Apelidos e a crueldade juvenil

Apelido é como aquele amigo sem noção nenhuma. Todo mundo já teve, ao menos um.

Com isso eu inicio um dos textos que mais terei medo de escrever. Embora eu não tenha mais problema nenhum com tais apelidos, nunca se sabe o que pode vir a acontecer no futuro.

De todas as crueldades juvenis que podemos citar, desde o famoso Bullying até as brincadeiras envolvendo socos e pontapés mesmo naqueles que nem pensavam em participar de tais atos, os apelidos estão no Top 10 Crueldades Juvenis.

Quem aqui nunca teve um apelido?

Não estou falando daquele apelidocarinhoso ligado a alguma característica BOA de sua personalidade, nem daquele apelido americanizado que te puseram apenas porque você lembra aquele lindo galã dos cinemas. Estou falando daqueles apelidos que todos nós odiávamos e pouco podíamos fazer para impedir que o tal apelido se propagasse.

Rejeitar e lutar era inútil. Quanto mais você lutasse contra seus apelidos mais “legal” era continuar te chamando por eles. Mesmo que estivesse claro seu ódio por tais alcunhas.

De todos os apelidos que eu tive, desses pejorativos, dois deles me incomodaram mais durante um certo período da minha humilde vida. E dois deles tinham a ver com uma das minhas características mais marcantes: o cabelo grande.

Para quem nunca me viu, nem em foto, eu tenho cabelo grande. Já foi bem maior, mas hoje ainda ocupa um bom espaço das minhas costas. Embora eu fosse sempre confundido por uma mulher, estava longe disso me criar vontade para cortar o cabelo. Eu não tinha nenhum problema nisso. O problema é quando me criaram apelidos por causa das longas madeixas.

Um deles, o mais light, foi baseado em um personagem de novela. Na época eu andava sempre com um amigo negro (em breve entenderão porque de explicar que era negro). Estávamos sempre juntos e não havia problema algum nisso, embora os criadores de apelidos discordassem disso.

Eu não lembro bem em que novela foi, mas inventaram de criar dois personagens gays onde um era um cabeludo e o outro era negro. Foi mais rápido do que eu pude imaginar. Antes que eu imaginasse uma defesa para isso eu já estava sendo chamado de “Sandrinho” e esse meu amigo de “Jeferson”. Foi uma merda.

Eu odiava com todas as minhas forças esse apelido. Na época, como era muito novo, eu não tinha a menor idéia de como fugir da pilha e não agüentava mais a zoação. Não tinha a menor idéia de como consertar isso.

Felizmente a própria criadora da minha desgraça me deu uma solução. Ou quase isso.

Algum tempo depois, depois de quase ter decidido cortar o cabelo para evitar aqueles problemas, eu percebi que a galera havia esquecido um pouco a história. Somente algumas pessoas ainda lembravam das gays de Torre de Babel (eu acho que era dessa mesmo).

Para minha felicidade surgiu um novo gay para me apelidarem. Dessa vez não tinha nem um companheiro para fazer com que só quem nos conhecesse nos chamasse, esse, do contrário do Sandrinho e Jeferson, era um apelido solo. Só eu me ferraria com este apelido.

Surgia então o travesti Sarita Vitti.

Imagine que você é um cara MUITO assemelhado a uma garota (foto abaixo – essa era quando já era mais velho, antes era pior) e que todos já gostem de te zoar por simples prazer. Daí surge um personagem icônico e a primeira coisa que vem na cabeça alheia é: “Cara, esse maluco aí é a cara do Vanguedes”.

Daí pra frente não tinha como piorar. Qualquer pessoa, mesmo que nunca tivesse me visto, me chamava de Sarita. É claro que eu ficava com muita raiva, mas não tinha muito pra onde correr. Era só esperar até outro gay cabeludo surgir e me acostumar a mudar meu nome a cada ano ou algo assim.

Por sorte eu percebi que quando você zoava os outros era bem mais difícil deles conseguirem te zoar.

Com isso eu desenvolvi um raciocínio rápido o suficiente para apelidar qualquer pessoa antes mesmo dela pensar em me criar um apelido.

Daí em diante era só colher os frutos de um passado mal plantado. Talvez por trauma ou alguma coisa do tipo eu desenvolvi um certo código na hora de zoar, procurando não ofender a ponto de humilhar nem a ponto de ser zoado. Imagino que eu seja um Bully 2.0. Com cabeça para zoar mas com consciência para perceber quando está passando dos limites. Por isso eu agradeço aos idiotas que me chamaram de Sarita e Sandrinho.

E você, teve algum apelido humilhante?

– Post inteiramente digitado no meu A50 “Oi Xuxa”.

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