Round 1, Fight.

Hoje em dia não é surpresa que eu diga que nunca entrei numa briga violenta com ninguém. É só olhar pra mim que você vai perceber que minha incapacidade de manter uma briga ou de simplesmente partir para os finalmente, onde trocamos socos deliberadamente até que alguém separe ou que alguém morra, o que normalmente não acontece, é nula.

Eu nunca fui muito próximo da idéia de espancar pessoas ao alheio, como muitos fazem. É como se houvesse uma roleta girando todo o tempo na própria cabeça, em algum momento ela para e você é obrigado a esbofetear o primeiro ser vivo com perna e culhões que você encontre em sua frente. Comigo nunca funcionou assim. (e gay é o senhor teu pai).

Dos muitos lugares que morei Coelho da Rocha foi sem dúvida o que mais me forneceu histórias para contar. Morei em dois lugares distintos dali e até hoje tenho amigos e mantenho contato com a maioria das pessoas que conheci na adolescência. Não sei se porque gosto ou simplesmente porque eles fizeram parte da minha adolescência, como posso esquecer isso assim?

De qualquer forma, morei em dois lugares ali, como dito anteriormente. Um deles, que vou omitir o nome para que vocês não pensem que sou um pobre coitado que viveu de favor (não era favela, mas o nome era bem parecido com isso), foi onde tive muitos amigos e onde fiz mais coisas. Dentre todos os amigos que tive, um deles ficou marcado. Seu nome era Maicon (não sei se a grafia está correta, mas dada a natureza do texto, vou deixar assim para empobrecê-lo mais).

De todo tipo de brincadeira de criança que já brinquei, “briguinha” e “lançar projetéis ao ar” eram as que eu menos gostava, por motivos óbvios. Embora fosse treinado na arte da “briguinha” por ter vivido em uma casa com 4 irmãos, a arte de “lançar projéteis ao ar” era menos favorecida para mim e foi exatamente essa que Maicon escolheu.

Em uma determinada tarde de 5 de julho de 1992 (sim, faça as contas e veja que eu escrevi a data sem a menor noção do que estava fazendo), brincávamos Maicon e eu em frente à minha casa. Brincar é uma palavra que não deveria ser usada pra esse tipo de coisa. Não há nada de divertido em alcançar pedras no chão e arremessá-las em seu “rival”. Mas para nós, era tão divertido quanto jogar videogame.

Diversão sem limites!

Diversão sem limites!

Imaginem que vocês estejam em um jardim, cochilando e curtindo um dia de folga no meio de tantos feriados brasileiros. Você está com sua companheira do lado, apalpando-a, conversando, dançando a dança do ventre (essa vai pro Braitner) e conversando sobre a vida de trabalhador que você leva.

*Poft

Uma pedra cai na sua cabeça. Não imagine uma pedra qualquer, imagine uma senhora pedra. A mãe das pedras, eu diria.

Pois é, foi a mesma sensação que Maicon teve quando arremessei um senhor pedregulho em direção a sua caixa craniana avantajada. Nem preciso dizer que ele se emputeceu ao nível extremo, não é?

Tentei fazer ares de bom amigo, conversar e avisar que foi sem querer. Maicon não quis saber, levou sua mão até a cabeça e saiu cabisbaixo, jurando que minha morte chegaria logo.

Lógico que é mentira. Eu saí correndo em direção a minha querida casa e pedi desculpa aos berros. Maicon levantou puto, catou umas 15 pedras com mãos que ele nem possuía e arremesou na minha direção, jurando a mim e minhas 4 gerações vindouras de morte ou de um sofrimento horrível, o que lhe fosse conveniente na hora da execução do plano.

Maicon estudou comigo na 3ª série, em uma escola bem próxima da minha casa, por isso era inevitável que nos encontrássemos indo ou vindo para a mesma. De qualquer forma, se não fosse assim, morávamos a menos de 100 metros um do outro, não seria difícil nos encontrarmos, ainda que acidentalmente.

Óbvio que não havia acidente algum na caça de nosso querido amigo. Ele queria mesmo me ver destruído. E assim foi. Seguimos os dois para a escola, eu com o meu coração na mão e ele com a sede de sangue, o desfecho não poderia ser outro.

Este é o meu pequeno algoz atualmente

Este é o meu pequeno algoz atualmente

Na saída da escola, andei o mais rápido que podia, até perceber que, como dito, invariavelmente eu o encontraria. Logo, tomei fôlego, parei por um momento e voltei até a porta da escola para esperá-lo e conversarmos, como bons amigos que éramos.

Se você fosse um negro, na década de 50, ficaria na porta de uma escola só para brancos no Alabama? Então, eu deveria ter imaginado que agir como Rosa Parks não seria a melhor forma de intermediar a tragédia que estava por vir.

Não quero aumentar demais e parecer que fui espancado e atropelado por um trator, na verdade não fui. Maicon não me acertou soco algum, apenas me agarrou pelo pescoço, falou algumas frases que pelo calor do momento eu não saberia repetí-las e em seguida me soltou. Qualquer pessoa normal avançaria de volta e arrebentaria a cara dele, mas eu não o fiz. Como bom samaritano que sou (ou covarde, para alguns), eu só consegui olhar pra ele e dizer “E aí, agora estamos certos?”. Ele sacudiu a cabeça fazendo que “sim” e fomos para casa lado a lado, como exemplos de bons amigos.

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1 comentário

  1. Então foi assim que começou suas habilidades arremessadoras. Mas saibam que ele evoluiu, agora ele sabe arremessar tênis tamanho 43 e bolas de basquete…

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