na verdade. A mãe deles é outra) nos dar um presente de qualidade todo santo ano. Já não conseguia dar uma festa, era preciso juntar todos os vizinhos e os filhos para fazerem uma festa única para um bloco da vizinhança inteiro. Trauma? Eu? Que nada. Adoro festas compartilhadas…(pausa dramática)

Que seja. Nada disso vem ao caso. Nem isso nem o fato de eu quebrar todos os brinquedos dos meus irmãos e esconder onde eles nunca poderiam achar. Na roupa de cama, onde eles fuçavam TODA noite. Até hoje não sei como eles eram tão espertos de procurar lá.

Talvez isso tenha me criado um trauma tão grande que hoje guardo todo e qualquer brinquedo que tive na infância. Alguns eu até brinco, de vez em quando.

De novo, nada disso vem ao caso. O que importa é que ganhei um carrinho de controle remoto. Lembro de ele ter sido prateado, embora um de meus outros irmãos, o Theo (tá contando?) tenha pintado ele de preto em algum momento de sua vida. Sim, eu tenho esse carrinho de controle remoto até hoje, embora não funcione mais.

O carrinho tinha um controle super estranho. Era um objeto retangular, com apenas um botão. Se apertasse muito ele ia pra frente, só um pouco ele ia pra trás, se parasse de apertar ele freiava e se balançasse e gritasse “Caralho, funciona”, ele não funcionava de jeito nenhum.

Em uma dessas situações, eu brincava alegremente com o controle. Vislumbrava o carrinho indo e vindo pelo chão vermelho da floricultura. Não era bom brincar na calçada porque destruiria o coitado, então eu era obrigado a brincar lá dentro.

Antes que eu pudesse perceber o carrinho já havia ficado maluco. Andava para onde queria. Por mais que eu gritasse, por mais que eu sacudisse o controle remoto, ele continuava andando em qualquer direção que escolhesse. Infelizmente em um dado momento ele escolheu a minha direção. Não sei porque não pensei em tirar o dedo do botão de controle, acho que no fundo eu estava gostando da sensação de ter perdido o controle sobre uma máquina de matar. Acontece que ela veio em minha direção enfurecida com o destino aleatório que eu estava lhe dando. Veio com tanta fúria que a minha reação foi simplesmente dar um salto para trás. Foi o salto que mais me custou na vida.

Na floricultura existem petúnias, rosas, girassóis, as lindas e curiosas plantas carnívoras, mas também existem os cruéis, frios e calculistas cactus. Não havia lugar melhor para descansar minha bunda se não em cima de um imponente cactus que minha mãe tinha na loja. Foi um tiro certeiro.

Minha bunda estava repleta de espinhos. Foi um sofrimento sem igual. Nunca na minha imaginei ser atacado daquele jeito. Era impróprio demais sofrer aqueles danos. A pior parte foi ter que sofrer ainda mais para que minha mãe tirasse os espinhos que insistiam em manter-se afixados em minhas nádegas, no intervalo e alguns apertar de botões do controle. Os espinhos tiraram parte da diversão, mas era engraçado ver os movimentos bruscos gerados com o carrinho quando minha mãe puxava os espinhos. eu não larguei o controle por nenhum minuto. Depois que eu já estava limpo, sem espinhos para me causar dor, eu voltei a brincar e me divertir com aquele que tinha me causado tanta dor ali, me observando como se nada tivesse acontecido. O mais engraçado é que se olhar por outro lado, você vai perceber que este cactus foi vendido e hoje pode estar aí, bem ao seu lado enquanto você lê este texto.

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