Perdão, bonecos e erros que cometemos

 Confiança é um prato que se come frio.

 Sem dúvida vocês sabem que este não é o ditado original, mas quem se importa?

A discussão de hoje não é engraçada, eu acho. Nem sequer é uma discussão. São fatos que acontecem conosco em que nossa emoção toma o lugar da razão e agimos por impulso, como selvagens, fazendo-nos perceber o quão medíocre nós somos em escolhas mais detalhadas. Como somos capazes de ferir quem amamos sem percebermos a profundidade dos ferimentos.

 Este fato ocorreu quando eu me mudei para São Vicente, local onde passei grande parte da vida antes do casamento. Vinha de um lugar onde vivi grande parte da minha infância, então era mais do que lógico que os amigos feitos ali não fossem se desfazer assim, como mágica. Foi preciso muitos anos para deixar de visitá-los com frequência, muitos anos e muitas besteiras feitas por muitos, deixando agora só a marca da lembrança e de alguns papos no msn.

Meus amigos sempre foram muito próximos e sempre nos divertimos muito quando estávamos juntos, era óbvio que eu fosse solicitar a presença deles vez ou outra aqui em casa, pra não ter que ficar me contentando em brincar sozinho. Sabe como é. Eu não conhecia ninguém, não queria ficar na nova casa como se estivesse sozinho no mundo.

Eu tinha um irmão, mas não era lá o grande exemplo de amizade que eu gostaria de ter, então, eu precisava dos antigos amigos presentes ali, pra me fazer esquecer um pouco essa coisa da mudança e tudo mais.
 Houveram vários casos engraçados dessas idas e vindas dos amigos. Bibinho, nosso eterno amigo e eterno contraventor, arrumou mais brigas por aqui do que eu poderia ter arrumado em toda minha vida; Gleisson chorou e esperneou para voltar para a casa da mãe dele. Curioso é que a mãe dele sempre o tratou muito mal, batendo e xingando-o toda vez que ele cometia algum erro. Foi engraçado ver que os filhos que as mães tratavam super bem não ligaram para o fato de estarem distantes de suas progenitoras, enquanto o que mais sofria nas mãos da mesma chorou e bateu o pézinho no chão quando sentiu saudades dela. Uns 15 minutos depois de ter chegado aqui em casa.

 Um dos fatos que mais me marcaram e que com certeza eu vou guardar para todo o sempre, sendo uma daquelas histórias que contarei aos filhos e netos e provavelmente virarão uma espécia de parábola da família, a ser contada nos infindáveis churrascos de fim de ano e de serem gravados em canecas. Foi um caso curioso que aconteceu com meu amigo Tiago (juro que não lembro se tem H, só existiam dois Thiagos, e nós, em nossa maldição de ser criança os diferenciávamos como “Thiago Pretinho” e “Thiago Branquinho”. Felizmente hoje somos adultos e os diferenciamos apenas como Thiago).

 Tiago (vai sem H mesmo) era um rapaz de família cristã, passava os domingos na igreja, nos chamava para ir a ela, brincava conosco, tinha um comportamente até mesmo educado, diante da nossa ignorância. Não éramos tão próximos quando crianças, ele tinha um tom meio mesquinho, de se achar superior. Claro que não era bem isso, mas nós, em nossa infância, não conseguíamos distinguir muito bem educação de falta dela e acabávamos colocando tudo no mesmo saco.

 Um belo dia, Tiago veio até minha nova casa. Nesa época já estávamos mais próximos por causa da minha ausência. Sempre que aparecia na casa antiga nós nos juntávamos e conversávamos, daí Tiago acabou se aproximando mais e eu pude conhecê-lo melhor do que julgava conhecer. Conversei com a sua mãe e ela permitiu que ele passasse alguns dias em minha nova residência, para preencher o vazio da ausência de amigos na nova cidade – Pausa dramática ao som de violinos no fundo –  Tiago veio com prazer. Estava disposto a se divertir. Eu também.

 Já falei por aqui outras vezes, mas acho próprio citar novamente. Sempre tive muitos brinquedos. Quando digo muitos, não quero dizer um bocado de bonecos espalhados pelo chão de casa. Quero dizer MUITOs brinquedos, em sua maioria, bonecos. Tinha de todos os tipos e tamanhos. De todas as coleções e marcas. Nunca fui de terminar uma coleção que comecei. Não queria brinquedos iguais, queria milhares de brinquedos diferentes que pudessem compôr meu painel de brincadeiras perfeita. E funcionava muito bem quando eu misturava homem de ferro, com batmans de divertos tipos e alguns comandos em ação.

Nunca completei uma coleção

 Um outro fato curioso sobre meus bonecos é que todos tinham nomes. Sim, como as garotas fazem com suas bonecas. Como fui sempre muito esquecido (motivo do qual eu nunca tive amigo invisível, eu nunca lembrava o nome dele) eu resolvi associar os nomes às suas características mais marcantes. Willy era um que era meio caolho, Punk era um que tinha o cabelo em estilo moicano, Baioneta era um que se chamava Baioneta, e assim por diante. Todos os bonecos tinham um nome, sejam eles engraçados, nomes próprios ou simplesmente um nome associado ao seu poder ou defeito. Na época não havia internet, portanto não era tão fácil descobrir o nome dos bonecos de coleções que nunca haviam vindo para o Brasil de forma legal.

 Como toda criança normal, eu tinha meus preferidos. Dentre eles estava Punk, o boneco de borracha, com articulações limitadas e cabelo estilo moicano. Punk era um dos bonecos que me acompanhavam em todas as brincadeiras. Uma hora ele era um pirata, na outra um piloto de fórmula 1, na outra apenas um cidadão vendendo bugingangas, e em outras, ele era o personagem principal. Logo, era claro que eu perceberia caso ele desaparecesse.

 Voltando ao assunto principal, antes que eu comece a descrever minhas brincadeiras em meio a milhões de onomatopéias.

 Voltando ao Tiago. Tiago veio até minha casa e ficou alguns dias. Não lembro quantos, mas foi tempo o suficiente para nos cansarmos de brincar. Até o momento em que ele partiu. Como sempre, fui com ele até a cidade dele. Fomos conversando como bons amigos que somos. Deixei ele em casa e depois dei algums voltas por lá, até voltar pra casa.

 Assim que cheguei em casa, voltei para o quarto pra brincar com os bonecos. Tudo estaria perfeito se não fosse por um motivo: Punk havia desaparecido. Eu entrei em desespero. Vasculhei toda a casa. Procurei em cada buraco daquela maldita casa e não o encontrei. Era impossível, a não ser que ele fizesse parte do elenco de Toy Story, que ele pudesse ter desaparecido sozinho.

 Só havia uma coisa na minha mente: Tiago roubou meu boneco. Era certo. Imaginem ter um amigo que você considerava há anos. Tratá-lo com educação, gostar dele, confiar nele, para simplesmente perceber que ele roubou teu boneco. Um dos preferidos, ainda por cima. Isso não podia ficar assim.

 Tiago nunca tinha me dado motivos para desconfiar dele. Já o havia ajudado diversas vezes, em pequenas coisas. Eu era incapaz de imaginar que ele pudesse ter feito algo desse tipo. Naquela altura, eu já estava puto da vida com ele. Belo amigo que eu tinha arranjado.

A cara do larápio nos dias de hoje

 Fiquei algum tempo remoendo aquela história. Pensando em uma boa forma de rever meu boneco ou de simplesmente encará-lo e fazê-lo tremer quando eu perguntasse sobre o paradeiro do meu boneco. Essa sem dúvida seria uma pergunta da qual Tiago não teria a resposta pronta. Até cogitei de contratar nosso amigo contraventor para invadir sua casa e reaver meu boneco querido.

 Para alertar meus outros amigos do nosso amigo ladrão, fiz questão de chamar alguns dois que eu confiava, tanto quanto confiei no Tiago, e revelar-lhes das desventuras de nosso amigo afanador de bonecos alheios. Se um deles pudesse me dar provas de que Tiago havia mesmo roubado meu boneco, seria bem mais fácil pra mim pressioná-lo e conseguir informações a respeito do Punk.

 Quão ingênuo eu havia sido.

 Certo dia, alguns meses depois, imagino eu. Tiago ainda não havia sido pressionado contra a parede a fim de revelar a localização de meu brinquedo, mas ao que tudo indica, a confiança que tinha nos outros dois amigos fora abalada sabe-se lá porque. Ou melhor, sei sim, porque eu não devia ter confiado neles. Se bem que hoje eu agradeço por isso.
 Tiago ficou sabendo da minha acusação de que ele havia roubado meu boneco. Por sorte ele não era nosso amigo contraventor citado no início do texto, ou eu não estaria digitando este texto nos dias de hoje. Tiago era muito mais comedido e fez questão de vir, ele, me pressionar para saber que história era essa do roubo do boneco.

 Eu não sabia o que dizer. Não fui capaz de simplesmente afirmar que ele havia roubado (Frouxo é tua mãe). Embora soubesse do seu furto, sua cara de inocente era por demais convincente e eu começava a me questionar se ele não estaria mesmo falando a verdade. Mas como seria possível que o boneco tivesse sumido exatamente depois que ele saiu lá de casa? Era tecnicamente impossível.

 Pedi algumas desculpas de meia boca, porque no fundo ainda achava que ele era um belo de um ladrãozinho que roubava brinquedos de amigos.

 Algum tempo passou. Não sei exatamente quando houve este confronto entre nós dois, mas lembro que no carnaval do ano seguinte (questão de 2 meses desde o “confronto”) eu fui fazer os preparativos para o carnaval. Fantasia, máscaras e coisas do tipo. Havia um fantasia que fazia parte dos meus sonhos. Tanto fez que usei ela por uns 3 anos seguidos. Era um manto preto, com detalhes em corda e alguns sacos para amarrar na cintura. Uma espécia de carrasco do mal. Não interessa a fantasia, interessa que ao abrir o saco da fantasia, encontrei ninguém mais ninguém menos que ele, Punk. Repousado sobre a fantasia dobrada estava ele, que foi objeto de discussão com um grande amigo, que acabei por julgar cedo demais.

 Daquele dia em diante me senti péssimo por ter julgado um amigo em quem eu realmente confiava. Foi uma facada seca e sucinta da minha parte. Se eu estava mal, imagine quão mal estava Tiago por todo esse tempo por ter sido julgado culpado?

 Felizmente eu não perdi tempo para me corrigir. Fiz questão de ir até Tiago o mais rápido possível e me desculpar. Explicar a situação e mostrar o quão arrependido eu estava. Como já falei, Tiago era uma ótima pessoa e já nem lembrava mais da situação, atribuindo a estranheza de nosso afastamento apenas ao fato de EU estar me afastando dele, por julgá-lo como ladrão de brinquedos.

 Tiago foi deste dia em diante um ótimo amigo que guardei e guardo até os dias de hoje. Nos dias em que andei perdido por aquelas terras, em busca dos antigos amigos, foi ele quem me avisou da perda de tempo que eu estava tendo. Aqueles que haviam sido meus amigos, hoje não eram mais do que um grupo de desocupados procurando cada dia mais problemas. Tiago me avisou das mudanças nas pessoas daquele local e foi ele quem me provou  por A+B que não tinha como eu me encaixar naquilo, seria perdo de tempo e perda total de sanidade. Foi ele quem me apontou como uma pessoa inteligente o suficiente para não fazer parte mais daquilo.

 Tiago me ensinou a tocar violão. Com toda a paciência do mundo me mostrou as notas que mais combinavam, os acordes, os exercicios e tudo mais que eu precisava saber. Ele me mostrou que não só era realmente um grande amigo como também fez questão de me direcionar em um caminho certo.

 Hoje devo tudo que tenho e que conquistei a este grande amigo e este texto é para mostrar pra ele o quanto ele foi importante e quanto ainda é importante pra mim, lembrando ou não das coisas que citei aqui. Tiago não só mostrou que existe o perdão como me ensinou diariamente como era ser uma pessoa melhor. Hoje devo muito mais do que um pedido de desculpas pra ele, devo parte do que sou e parte do que serei. Com certeza esta será uma história passada de geração em geração. Não pra provar a amizade que tive, pois ela ainda existirá quando estiver contando a história, mais pra mostrar a todos que amigos de verdade ainda existem e estão por aí. Uns viajaram para o Sul e conheceram a mulher de suas vidas, outros estão por aqui, esperando algum deslize de nossa parte para se demonstrarem verdadeiros amigos.

 O perdão não é uma coisa difícil de se dar, mas o julgamento errado é mais rápido do que a luz e surge na sua mente em instantes. Hoje tenho amigos em quem posso confiar e tenho certeza que sentem o mesmo por mim. Para estes, deixo um grande abraço e desejo para todos os outros que encontrem seus amigos. Não sejam amargos e esqueçam
das pessoas. Quando você menos esperar, elas vão te surpreender e você vai se sentir no débito pro resto de sua vida.

Como é o meu caso com o Tiago.

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