Minha visita proibida à fábrica de sofá

Como de costume, eu estava vagabundeando pelo twitter observando o que as pessoas estavam  falando ou sobre o que estava reclamando (costume MUITO comum entre os twitteiros). Como o feriado mais próximo é o dia das crianças, todo mundo está mudando seus avatares para fotos da época em que comiam piolho e namoravam de mãos dadas. A época onde Cine Privé era o ápice da putaria na televisão.

Eu não fiz diferente. Logo que pude troquei minha foto para uma onde nem dente eu tinha direito.

Uma das boas observações feitas pelo @RaphaelZero foi o fato de eu ter cara de endemoniado (endiabrado, para ser mais exato).

Ao ler aquilo eu percebi que, embora minha cara denunciasse uma coisa dessas, eu nunca tinha sido um capeta em forma de guri. Sempre fui muito bom menino. Nunca me meti em muitas brigas (na que entrei eu tomei uma surra feia), nunca roubei muita coisa (exceto ração de gato, raspadinha, biscoitos e doces) e nunca faltei com respeito com as pessoas de maior idade (essa não tem parêntese porque é a pura verdade).
Para ilustrar e comemorar o Dia das Crianças em grande estilo eu resolvi pensar na maior merda que eu havia feito quando criança. Mas uma merda tão grande, mas tão grande, que nem eu mesmo me lembrava de ter feito. E acabei não lembrando de nenhuma de proporção tão homérica assim. Exceto uma.

Algumas vezes já comentei por aqui e com amigos próximos sobre um amigo que chamarei de “Bibinho”. Nunca comentei de um amigo chamado Renan. Pois bem, são essas duas figuras que darão as caras em meu querido blog hoje.

Para vocês terem uma noção do nível dos amigos, um desses cidadãos citados acima foi preso recentemente roubando carros, em parceria com A SUA ESPOSA. Ou seja, eu tinha amigos muito legais, naquela época.

Em contrapartida, Renan filiou-se recentemente às Forças Armadas Brasileira. Não que isso signifique muita coisa, mas com certeza é melhor do que ser presa cometendo um crime com sua cônjuge.

Embora eu esteja dando a impressão de que Bibinho era “errado”, devo admitir que ele era um ótimo amigo e muito honrado em suas palavras, pelo menos comigo. Embora a vida o tenha feito seguir por um outro caminho, Bibinho sempre foi um garoto bom e sempre estava disposto a ajudar os amigos (mesmo que fosse para espancar o padrasto de alguém).

Em uma das muitas casa que já morei, na frente de uma delas, especificamente, havia uma fábrica de sofá. Para que entendam melhor, usarei um mapa muito bem elaborado por mim, exemplificando ainda mais os pontos citados:

No círculo Azul (ou no Ponto A, caso você tenha tomado Viagra) era o local onde eu morava. E no Círculo Verde (Ponto B) era uma antiga fábrica de sofá, que acredito existir até hoje.

Ela não era uma fábrica enorme, de proporções faraônicas. Ela era uma daquelas fábricas de bairro que fazem sofá com estampas de qualidade duvidosa mas que sua avó ama de paixão e na sua casa tem uns 3.

Quando eu fui morar ali a fábrica já existia há um bom tempo. Os vizinhos e moradores da redondeza conheciam a fábrica e seus donos e dizia-se, pelo bairro, que o pessoal da fábrica era um saco, porque sempre estavam fazendo barulho no meio da tarde e sempre estavam jogando poeira para o ar. Atrapalhando aqueles que não tinham muito o que fazer durante a tarde, como nós, pequenos infantes.

Bibinho morava na rua de trás da fábrica, eu morava em frente e Renan morava algumas casas depois da minha, seguindo na direção da fábrica. 

Não foi por maldade, nem por malícia, nem por obra do diabo (eu acho) que nós, sem querer, invadimos a fábrica um dia em que brincávamos de “Pique Esconde”. Fiquem cientes que este tipo de prática é muito comum em bairros pequenos. Toda casa vazia e fábrica “abandonada” já foi invadida pelos menores da vizinhança. Sempre acompanhadas de histórias e de lendas que giram em torno daquele recinto.

A fábrica de sofá não era diferente.

Algumas crianças diziam que havia um segurança armado lá dentro, outras diziam que o segurança sempre ia pra casa a noite (o que é estranho para um segurança que só trabalha durante o período da noite) e outros ousavam afirmar que nem havia segurança no local.

A última lenda com certeza era mentira, afinal, sempre que estávamos por perto da fábrica, em dias ou horários que não deveriam haver ninguém, ouvíamos barulhos vindo lá de dentro, o nos dava a completa certeza dela estar habitada, ou pelo segurança, ou por fantasmas. Nenhuma das duas situações era muito encorajadora para nós.

Em determinado domingo, dia em que era mais comum não haver ninguém na fábrica, Bibinho sugeriu para que eu e Renan, acompanhado dele, óbvio, nos escondêssemos dentro da fábrica, já que ele acreditava não haver ninguém lá dentro.

Nos poucos segundos que nos restavam para nos esconder, saltamos o muro com destreza exímia (coisa que nunca conseguiríamos fazer hoje) e nos dirigimos ao interior da fábrica para avaliar as instalações.

Por ser uma fábrica de sofá, existia muita coisa “interessante” lá. Madeiras largadas pelo chão; pano para o estofamento em grande quantidade; máquinas de grampos, serra, serrote, máquina de costura; entre outras coisas.

Nós éramos crianças para entender muito bem o funcionamento das coisas ali, mas não éramos idiotas. Sabíamos que algumas coisas não deveriam ser tocadas por pessoas sem conhecimento algum das ferramentas. E é claro que nós tínhamos o conhecimento necessário, do contrário, nunca estaríamos ali.

Em alguns minutos não havia mais preocupação de nos esconder, estávamos empolgados em brincar com as ferramentas que, em outra ocasião, nunca nos deixariam brincar. O segurança, com certeza não existia, pois não havia ninguém lá para nos impedir de prosseguir.

Alavancado pelo desejo da brincadeira se tornar mais real, ou simplesmente por ele ser um vândalo em estágio de crescimento, Bibinho resolveu dar um ar de realidade maior à brincadeira. Para isso ele precisaria ligar as máquinas.

As máquinas eram todas ligadas a um disjuntor em uma das pilastras. Quando o pessoal ia embora, desligava as máquinas nos respectivos botões e depois, por segurança, desligava a energia geral neste tal disjuntor.

Por obra do destino, e por imbecilidade também, nós ligamos a maioria das máquinas do estabelecimento enquanto brincávamos de marceneiros. Sem saber do real perigo que aquelas máquinas guardavam, nós ligamos o disjuntor que distribuía energia às máquinas. 

Devo dizer que, pelas ações decorrentes daquela ação, as instalações elétricas da fábrica não era lá das melhores.

Vocês já viram a queima de fogos de Copacabana? Então, nós vimos mais perto do que gostaríamos.

Toda a fiação da parede começou a soltar faíscas. Não durou muito a ponto de nos matar, mas foi rápido o suficiente para fazer as três pessoas que estavam dentro da fábrica saírem correndo por cima do muro para que ninguém soubesse a merda que nós havíamos feito lá dentro.

Não sei se por medida de segurança ou por pura obra do destino, os materiais que poderiam queimar rápido o suficiente não era mantido perto da parte elétrica. Os panos, estopas, espumas, algodão e o que mais puder ser usado dentro dos sofás eram mantidos muito afastados. Afastados o suficiente para que apenas os fios fossem destruídos nessa nossa brincadeira piromaníaca.

Os fios emitiram luzes de cores diversas, imitando, devo dizer, a um daqueles efeitos televisivos que chegam a causar convulsões quando vistos por crianças japonesas.

Como de costume, sempre há uma testemunha. Neste caso, em específico, ela só conseguiu ver um dos garotos que pulou para fora do muro na velocidade da luz. Dado à velocidade dos fugitivos, quase não pôde se ver detalhes das vestimentas ou alguma outra coisa que pudessem identificar rapidamente. Apenas uma característica distinta foi gravada na memória da tal testemunha. Segundo ela era um garoto COM CABELO COMPRIDO E CASTANHO CLARO.

Lembram de uma outra história que eu contei aqui? De acordo com aquele texto, essa descrição bate com a de alguém?

Pois é.

Tão rápido quanto o curto circuito que nós fizemos, os donos da fábrica chegaram até a minha casa para conversar com a minha mãe sobre a minha visita proibida à fábrica de sofá.

Eu não me lembro quanto tempo durou o castigo, mas posso dizer que, pela merda que foi, foi pouco para que eu aprendesse.

Durante alguns anos eu ainda fiquei traumatizado de chegar perto de aparelhos elétricos de grandes proporções. Hoje em dia, quando caminho aqui pela gráfica onde trabalho eu vejo os disjuntores e me lembro do grande feito da fábrica de sofá.

Um feito que nem eu nem a minha mãe iremos esquecer tão cedo.


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