Fliperamas e gestos de bondade

Deve, ou deveria, existir algum nome para o sentimento de perda de algum “objeto” e a necessidade do mesmo quando ele é substituído por um bem inferior ou inequiparavel ao seu antecessor. Não pode ser que sintamos isso e nem sequer tenhamos um nome para este sentimento. Imagino que não haja sentimento sem nos dias de hoje.

Falo isso não por ter perdido algum objeto recentemente e esteja com vontade de tê-lo de volta, passou longe quem julgou desta forma. Falo daquele sentimento puro e inocente de ter algo totalmente dentro de seu cotidiano, repetido à exaustão, substituído por uma cópia piorada de seu antecessor. Como se amanhã as farmácias deixassem de existir e criassem um meio de comércio que em tese é melhor do que elas mas que na prática deixasse a desejar. Como se criassem a “Farmácia Self-Service” ou que criassem um Fast Food de comida saudável. Coisas assim, que na teoria é uma boa mas que na prática é a pior ideia que alguém já teve.

Falo isso por ter analisado recentemente no twitter o que havíamos perdido e que nunca mais teríamos de volta. Um biscoito preferido, substituído por um da mesma marca mas de pior qualidade, ou um refrigerante que vendeu-se ao capitalismo para se tornar mais “em conta”, mas que na prática significa perder o tão amado sabor do mesmo. Imagino que já tenham entendido o que eu quero dizer com este sentimento inominável.

Uma das coisas que se perderam no tempo e que eu mas sinto falta, dentre algumas outras, foram os fliperamas.

Neles você só precisava levar ao caixa um punhado de moedas, receber uma ficha em troca e iniciar algumas horas (possivelmente minutos) de diversão pura e masoquista.


Havia tanta gente que ficava enfurecida ao jogar que eu não enxergava aquilo como um método de diversão e sim de tortura. Como podia alguém pagar para jogar e perder umas duas horas após o pagamento reclamando que “aquele filho da puta do boneco não quer pular”? Faz algum sentido pra vocês? Por que tais pessoas não escolhiam simplesmente uma máquina da qual tinha algum conhecimento e alguma habilidade para jogar e se divertir? É o mesmo pensamento de quem compra caixas e mais caixas de cerveja, entornam tudo em minutos e depois ficam vomitando pelos cantos passando mal por semanas. O que era pra ser diversão tornou-se um fardo.

Uma das muitas casa que morei era muito próxima de um fliperama (ao invés da casa onde fui trazido ao mundo, que realmente era um fliperama). Não diria próxima a ponto de ouvir os sons das máquinas de minha residência, nem próxima o suficiente para que ali fosse o único lugar onde você me encontraria durante o dia, até porque me faltava uma renda fixa naquela época para que eu pudesse torrar com besteiras. Eu era apenas um garoto, e como tal, meu objetivo era apenas me divertir.

Uma das características mais marcantes dentro do fliperama era seu barulho ensurdecedor. Uma das coisas que descobri depois (quando a minha própria mãe teve um fliperama – dessa vez eu já era grande) é que os técnicos que consertavam as máquinas podiam tirar o som durante a exibição dos jogos, mas que nenhum deles utilizava-se dessa técnica por julgarem que o som de um “Hadugui” ou de um “Hollywood” pudesse ser ouvido a milhas de distância dali e que isso atrairia mais clientes. É inegável a percepção dessas pessoas em como atrair clientes. Quantas vezes eu já não me peguei em um lugar totalmente Inóspito e ouvia o barulho de alguma máquina de fliper conhecida e largava a atividade familiar que estivesse fazendo e corria para o bar mais próximo.

O som de uma dessas lojas era algo inigualavel. Junte todas as onomatopéias que você conhecer, mais alguns nomes de golpes criados por nós, moleques de fliper, sendo gritados insanamente ao redor de uma máquina enquanto espancávamos a tábua que sustentava nossas mãos. Misture isso a alguns palavrões e alguns sons de jogos de esporte e você terá uma mera noção de como era o ambiente familiar e aconchegante de um fliperama.


Uma das inovações que trouxeram alguma desgraça para os fliperamas foi a extinção das fichas. Aqueles pequenos objetos de metal com formato engraçado foi substituído por uma dezena de fios levados até um botão. Ao invés de depositar uma ficha na máquina, a pessoa responsável por vender as fichas apenas apertava um dos botões e seu crédito entrava na máquina a distância, como mágica.

O problema dessa inovação é que muitos imbecis tinham mania de fazer isso sem ao menos observar se havia alguém na máquina. Simplesmente ia ao caixa, pedia a ficha no número respectivo à sua máquina e caminhava para ela.

De todas as complicações que me lembro, uma me marcou por um bom tempo, literalmente.

Sempre que ia a um fliperama eu costumava ter apenas algumas moedas. Moedas suficientes para jogar 1 ou 3 fichas, nunca mais do que isso. Quando minhas fichas terminavam, o que não demorava muito, nas vezes que ia com meu irmão eu precisava ficar esperando até que ele acabsse as dele ou simplesmente ficava vagando pelo fliperama na esperança de encontrar alguma moeda pelo chão ou alguém caridoso o suficiente e com pais esperando na porta que quisesse me passar a ficha de bom grado. Eu não era um daqueles chatos que ficava em cima insistindo para ajudar ou tentando a todo custo tomar a ficha alheia. Eu era um cara legal, ou pelo menos eu fingia ser para ganhar fichas de graça.

Numa dessas vezes, eu parei em uma máquina qualquer e fiquei apertando os botões aleatoriamente. Havia algum tipo de lenda que pregava que a máquina poderia de comparecer de minha dor e me ceder fichas grátis.

Como em um passe de mágica, a frase que piscava insanamente como “Insert Coin” transformou-se em “Press Start”. Imediatamente eu obedeci a frase na tela, evitando que ela mudasse de ideia e tirasse o grande sorriso que havia se instalado em minha cara.

Eu realmente não lembro qual era o jogo, mas eu tive tempo de escolher o personagem com o qual eu ia jogar e começar o jogo em si. Em poucos minutos eu senti um vulto parar ao meu lado e solicitar amigavelmente que eu me retirasse “daquela merda” porque a ficha já tinha dono. Eu nem cogitei a hipótese de estar sendo enganado. Eu realmente achei suspeito demais que a máquina tivesse me dado uma ficha apenas pelos meus cachos dourados.

Sem pensar duas vezes, larguei o controle e dei um passo para trás achando que estava a salvo de qualquer ato de vandalismo. Assim que percebeu que eu já havia começado o jogo, tirando assim seu direito de escolha entre o personagem que mais lhe agradaria, ele girou em minha direção e disse: “Essa é pra tu aprender”. O gesto que se seguiu foi um misto de euforia e animação por ter usado sua tão preciosa ficha.

Nós aqui no Rio de Janeiro chamamos este gesto de “cascudo”. Pode ser que onde vocês morem ele tenha outro nome. Para evitar confusões, explicarei do que se trata o gesto: Você ergue a mão acima da cabeça, deixa ela descer com toda fúria do mundo ao encontro da cabeça mais desprovida de força para revidar, normalmente xingando algum palavrão.

Depois de aceitar seu gesto de carinho e bondade, me virei e voltei pra casa.

Por mais que a máquinas queiram ser nossas amigas, é inegável o fato de que elas tendem sempre a nos sacanear de alguma forma. Seja na forma de um computador que não liga quando você mais precisa dele ou em forma de uma máquina de fliper que lhe dá um crédito para lhe ver perdendo o escalpo.

Se tem uma coisa que eu sinto falta, acima de tudo, é de ter aquele ambiente amigável e generoso dos fliperamas de volta. Algo que essas “Lan House” nos tiraram sem o menor pudor, substituindo amigos grosseiros e xingadorea por semi analfabetos gritando “Na piscina! Na piscina!” enquanto atiram aos quatro cantos saltando como uma perereca em chamas com e seus amigos no Counter Strike.

E você, do que sente mais falta?

– Post inteiramente digitado no meu A50 “Oi Xuxa”.

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