Solidariedade de C* é R***

Há muito tempo atrás rolou um debate no twitter porque um de meus conhecidos cantarolava feliz o fato de que ajudou na campanha Papai Noel dos Correios, e de certa forma estava julgando os que não fizeram como “errados” ou sem “consciência social”.

O fato é que no Brasil ser solidário é levantar-se de sua cadeira, doar parte de seu tempo a alguma causa com a qual simpatize, na maioria das vezes isso é feito sem receber nada em troca, além de carinho e gratificação daqueles que foram ajudados. Isso é, de fato, algo importante a se receber.

Na TV brasileira, ser solidário é sair da sua casa, ir a um show qualquer, levar 1kg de alimento não perecível e ser feliz por estar ajudando crianças com fome do Iraque. É sair de casa em um domingo, separar brinquedos doados por crianças para darem a crianças “mais necessitadas”. É perder 2 dias da semana assistindo a um programa com artistas insuportáveis agitando bandeiras de projetos sem fins lucrativos mas que lucram com camisetas, bonés, broches, entre outros.

Mesmo que os alimentos doados encontrem seu fim no depósito municipal e que as crianças do Iraque nunca vejam a cor do mesmo, você volta pra casa feliz, pois você já viu o show do Belo e pode dormir tranquilo por ter “feito a sua parte”. Que pessoa solidária você é, não?

Uma coisa que me incomoda brutalmente é o fato dos apresentadores da TV brasileira afirmarem com credibilidade de um monge budista que você é culpado direto pelas atrocidades que estão acontecendo no mundo. Você é culpado por não levantar da cadeira e ir oferecer seus braços saudáveis a uma causa qualquer. Se você não ligar para o Teleton/AACD/Pestalozzi e oferecer algumas dezenas de reais, você é um merda e merece o inferno por isso. Agora eu pergunto: Porque raios de motivos os artistas que estão realizando aqueles shows não doam uma determinada quantia de um cachê qualquer e acabam com a palhaçada no instante em que começou? Porque não dá audiência e nenhum artista ganha fama com isso.

Os brasileiros e os apresentadores de TV precisam entender que ser solidário e gerar audiência são duas coisas diferentes. Sem contar que ser solidário, ao meu entender, é você fazer algo que quer, da forma que pode, em benefício de um próximo, seja ele necessitado ou não. Claro que se ele for uma criança com fome do Iraque, contam muitos mais pontos na sua balança do juízo final, se ela existisse.

O fato é que nós somos bombardeados diariamente por uma quantidade exarcerbada de informações acusando-o de destruir o mundo, de matar os animais, de comer cadáveres, de queimarmos as florestas, de gerarmos lixo, de poluirmos as águas, etc. Se você avaliar cada acusação dessa (sim, são acusações) verá que as empresas que divulgam tais números, poderiam fazer muito mais ao invés de nos acusarem e solicitarem nossa “solidariedade” em prol de um “bem maior”, que eu chamo, carinhosamente, de audiência. Em uma guerra, ninguém está errado, só o lado inimigo.

Se a Rede Globo parasse de chorar pelas gotas d’água desperdiçadas nas torneiras mundiais e fizesse uma campanha para que as novelas parassem de usar água de carros pipas para fazer chuva falsa, seria de muito mais proveito para a humanidade. Ao invés disso, poderiam direcionar os carros pipas para instituições carentes e lugares mais necessitados onde conseguiriam a mesma quantidade de audiência ou até mais.

Construir casas e reformar hospitais parace que virou nossa obrigação. A Record, que tanto copia a Globo (enquanto a Globo copia a Record) também fez seu “Criança Esperança” ao seu modo. Chamou os artistas, botou todos os apresentadores no palco, criou uma meta e pronto. Estavam com o circo armado, definitivamente. E no final, nós que deveríamos nos solidarizar com os doentes da instituição Pestalozzi e oferecer nossos Reais sem dó nem piedade. Se doássemos a todas as instituições que pedem dinheiro na TV, em alguns dias não haveria mais desigualdade. Afinal, todos seríamos pobres mesmo.

Alguns meses atrás, depois deste incidente no Haiti, eu vi um comercial na TV onde pediam ajuda, QUALQUER tipo de ajuda, para as vítimas do terremoto no Haiti. O comercial tinha como objetivo angariar fundos para a reconstrução das vidas por lá. Diferente das agências brasileiras, o comercial não obrigava você a se ver como um cidadão que é, com a obrigação de ajudar as crianças. Aquilo não tinha sido culpa sua, aquilo não era para você, mero cidadão, consertar. Eles solicitavam sua GENEROSIDADE para a resolução da causa. Não estipulavam valores e não afirmavam que “nós temos obrigação de ajudar”. Viram a diferença? Eles sabem que as pessoas não são obrigadas a ajudar. Eles entendem que quem o fizer, dali pra frente, será por sua generosidade, não por sua inocência acreditando que ser solidário é tirar dos teus filhos para dar para o filho dos outros.

Estes dias caminhando pelo twitter, voltei a tocar neste ponto de solidariedade e por mais que tenha sido claro e enfático em minhas frases, alguns ainda entendiam que eu era contra ajudar pessoas necessitadas ou era a favor de uma campanha ou outra. Eu sou a favor de toda e qualquer campanha que tenha como objetivo ajudar o próximo, mas ser a favor não quer dizer que eu vou doar meu tempo ou meu dinheiro para auxiliar aquela campanha. São coisas diferentes.
Voltou-se a discutir sobre essa situação no twitter, mas dessa vez o alvo era a campanha MC Dia Feliz, da grande e tirana empresa MC Donalds.

Alguns amigos afirmavam que a campanha era apenas uma do MC Donalds arrecadar mais dinheiro, sem interesse nenhum em realmente ajudar o próximo. O que não deixa de ser verdade e de onde eu nunca discordei. Exceto pelo fato de eles também afirmavam que “essa campanha não ajuda ninguém”.

O argumento principal era de que comprando o lanche em busca de ajudar crianças com câncer era uma maneira fácil de se enganar e achar que está fazendo sua parte na salvação da humanidade. Embora eu nem acredite que sejamos obrigados a ajudar, eu sou obrigado a discordar de meus amigos. Não é a forma mais fácil, mas é a mais conveniente.

Muitos afirmaram que doar um casaco ou dar comida é muito mais fácil, você ajuda alguém que está realmente precisando, alguém que realmente quer sua ajuda. Além do que, ajudando pessoalmente, você tem a satisfação de um sorriso puro e lindo em sua frente, onde, numa campanha como a do MC Donald, você nunca vai ter.

Excetuando-se o fato de que ninguém afirmou que essa é a única forma de ajudar ninguém, o raciocínio de ajudar “aos poucos” é o mesmo de alguém que busca emagrecer e substitui pequenas atitudes em busca de um corpo perfeito. Eu explico.

Quando você está acima do peso e quer perder medidas, a dica de nutricionistas, além de dietas, é substituir pequenas atitudes de seu cotidiano. Ao invés de usar elevador, vá de escadas. Ao invés de ir na padaria de carro, vá a pé. Ao invés de rolar do quarto até a sala, vá caminhando. Coisas desse tipo.

Na questão da solidariedade é a mesma coisa. Supomos que você não tenha tanto tempo de sobra, ou que simplesmente não goste de gastá-lo ajudando a construir casas. Você não está errado, é um direito seu querer gastar seu tempo com você mesmo, ao invés de ajudando algum vereador a se eleger.

Mas não é por isso que não pode ajudar. Ao invés de comprar aquela blusa de marca, por que não comprar uma de igual qualidade mas que parte da arrecadação é direcionada a alguma instituição de caridade? Ao invés de comer o lanche gigante e engordurado do MC Donald, que sempre come, por que não pedir um Big Mac e auxiliara instituição Ronald MC Donald? Isso está longe de ser errado e é uma forma legal de ajudar, já que você não dispõe da mesma atitude de todos (pelo menos segundo os debatedores), de ajudar o próximo com as próprias mãos.

Outro ponto importante de frisar é que mesmo os defensores mais assíduos da idéia da “solidariedade televisiva” na maioria das vezes é alguém que não ajuda e que só gosta de levantar a bandeira de que estão todos errados, seja ajudando o próximo ou não. A maioria das pessoas não faz NADA para ajudar, pensando apenas em si mesmo e imaginando que uma hora vai precisar de ajuda, então é bom espalhar os boatos de que você é super solidário, assim quando precisar ninguém vai te julgar pelo que você nunca fez pelos outros. Isso é falsa solidariedade.

Agora me digam, queridos debatedores, vocês continuam achando que é errado querer ajudar como você pode, ao invés de como as pessoas querem que você ajude?
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