Meu trauma com macarrão

Chega um momento na vida de um homem onde ele precisa decidir se vai aprender a fazer comida como um profissional ou se vai comer de quentinha para todo o sempre. Esse meu momento chegou faz tempo e eu já decidi que serei sócio de alguma pensão ou de algum outro estabelecimento que me forneça alimentação saudável.

Em poucos momentos da minha vida, antes de casar, eu me deparei realmente com a necessidade de fazer comida. Quando isso acontecia, eu dava um jeito espertíssimo de burlar tal momento e sair de fininho enquanto ninguém estava observando minha vergonha. Outras vezes eu apenas comprava um biscoito e me deliciava com tal guloseima ignorando os pedidos de alimentação saudável da Rede Globo.

Minha mãe sempre foi super protetora. Sempre se esforçou ao máximo para fazer todos os deliciosos pratos para que nunca precisássemos chegar perto de um fogão. Fora a parte dos pratos deliciosos, isso sempre foi uma verdade absoluta.

Nunca precisamos passar roupa em casa, nunca precisamos trabalhar antes da hora, nunca precisamos cozinhar nem arrumar a casa, nem nenhuma dessas tarefas cansativas que a maioria foi obrigada a realizar.

Nesse momento você deve torcer o bico e dizer entre os dentes “mimado”, enquanto percebe que nada do que você disser será ouvido por mim (por isso a parte dos comentários. Lá vocês podem me xingar e ainda ganharem uma retribuição).

Em determinado momento da minha vida, passei por um grave problema. Minha mãe, base de tudo que tínhamos em casa e visão máxima da perfeição, sofreu de um grave problema de saúde e viu-se obrigada a se internar. Se fosse no passado, nada disso nos afetaria muito. Haviam muitas outras pessoas na casa para sustentarem a figura máxima de poder, mas na época em que isso ocorreu, éramos só meu irmão e eu (já que meu pai trabalhava) tentando nos dar bem e coordenar as situações do cotidiano. Para muitos isso era de se tirar de letra. Toda garota é obrigada a arrumar a casa desde pequena, se com a gente fosse assim, talvez a situação fosse outra, mas não era. Nunca foi.

Para nós, meu irmão e eu, era uma situação desesperadora, que queríamos muito sustentar para mostrarmos para nossa mãe como éramos fortes. Fracassamos miseravelmente diversas vezes. Mas em uma delas eu fui epicamente mais miserável e desesperador. A arte de cozinhar.

Não lembro bem a situação por completa, mas lembro de estar completamente empolgado com a idéia de fazer o jantar para a família. Meu irmão havia saído para algum lugar, meu pai demoraria a chegar do trabalho e eu pensei em fazê-los uma surpresa para que pudesse ser contada para minha mãe depois. Como ficariam surpresos quando chegassem em casa e se deparassem com suflê de gaspacho, arroz ao molho poró, bife refogado com acelga acebolada, entre outros pratos especiais que minha mente criava enquanto eu separava o macarrão, porque era o mais próximo de tudo isso que eu conseguia chegar, o macarrão.

Esse era o jantar que eu tinha em mente

Na época eu não era um usuário tão assíduo de internet. Hoje em dia eu me viro facilmente na cozinha por contar com amigos que são ótimos em cozinha, que fazem uma salada ao molho de iogurte como ninguém (com consistência frozen), que fazem miojo ou que simplesmente podem me indicar um site com uma belíssima receita de algo que eu nunca nem ouvi falar.

Me preparei mentalmente, separei os ingredientes que achei que iria precisar e me dediquei ao máximo para me focar no macarrão. Não havia pensado em mais nada. Não haveria acompanhamento, não haveria uma bebida especial, não haveria nada. Só o macarrão. Por que alguém iria querer um prato de acompanhamento quando eu nem sabia como preparar o prato principal? Não faz sentido nenhum exigirem isso de mim.

Preparei o macarrão e o deixei na panela. A princípio, temo demais. Tempo suficiente para ele virar uma espécie de sopa de macarrão, intragável até mesmo se você fosse um daqueles monges chineses que comem cabeça de grilo frita ao molho de carrapatos neozelandeses.

Claro que aquilo ficou horrível. Com gosto impossível de ser descrito em palavras (sim, eu provei) e eu precisava me livrar daquilo antes que qualquer ser humano pudesse chegar em casa e percebesse a besteira que eu fiz, para ser motivo de chacota para o resto da vida em almoços de família. Levei a panela com o conteúdo duvidoso para a pia e me preparei para lavar. O que meu cérebro e estômago não sabiam é que o macarrão com a textura horrivelmente estranha, me provocaria ânsia sempre que tentasse encostar a mão nela. Sempre tive um nojo horrendo de encostar as mãos em comida molhada. Nada que façam no mundo pode ser mais nojento que isso.

Vejam a imagem, respirem fundo e voltem a ler

Minhas mãos nadavam naquele mar de miolos “empanelados” e eu desejava muito que acabasse. Tentava segurar mas a vontade de vomitar era maior do que minha resistência ao mesmo. Segurava enquanto podia depois vomitava na lixeira. Lavava mais um pouco e voltava a vomitar mais. Depois de alguns minutos dessa nojeira juvenil, eu percebi que seria impossível para meu estômago aguentar aquilo, mas ainda assim precisava me livrar do conteúdo da panela. Vã ilusão a minha.

Meu pai, ou meu irmão, não me lembro bem, chegaram exatamente na hora em que eu me acabava para tentar esconder os vestígios do que havia acontecido ali. Ele, seja lá quem quer que tenha sido, se mostrou super prestativo e me garantiu que aquilo ficaria entre nós, seria um segredo só nosso. Claro que até hoje meus irmãos, cunhados (a), tios e tias comentam este episódio quando têm a oportunidade de falar “Vinícius, tem uma panela de macarrão lá pra você lavar”. Logo, fica claro que se eu nunca revelei isso, eu acabei confiando na pessoa errada.

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3 comentários

    1. Difícil dizer assim, mas acho que você deveria buscar receitas que atendam ao que você gosta. Se você não gosta de fogão, evite receitas que vão utilizá-lo demais. Busque também fazer receitas que você goste, o resultado pode ser muito satisfatório se você estiver fazendo algo que gosta de comer.

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