Feliz dia dos pais…super atrasado

Quem tem pai e mãe humilde sabe que o dia dos pais é todo dia. Pelo menos é o que seus pais dizem quando percebem que o filho está fudido na vida e nunca terá dinheiro para dar um presente que agrade. Por isso mesmo não vejo problema algum em criar um post em homenagem ao meu querido pai hoje, alguns meses depois do dia dos pais.

Tenho certeza que toda família tem aquele tiozão engraçado, que fala um monte de besteiras e que sempre foi orgulho para você e seus irmãos. Que sempre te envergonha na frente dos amigos e que sempre diz uma frase célebre. Não estou falando daquele tiozão CHATO. Estou falando de engraçado mesmo, de tão sem graça, mas tão sem graça, que chegam a ser engraçadas as coisas que ele diz. Meu pai é um desses caras. Na verdade, meu pai é a representação viva de como pode fazer graça com piadas do século retrasado.

Sempre tive muito orgulho de levar meus amigos na minha casa. Sempre tive muito orgulho da relação que tive com meu pai. Nunca me importei por morar dentro de lojas, de caixas de papelão ou em apartamentos ruindo com uma queda eminente. Adorava levar amigos em casa e vê-los se deliciando com a informalidade do lar criada e mantida por este que é alvo do post de hoje. Meu pai.

Meu pai sempre foi daqueles que nunca fizeram merda, nunca subornou ninguém, nunca tentou subir às custas dos outros. Daqueles caras que de tão honestos chegam a ser chatos. Que de tão chatos, chegam a ser honestos. Meu pai sempre foi um ótimo modelo pra mim.

Óbvio que ele tem seus defeitos, que já fez suas besteiras, mas estou aqui hoje para listar as frases mais repetidas em nossa família. Frases que foram ditas em um ambiente tão desconexo que até hoje são “jargões” que perduram para todo o sempre, contagiando até mesmo aqueles que entraram na família há pouco tempo, como esposas, filhas, sobrinhas e tudo mais.

Meu pai é uma máquina de jargões. Se ele fosse publicitário, ele trabalharia na W/Brasil, sem dúvida.

“Todo mundo ó, cabeça baixa” e “Ninguém fumando”

Este me foi lembrado recentemente, quando alguém comentou no twitter que haviam 13 anos que a Lady Di tinha morrido. Na mesma hora eu lembrei apenas de umas das frases mais célebres ditas pelo meu pai.

Para que entendam o conceito, meu pai sempre odiou cigarro. Odiava a palavra fumar, o ato de fumar, a embalagem do produto, o cheiro e qualquer outra que remetia ao mesmo. Nem a TV se salvava. Se ele estivesse na sala e passasse algum comercial ou alguém que estivesse fumando, era até automático que mudássemos de canal, para evitar que ele ficasse reclamando.

Pelo jeito que falo parece que guardo rancor disso, mas pelo contrário. Nutri um ódio semelhante por esta maldição e até hoje sinto as mesmas ânsias que ele quando o assunto é cigarro.

Enfim. No supra citado “13 anos atrás”, quando a nossa querida Lady Di pereceu, isso virou notícia em todos os jornais. Todos queriam saber o que estava se passando na terra de Harry Potter durante o enterro da dita cuja. Acontece que meu pai, uma criatura muito sensível, diga-se de passagem, estava em frente a televisão, também antenado para saber o que havia acontecido com aquela que, segundo os jornais, era uma pessoa importante para nós. Mesmo eu duvidando que ele saiba quem é Lady Di, até hoje.

Do lado de fora do local onde a princesa morava, haviam centenas de cabanas, de pessoas dormindo, chorando e acompanhando o drama da família real. Neste momento meu pai diz em tom alterado de voz “Olha só que bonito Marlene, todo mundo ó (fiuuu) cabeça baixa” dizendo como se fosse sinal de respeito que ninguém falasse, nem mesmo as crianças choravam. Em seguida”Ninguém fumando Marlene, que bonito”.

As risadas foram instantâneas e até hoje quando queremos expressar que todos estavam em silêncio em alguma situação nós soltamos essa de “Ninguém fumando”. Mesmo os que vem de fora já foram contagiados e repetem o jargão como se tivesse sido cunhado em um programa estilo Zorra Total.

Coooooorre Marlene. Vem ver que bonito Marlene

Essa foi outra pérola soltada quando chamava a minha mãe. Eu não lembro bem o que estava passando na televisão. Se não me engano, era a fatídica luta do Mike Tyson onde ele mordeu a orelha de um outro lutador lá. No final da luta, o Mike, todo carinhoso, foi até o “inimigo” e o beijou no rosto, como pedido de desculpas.

A cena estava gravada. Minha mãe tinha mania de programar o videocassete para gravar durante toda a noite, assim nós poderíamos acordar e ver um ou dois filmes bons que tivessem passado durante a madrugada. Naquela madrugada, ele havia gravado a luta.

O fato é que a luta estava gravada. O programa e a cena do beijo também estavam, mas o escândalo foi tanto para que minha mãe corresse que ela achou que algum dos filhos dela estava se afogando em óleo quente, porque o desespero do meu pai era grande demais.

Na hora que ela viu o que era a decepção bateu. Ela ficou puta porque meu pai tirou ela dos afazeres para mostrar, em caráter de urgência, uma cena que estava gravada na fita cassete. Logo, ela poderia ver e rever quantas vezes quisesse. Mas vai explicar isso pro meu pai.

Apaga a vela….Se esconde Marlene..

Essa é uma upgrade das frases proferidas em vários lares por aí afora.

É muito comum em casas de pobres que as pessoas apaguem a luz durante o “cantar dos parabéns” em uma festa. Normalmente o ato soprar velas em cima do bolo é também conhecido como “apagar a vela”, o que pode ser confundido por “Matar a vela”, que na cabeça de alguns, pode ser confundido por velha. Esse “alguns” é meu pai.

Eu acredito que hoje meu pai nem fale mais a frase, porque sempre avançamos a sua frente pra gritá-la para minha mãe (A Marlene que tantos vêem).

Não deixamos mais meu pai proferir a frase para preservá-lo, porque normalmente quando nós falamos a frase a risada contagia a todos e só paramos de rir quando a festa acaba.

Meu pai, coitado, deve estar frustrado por não conseguir mais falar a tão adorada frase. Vou garantir que ele possa dizer nas próximas festas.

Foi uma porradinha que eu dei

Essa é outra clássica e inventada por ele em um momento de desatenção total.

Para os que não sabem, meu pai também sempre bebeu álcool demais. Nunca ficou largado em bares vomitando em si mesmo, nunca tirou a roupa e dançou em cima do balcão do bar, nem nunca violentou-se com objetos estranhos e depois perguntou quem havia feito aquilo com ele. Pelo menos não que eu lembre.

Meu pai sempre teve o jeitão dele de beber. Ele compra o que ele quiser, senta a bunda em casa e bebe. Depois de bêbado ele vai dormir e só incomoda um ou outro nos intervalos de seu sono. É assim que ele passa todos os fins de semana e é assim que eu acredito que ele seja feliz. Quem sou eu pra julgar errado e quem é você também, seu mané.

Em uma dessas situações, onde ele já estava com nível alcoólico alto no organismo, meu pai dirigiu-se a feira local para comprar produtos para a semana da família. Frutas, legumes, brinquedos e tudo mais. Meu pai sempre fez isso todo sábado de manhã.

Neste caso, em específico, meu pai voltava da feira com uma antena. Essa mesmo de pendurar na televisão e ficar mexendo até que um dia, por acidente do destino, ela funcione perfeitamente e ninguém entenda o porquê. Principalmente depois de você ter ficado centenas de hora mexendo ela pra lá e pra cá.

No percurso de casa, talvez pelo teor alcoólico em seu sangue, meu pai golpeou algum poste com a antena. O que trouxe a ela um outro formato muito peculiar. O que eram varas de alumínio retas, tornaram-se varas de alumínios retorcidas. Como se tivessem sido golpeadas muitas vezes pelo Mike Tyson, supra citado.

Assim que minha mãe viu ela o questionou preocupada, achando, até mesmo, que ele tivesse sido atropelado por um Bombardeiro Destroyer enquanto trazia a antena para casa. Prontamente meu pai respondeu a frase que dá título a este tópico “Ah, foi uma porradinha que eu dei ali”.

Ninguém sabe exatamente onde ele bateu, mas até hoje essa frase é repetida quando alguma coisa está destruída ou da forma que não deveria estar.

É pra “pirificar” o sangue

Uma coisa que precisa ficar claro é que este blog não tem caráter NENHUM de blog informativo de auto-medicação. Se está a procura disso, vá para o inferno ou, se não quiser pegar fila, vá em um posto de saúde do SUS. Vai ser praticamente a mesma coisa.

Houve uma época fatídica em minha vida que meu corpo estava com um hobby um tanto quanto odioso. Desenvolver furúnculos. Nada que fazíamos dava jeito nessa situação. Tentamos simpatias, hospitais, remédios e rezadeiras e meu corpo continuava produzindo as tais maldições. Por sorte não eram todas de uma vez. Sempre esparava sumir um para aparecer outro.  Isso sim foi uma benção em minha vida.

Os furúnculos doíam pra “daná” e nada que tentávamos dava jeito na situação. Certo dia, minha avó, em um dos poucos momentos de afeto, sugeriu que eu tomasse Levedo de Cerveja. Embora o nome fosse curioso, a função de tal remédio era de limpar o sangue, para que meu corpo parasse de produzir tal enfermidade.

Até hoje eu não sei se isso é verdade, mas posso garantir que meu corpo ficou livre dos tais furúnculos e nunca mais tive problema com os mesmos. Se tivesse, já teria me suicidado faz tempo. Aquela merda dói demais.

Em mais um de seus momentos de brilhantismo, enquanto almoçávamos em família, meu pai tomou o frasco da minha mão, enquanto eu separava um dos comprimidos para tomar. Com toda sua sutileza e com seu senso afetado pelo álcool, meu pai virou o frasco em sua mão e derramou uns 4 ou 5 comprimidos na palma dela. Na verdade, ao todo devem ter sido uns 40 comprimidos a menos no frasco. Enquanto sua mão segurava aqueles que podiam, os outros comprimidos dançavam e se desviavam de seus dedos para alcançarem o chão. Até hoje temos comprimidos perdidos naquela casa.

Antes que qualquer um de nós pudesse fazer qualquer pergunta, meu pai virou os comprimidos na boca e bebeu. Todos na mesa ficaram esperando uma explicação, alguma frase que pudesse fazer aquela situação ter algum sentido. Antes que pudéssemos questioná-lo em voz alta, ele virou para a minha mãe e disse: “É pra -pirificar- o sangue”.

Sabe quando uma criança faz uma merda muito grande e em seguida solta alguma frase encantadora tipo “Mamãe, te amo” e aí tudo que a criança fez perde o sentido e você só consegue rir? Então, foi a mesma situação, mas com o meu pai.

Nós rimos durante algumas horas daquela situação e até hoje repetimos infinitas vezes a frase dita pelo meu pai naquele momento tão célebre.

Realmente meu pai foi um grande orgulho e é, até hoje, um homem no qual eu tento me espelhar. Gostaria de deixar a minha grande homenagem ao único homem na face da Terra que eu amo (além do Brad Pitt) e queria deixar o meu mais profundo “Feliz Dia dos Pais”. Mesmo isso tendo sido escrito muito tempo depois.

Anúncios

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s