Halloween em pleno Natal

Quando se é criança, com cerca de uns 13 anos (Sim, houve uma época em que ter 13 anos ainda era considerado ser criança), você não está muito preocupado com o aquecimento global, com a morte de alguns poucos animais em extinção, com a destruição em massa nos campos de concentração alemão, com o trabalho escravo chinês, com quem pintou o teto da Capela Cistina ou com coisas do gênero. Nesta idade, almejamos coisas simples, palpáveis, algumas até meio vergonhosas. No meu caso, o que eu mais almejava era uma festa de aniversário digna de uma festa de aniversário.

Este meu trauma vem de muito tempo antes, de todos os outros 12 aniversários comemorados no passado. Tenho uma dezena de irmãos, dois deles fazem aniversário muito próximo do meu, logo, era até meio óbvio que as festas dentro de casa acontecessem em grupo. Um dos irmãos fazem dia 17, o outro 25 (é, eu sei que ele se fode), e eu faço dia 27.

No alto das dívidas que meu pai cultivava, era muito complicado sustentar 6 filhos famintos, mais a sua amada senhora e a ele mesmo. Para uma pessoa que ganhava alguns poucos cruzeiros, ou reais, ou cruzeiros reais, seja lá qual fosse a moeda corrente, era bem complicado distribuir presentes e realizar festanças individuais para todos os 3 filhos que decidiram nascer neste mês amaldiçoado pelo espírito natalino.

Para piorar a situação, um de nossos vizinhos fazia aniversário em Janeiro, dia 1º, se não me falha a memória. Claro que a mãe do infeliz resolvia participar da festa conjunta e realizar apenas UMA festa para 4 pessoas. Sim, éramos 4 crianças disputando aos murros e pontapés para ver quem assoprava a vela, como eu era o menor de todos, nunca conseguia me sobressair. Era uma situação bem desagradável, eu diria. Até hoje eu tenho trauma dessas festas conjuntas.

Além das festas em parceria, ainda sofria com o problema de fazer aniversário 2 dias depois do natal, logo, era certo de algum tio malandrão ou alguma tia mão de vaca dar um presente (que normalmente era uma porcaria embrulhada em plástico) e ainda frisar “é pelo natal e pelo aniversário, heim”. Em que situação isso é válido? Se você fizer aniversário dia 14 de julho, eu posso chegar até você e dizer “é natal e aniversário, heim”. Qual regra informalmente não escrita permite que haja um prazo para que você possa receber apenas um presente? Qual é o prazo limite para que isso seja permitido?

De qualquer forma, isso não vem ao caso. Estiquei um pouco para que vocês entendessem a importância que tinha essa festa quando ela começou a ser planejada. Minha progenitora veio até mim e disse que aquele podia ser o momento ideal para realizar a tão esperada festa. Já havia tido outra festa do mesmo porte e também igualmente aguardada, com o tema de “Jurassic Park”, mas no momento não havia nada que eu queria tanto quanto uma festa com temática “Hallowínica”. E foi assim que decimidos que essa seria a festa ideal.

No exato momento da confirmação nós disparamos a correr atrás dos enfeitos e dos planejamentos para a festa. Uma tarefa muito ingrata, devo dizer. Achar enfeites de Halloween em plena época natalinta é um esforço hérculeo. A lista de itens e guloseimas contavam com minhocas de geléia, paçoca em quantidade exagerada, enfeites fantasmagóricos, cabeças de abóboras para a mesa e muito papel crepom roxo e coral. As minhocas saíriam da “terra”, efeito criado pela paçoca jogada sobre o bolo a fim de emular um cemitério, os enfeites ficariam pendurados pelo local e o papel ficaria em volta da mesa para criar o ambiente.

Era algo mais ou menos assim

O local não poderia ser mais propício. Na época, a loja que minha mãe possuía era uma espécia de bar. Não vendíamos bebidas alcóolicas mas possuíamos as características de um bar. Era sujo, tinha refrigerante e um fliper, de onde vinha a maior parte do lucro da loja (pra você ver como nosso lucro era pífio). Acontece que o senhor responsável pelas máquinas de fliper do local, o Sr. Josinaldo, que de senhor não tinha nada, porque era um cara muito foda, resolveu me presentear com nada menos do que “fichas” infinitas naquele dia. Não só pra mim, mas pra todo e qualquer ser pensante no local. Ele deixou os créditos liberados para nós naquele dia, o que culminou em uma festa incrivelmente sensacional e com todos entretidos a todo tempo.

Recebi visitas da maioria dos membros da minha família. Alguns foram pra festa, outros foram simplesmente pelo prazer de poder se jogar no chão com uma tigela de ponche na mãe e rasgar a mão, abrindo espaço para encaixar mais um dedo, se quisesse. A festa foi
detida por alguns instantes até sabermos que a prima com DDA estava bem, só levaria alguns pontos na mão e poderia voltar feliz, ou não, para a festa. No fim das contas, o saldo até foi lucrativo.

Foi muito bom ter visto todos os familiares ali e me fazer perceber o quanto aquela festa foi importante, foi realmente uma das últimas festas onde todos quiseram ir e se divertiram juntamente comigo. Hoje em dia, quando vão, é aquela coisa meio obrigada, sem muita vontade de estar lá e tudo mais, mas como falei, o saldo foi bem lucrativo.

Lucrativo também é ver que todo ano, por mais que meu aniversário caia em uma dia infeliz, meu irmão se fode muito mais por fazer aniversário no dia 25. Se eu recebo apenas um presente pelos dois dias, o mesmo não deve acontecer com ele, porque os outros têm a desculpa de dizer “fiquem em dúvida se comprava um presente pro natal ou pro aniversário e resolvi não comprar nada”. Então este é um post história, um post de parabéns ao irmão e um de parabéns a mim. Mesmo com a esposa tomando banho de águas termais das batatas e queimando quase o braço inteiro, a “semi-festa” foi bem interessante a valeu muito a pena ter alguns poucos amigos lá. Segundo o calendário aponta, em janeiro haverá a festa real e todos os amigos serão convidados, daí sim vocês verão um post contemporâneo e não só mais uma história do passado.

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