Bebendo às escondidas

É dito na televisão que todo produto inflamável ou de caráter venenoso deve ser mantido fora do alcance das crianças. Todo e qualquer remédio deve ser mantido em armários altos, para que as crianças não possam confundir um comprido de “A.S.” com um M&M sem cor e mandar o sangue artérias afora.

Em toda casa que se preze esta lei é levada a sério. Lá em casa não deveria ser diferente, embora eu deva confessar que não tenho a mínima idéia de como eram armazenados os remédios por lá quando eu era menor.

Esta regra deveria se extender a todo tipo de material tóxico de qualquer maneira. Álcool, cachaça, drogas, cigarro e por aí vai. Embora não seja isso que vemos por aí, a regra deveria ser mais obedecida do que as que costumamos respeitar sem nem perceber.

Há regras em nossas vidas que levamos mais a sério do que os costumes que podem salvar a vida de um filho ou de um amigo mais idiota. Chinelo virado, por exemplo. Tenho conhecidos que saltam por cima de você, atropelam crianças recém-nascidas com o corpo, pulam por cima do sofá, apenas para não deixar o chinelo virado por muito tempo, caso contrário a senhora sua mãe vai para o saco, por assim dizer.

Regras simples são levadas ao pé da letra, enquanto regras importantes são ignoradas sumariamente em prol de uma liberdade maior aos pais.

Isso eu posso garantir, lá em casa não era nada diferente do que nas casa que vocês vêem por aí.

Meu pai sempre bebeu álcool. De todos os tipos, devo dizer. Minha mãe nunca foi lá muito fã e nem aprovava a situação do meu pai, mas ela acabava aceitando e não reclamava muito porque era a única diversão do progenitor da família. Que mal fazia beber um pouco quando as contas estavam pagas? Logo, meu pai sempre bebeu sem pudor.

Bêbado e largado na sarjeta é teu pai, aquele velho maluco. Meu pai nunca foi de beber em bares (foi sim, há muitos anos atrás, mas desde que me entendo por gente ele só bebe em casa) e coisa e tal. Ele sempre bebeu em casa, após chegar do trabalho ou durante o fim de semana.

Para que vocês possam ilustrar em suas cabeças ocas como meu pai era “liberal”, houve uma época em que eu mesmo ia comprar as bebidas pra ele no fim de semana. Atividade que era sempre muito aguardada por mim, já que os trocados que sobravam da sua dúzia de garrafas sempre ficava guardadinho no meu bolso e ele fingia não ver para me recompensar por ter que andar por aí carregando as garrafas da água que passarinho não bebe.

Certa vez, alguns bons anos atrás, meu pai deu uma de beber batida. Comprava todo tipo de batida que pudesse. Era de côco, chocolate, limão, hortelã e sabe-se lá mais quais sabores eles conseguiam misturar com álcool para fazê-lo ser mais atraente aos que curtiam dar umas bicadas (como se precisasse fazê-lo ser mais atraente).

Mudando um pouco de assunto mas ainda me atendo a história, é preciso também que vocês saibam como eram os costumes da boa educação lá em casa. Meu pai sempre prezou alguns aspectos que achava importante e ainda acha, até hoje. Sair da mesa enquanto estava jantando para atender telefone ou alguém no portão era imperdoável. Você podia fazê-lo, mas teria que ser rápido e cuspir comida ao telefone para dizer “Estou jantando, me ligue outra hora”. Caso contrário, era certo que ele gritaria alguma imprompérie para que o interlocutor ouvisse e se mancasse que estava ligando na hora errada.

Outro costume pouquíssimo aceitável por ele era, vejam só, roubar em jogos. Não importava se estava jogando baralho com tua avó, se estava jogando algum jogo de videogame ou se estava jogando pega varetas com seus amigos (por mais que isso soe gay). Ele simplesmente odiava pensar que um filho dele poderia estar roubando.

Certa vez nós pegamos uma revista para fazermos um macete em algum jogo, assim que ele viu ele reclamou por boas horas, dizendo que assim não tinha graça jogar, que no final das contas a gente não mereceria chegar no final daquele jogo, porque não foi com nosso esforço. Nós roubamos. E isso era errado.

Até hoje eu não faço mais “cheat” nenhum em jogo levando em consideração aquilo que meu pai disse. É um bloqueio que criei. E quer saber? Sou bem feliz dessa forma. Gosto de saber que cheguei no final de algum jogo sem ter que trapacear ou descobrir como se faz em algum detonado estúpido.

Voltando ao foco.

Um dos costumes mais odiáveis do nosso pai era que algum pentelho do filho dele fosse visto bebendo garrafa direto do gargalo. Para ele aquilo era nojento e horrivelmente desprezível. O filho que fizesse isso deveria perder a cabeça para uma lâmina afiada de algum carrasco sem escrúpulos. Por mais que pareça exagero, é quase uma verdade.

Óbvio que nós respeitávamos quase todas as regras, mas algumas era difícil de se controlar. Como essa da garrafa, por exemplo. Eu não via erro algum nisso. Para mim era super normal. Não tinha porque ele nos querer proibir de evitar sujar copos, para não dar mais trabalho a nossa mãe. Veja só como éramos legais.

Acontece que mesmo diante dessas explicações escrotas, ele ainda odiava o gesto. Não só ele, minha mãe também.

Em uma tarde qualquer, minha mãe estava na área de serviço estendendo roupa. Meu pai estava trabalhando e eu estava em casa vendo televisão.

Diante do tédio do programa apresentado a mim pela TV, eu resolvi que era hora de beber água. Claro que era só um golezinho, então não havia motivos para sujar um copo apenas para saciar um pouco da minha sede.

Corri para cozinha e evitei acender a luz para não alertar minha mãe que estava na área de serviço. A porta da cozinha era de frente para a área de serviço, e a porta da área de serviço estava fechada, portanto seria bem fácil realizar a tarefa. Se não fosse, é claro, por um pequeno problema.

Assim que abri a geladeira, eu abracei uma garrafa qualquer dessas de 2 litros e danei a beber a água. Quando já tinha bebido quase metade comecei a perceber que minha garganta ardia um pouco. Antes mesmo de terminar eu acendi a luz para ver o que raios estava acontecendo. Assim que tirei a garrafa da boca e acendi a luz, pude ver uma coloração amarelada dentro da garrafa. A essa altura minha garganta ardia como um inferno em dia de baile funk. Assim que vi eu entendi. O que eu tinha acabado de beber era batida. Uma das mais ardidas, devo acrescentar.

Para você aí, alcoólatra de carteirinha pode ser viadagem reclamar de batida, mas ponha-se no meu lugar. Eu devia ter menos de 8 anos, nessa época. Era óbvio que qualquer coisa que continha álcool me mataria do coração antes mesmo de chegar na minha garganta.

Para completar, eu comecei a passar mal, gritando e pulando como louco na esperança dos saltos jogarem algum tipo de ventilação ao meu estômago. Óbvio que não aconteceu.

O que era pra ser uma tarefa silenciosa, transformou-se em uma festa junina dentro a cozinha. Minha mãe correu para entender o que se passava e encontrou o filho já torto pela cozinha, com a garrafa de batida nas mãos e dando a entender que vomitaria um rojão de fogo, a qualquer momento.

Por sorte minha mãe nunca me bateu e duvido muito que aquilo ali faria ela me bater, mas foi legal ver que ela ria da minha cara e dizia “Bem feito, quis beber água no gargalo escondido”. Continuei meio torto por algumas horas, deitado na cama vendo tudo rodar e sentindo meu estômago doer.

Não sei se é isso que me criou um trauma de bebidas, mas eu não bebo nada hoje em dia. E você aí se achando todo machão quando enche a cara de Ice e se acha o cara mais “beberrão” da paróquia, lembre-se que enquanto você estava ganhando seu primeiro bonequinho G.I Joe, eu estava tendo meu primeiro porre.
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