Esfregando a nareba no asfalto

Há quem diga o contrário (eu e minha mãe, por exemplo), mas muitas pessoas insistiam em me chamar de narigudo durante uma parte da minha vida. Não posso dizer que meu nariz possui um tamanho normal, tendo em vista o da maioria das pessoas, que parece que foi esculpido a mão por um cirurgião desses famosos. Meu nariz é “um pouco” maior que o normal e acho que foi esse “pouco” que me permitiu ficar entre a linha tênue de ser um “narizinho” e de não ser uma pessoa deformada ao melhor estilo  “chocolate” Sloth de ser.

Quando criança sonhamos em fazer coisas que nunca seríamos capazes em outra época. Andamos de patins, tentamos saltar distâncias impossíveis, brincamos de coisas que nos dão vergonha hoje em dia, soltamos pipa, rodamos peão, bola de gude, entre outras coisas inocentes, com fins de simplesmente nos divertir.

Algumas brincadeiras são avaliadas como perigosas por nossos pais simplesmente por julgarem que em meio a essas inocentes brincadeiras nós possamos acabar com o nariz sangrando, uma perna quebrada ou uma costela de fora. Mal sabem eles que correr atrás de pipa, rodar peão e jogar bola de gude são muito mais perigosas, pois envolvem a fúria dos mancebos perdedores e essa, meu amigo, é uma fúria que ninguém, por mais macho que seja, quer sentir.

Uma das minhas brincadeiras preferidas era andar de bicicleta. Eu tinha uma bicicleta Monark, que infelizmente não possuo foto alguma para ilustrar, mas ela era um tom meio roxo (para não dizer rosa), com uns rajados verdes e um guidon enorme de cor verde forte.. Era minha querida amiga nas horas de diversão.

Eu não soube andar de bicicleta por um longo período da minha vida. Nos primeiros anos eu era pequeno, anos seguintes eu morei em prédio e outro período eu só tinha um cagaço filho da puta mesmo. Mas superei.

Uma das pessoas responsáveis por me fazer perder o medo era um amigo de época chamado Diego, que espero estar bem nos dias de hoje. Por mais que vocês pensem coisas insólitas sobre nós, em nossa ávida juventude, nunca tivemos uma relação carnal nem nada do tipo. Eu era homem, ele também. Só éramos amigos, por mais que vocês continuem pensando nisso (logo, gays são vocês que ficam imaginando certas coisas).

Diego, este pequeno jovem, na época, me ensinou os truques para andar de bicicleta e superar meu medo foda que tinha. Ele possuía um resto de metal com duas rodas que nos permitia nos equilibrar e nos divertir por toda uma tarde, durante meses. E, para não me acusarem de não ilustrar nada, trago a vocês uma foto do objeto descrito acima.

eu

Este é o pedaço de metal que lhes falei (Sim, sou eu na foto).

Então, com o tempo, consegui aprimorar minhas habilidades com a moto “desmotorizada” e solicitei aos meus responsáveis uma bicicleta própria, para que eu não precisasse mais usufruir da bicicleta alheia para ter um pouco de diversão.

Então, dias depois (acho que Natal ou aniversário, ambos são bem próximos) eu recebi em minhas mãos aquela que seria responsável pelo meu futuro arrependimento de me aventurar na minha amiga de metal.

Em um fatídico dia (não me peçam para lembrar a data) eu e mais uma dezena de mancebos nos reunimos para apostarmos corrida, corrermos em círculo ou simplesmente vaguear por aí, como se pudéssemos decidir o nosso destino. Mesmo que o destino fosse ficar rodeando a vizinhança algumas centenas de vezes. Éramos a versão mirim dos “motoqueiros selvagens“.

Morávamos em uma vizinhança com blocos bem definidos. Nada daquelas favelas homogênicas que os blocos não se dividiam de forma concreta, até que você não entenda mais onde começa uma rua e termina outra. Nada disso, nosso bairro era um local muito legal de se viver.

Corríamos em formato de 8 entre os quatro blocos principais do lugar. Um grupo de cerca de 15 corredores ávidos por aventura e diversão, vivíamos nosso próprio momento Sessão da Tarde. Crianças, com energia, vontade de aparecer e toda aquela coisa que temos quando somos crianças. É claro que eu não podia ficar para trás. Literalmente falando.

Em meio a tanta disparidade de idades em nosso grupo, percebi que minhas frágeis pernas não estavam dando conta do recado de me manter entre os primeiros colocados de nosso passeio. Respirei fundo quando vi que estava ficando pra trás e forcei os músculos das minhas pernas ao máximo. Comecei a correr como se não houvesse amanhã. Conseguia sentir o olhar de “Caralho, como esse muleque é foda” dos outros “competidores”. Podia perceber o tamanho da inveja que recaía sobre mim naquele célebre momento. Inveja essa que me erguerio ao alto patamar das fofocas na escola, no dia seguinte. Até que PLAFT.

“PLAFT” não traduz bem o que aconteceu naquele momento. Seria preciso muito mais que uma onomatopéia para definir a minha queda. Seria preciso mais terror que os cartazes de “Jogos Mortais”. A queda foi realmente feia. Numa das esquinas, eu cortei um de meus companheiros e passei por uma área por fora da “rua”, por assim dizer. Essa área era mais pedregosa e possuía um bueiro (muito do filho da puta). Não sei se para segurar a tampa do bueiro ou simplesmente para me fuder, foi posto um vegalhão dobrado, em forma de “D deitado” no concreto que circundava o bueiro. Algo que só os pedreiros de beira de estrada devem entender. O que sei é que a roda da minha bibicleta foi direto neste pequeno objeto e bateu. A batida não foi grande, mas foi forte o suficiente para me fazer desequilibrar e me estatelar no chão. Estava eufórico e não tive tempo de levar minha mão ao rosto, para me proteger da queda. Meu nariz (e somente ele) esfregou-se no chão graças a força da gravidade e do tamanho do mesmo. Tenho a impressão de que este “esfregaço” durou por cerca de uns 500 metros, mesmo sabendo que isso seria tecnicamente impossível, dada as perfeitas condições que ele se encontra hoje.

Não lembro muito do que aconteceu após isso, lembro-me de ter ficado em casa por muito tempo para recompôr-me do estrago e de atender as pessoas no portão com a cabeça baixa, envergonhado com o desfecho do meu dia de motoqueiro selvagem. Não fiquei traumatizado de andar de bicicleta, mas foi constrangedor esfregar toda a cara no asfalto e perceber que só maculei o Nariz. Sinal de que algum fundo de verdade tem sobre aquelas brincadeiras feitas na escola

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1 comentário

  1. Cada vez que eu leio um post desse blog narrando uma história caracterizade pelo gênero tragicomédia, retorno em minhas lembranças para reviver mais um momento como o do meu amigo. Parabéns! Como já havia dito antes, sinto prazer em ler seus textos.

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