Crônicas de uma noite insana.

Pela internet afora é muito comum ouvirmos histórias de pessoas vivendo aventuras ilimitadas com muita confusão e com uma galerinha do barulho, mas na maioria das vezes, essas histórias são só meros atrativos para uma demonstração de quão radical aquela pessoa é. A história a seguir não tem caráter de rebeldia e revolução, é só uma história que aconteceu comigo e eu achei justo expô-la para vocês, caros leitores.

Não sei se já falei para vocês mas eu morei em Coelho da Rocha. Um bairro humilde (para não dizer pobre) como tantos outros da Baixada Fluminense. Meus pais possuem síndrome de nômade e não conseguiam ficar mais de 2 anos em uma mesma casa. Por esse motivo, sempre que arrumávamos amigos em um lugar, eles resolviam mudar para outro que ficasse cerca de 90 mil Km de distância do mesmo. Neste caso foi diferente.

Em uma destas mudanças, realizamos o feito de nos mudarmos duas vezes para o mesmo Bairro, Coelho da Rocha, como já disse. Ali, eu e meus irmãos fizemos amigos, tivemos namoradas, conhecemos pessoas que caminham conosco até hoje e alguns conheceram até mesmo as suas esposas e moram com ela lá até hoje.

No segundo ponto que morei, onde chamávamos de Avenida (eu não morava na avenida, mas morava ao lado de uma, logo sempre nos referíamos assim ao local), conheci muita gente que realmente é meu amigo até hoje. Uns se rebelaram e estão presos, outros somente seguiram o rumo da vida e saíram do Estado, outros continuam no mesmo ponto enquanto outros assumiram sua homossexualidade.

Casos e mais casos aconteceram comigo nesta Avenida. Éramos muitas crianças juntas, era impossível não sair nenhum problema de uma reunião tão volátil quanto esta. Quebrávamos coisas, invadíamos casa abandonadas, corríamos em círculos pelos quarteirões e muitas outras coisas.

Depois de alguns anos eu me mudei novamente. Voltamos para nosso ponto de partida, onde vivemos até hoje. Saímos do nosso bairro atual para viajarmos pelo Rio de Janeiro. Depois de um tempo, minha mãe achou por bem retornar ao mesmo ponto para continuarmos nossa epopéia. Agradeço muito por estes passos, pois foram neles que algumas coisas aconteceram que mudaram nossas vidas. Mas não vem ao caso ainda. Histórias de amor vêm depois de vocês me conhecerem um pouco mais.

Mesmo depois de ter me mudado eu continuava retornando para Coelho da Rocha. Mesmo anos depois, quando já tinha amigos no bairro atual, nós continuávamos indo para Coelho da Rocha. Era um lugar legal, nossos amigos eram legais (e ainda não eram bandidos, gays e marinheiros. Embora os dois últimos sejam até uma redundância).

Um dos amigos que encontrei no bairro atual, na escola para ser mais exato, foi Rafael. Carinhosamente apelidade de “Pará”. Não há nenhuma relação com sua cabeça avantajada e em formato cúbico. Nenhuma. Só o apelidamos assim porque gostamos dele e achamos os Cearenses pessoas de respeito, portanto nada mais justo do que apelidar uma pessoa que gostamos com uma alcunha tão peculiar (Também nunca entendemos porque dele ser Cearense e a nós o chamarmos de Pará).

Eu lhes apresento, Pará!

Eu lhes apresento, Pará!

Foi com o Pará (depois de tanto rodeio) que vivi uma destas aventuras bem peculiares que lhes conto a seguir.

Pará e eu temos um amigo em comum: Cleiton. Cleiton possuía uma banda e tocava em becos sujos em troca de gritos histéricos de roqueiros homossexuais. Do contrário do que possam pensar, Pará não era roqueiro, muito menos homossexual (eu só era roqueiro, fiquem sabendo!). Ele era e sempre foi evangélico e sempre gostou destas coisas ligadas ao divino, embora nunca tivesse tido preconceito de visitar qualquer tipo de lugar para ouvir música e conversar com gente diferente. Pará era Baixista e por mais que isso lhe impusesse uma condição de um perfeito inútil em uma banda, ele mantinha um gosto bem peculiar por música, não importando sua origem (se satânica, budista, mediúnica ou hare kryshna) ele a ouvia com prazer.

Fomos, Pará e eu, ao show do Cleiton. O local era chamado de Fliper e continha, como o nome deve ter deixado claro, muitas máquinas dos famosos arcades. Em meio à música estridente dos alto falantes semi-destruídos das máquinas e aos gritos dos vencedores na mesa de Sinuca, algum perfeito gênio teve a idéia de trazer bandas de rock para o recinto. Era um local perfeito para os roqueiros gritarem e ser divertirem.
Fora o fato do desapego ao banho, do barulho infernal, do cheiro de feira de onde o Fliper se encontrava,  da música ruim que as bandas tocavam, do excesso de drogas constantes no local e de muitos outros fatores, o evento em si foi legal. Um pequeno problema que não havíamos avaliado era a forma de retornar para a casa. Se na ida tínhamos uma quantidade boa de conduções, no retorno era uma chance em um milhão de encontrarmos uma forma válida e segura de retornarmos.

Este era o naipe da banda que fomos ver.

Este era o naipe da banda que fomos ver.

Contando com minha nobre esperteza, tive uma idéia genial. Iríamos para Coelho da Rocha, onde eu possuía amigos suficientes que pudessem nos ceder um quarto ou qualquer pedaço de papelão que pudéssemos nos aconchegar.

É claro que por obra do destino, nenhuma pessoa estaria em casa naquele dia. Amigos teriamo saído e suas respectivas mães não eram tão próximas de mim a ponto de permitirem que eu e mais um estranho entrasse em suas casas. O único irmão que possuía no bairro não era próximo de mim o suficiente para que eu pudesse pedir o mesmo (embora hoje sejamos bem próximos e até cumpadres). Resumindo: Estávamos fodidos de verde e amarelo. Nossa única esperança era um amigo de aparência hedionda chamado Renan (hoje é um marinheiro de aparência hedionda) que surgiu de repente caminhando pela rua em uma hora meio duvidosa, mas que não tivemos como discutir, por precisarmos dele.

Renan possui várias histórias dignas de serem contadas, não nesse momento, para não nos desviarmos do assunto. Em sua casa residiam sua avó, sua irmã, sua sobrinha e ele, Renan. Em uma rápida conversa na rua, ficou combinado de Renan entrar, despistar seus familiares até que todos fossem dormir, depois nos botar para dentro de sua casa para dormirmos em uma loja que ele possuía no seu quintal. Dessa forma, passaríamos a noite embaixo de um teto, descansaríamos o sono dos justos, sairíamos a tempo de pegarmos um ônibus e ninguém de sua família nos veria. Logo, era um plano perfeito.

Se Renan não fosse tão idiota.

Renan, do alto de sua sabedoria, ficou incumbido de pôr sua sobrinha pra dormir, enquanto nós, reles mortais desabrigados, aguardávamos do lado de fora de sua residência para sermos postos pra dentro. Todo mundo que já brincou alguns minutos com criança sabe que nós vamos cair duros com hemorragia nasal antes mesmo que qualquer criança comece a dar o menor sinal de cansaço. Principalmente se ela souber que nós estamos cansados de um dia de trabalho vendendo cuscus (essa era a profissão do pequeno Gremlin que iria nos abrigar).

Ficamos algum tempo esperando até cairmos na real de que Renan não retornaria. Daí, é claro, precisaríamos arrumar algum lugar para passarmos a noite. Embora fosse divertido passar a noite caminhando por uma praia ou algo assim, andar por uma cidade, sabendo dos riscos da época, não era uma boa idéia. Então, mais uma vez, como em um banho de banheira em séculos atrás, eu tive uma brilhante idéia. Vamos subir numa árvore e dormir lá. Quem não teria idéia parecida? Pois é, eu tive.

Fomos, novamente Pará e eu, para um canto próximo de onde morei e onde eu sabia que haviam árvores que pudessem nos sustentar. Realmente havia uma árvore não muito alto, de tronco rígido (embora isso soe extremamente gay) e com folhas o suficiente para nos esconder durante a noite. Tempo suficiente para descansarmos e pegarmos a condução retornando ao nosso querido lar.

É claro que eu devia ter imaginado que o Pará não seria a melhor pessoa para fazer uma coisa dessas. Vocês não vão entender, mas ele tem a mente mais criativa e impulsiva que já vi na vida, é claro que ia dar merda confiar minha segurança em uma criatura dessas advinda das terras do norte.
Revezamos em turnos nosso descanso, como em jogos de RPG, para evitar que alguém nos tacasse uma pedra ou qualquer coisa que o valha. Estávamos em cima de uma árvore, qual pessoa resistiria em atingir alguém nesta situação?

Pará, como dito antes, tem uma mente inventiva e jamais conseguiria ficar quieto durante todo um período de tempo enquanto poderia tirar proveito da situação. Em determinado momento, Pará viu um rapaz caminhando de volta, sabe-se lá de onde, para seu lar. Sendo impossível resistir, ele gritou “Psiu”.

O homem manteve seu passo e deu uma rápida virada para trás. Ao que Pará respondeu “Não to atrás não, to aqui”. O homem entrou em um estado de choque e olhou para todos os lados. Meteu a mão na cintura, olhou para a árvore e correu em disparada como se tivesse visto o próprio demônio com cabeça chata.

Acordei (embora não tivesse realmente dormindo) e encontrei Pará aos risos com a situação e só pude ver o pobre do rapaz fugindo a uma distância considerável. Também esqueci de informar que havia um valão enorme logo abaixo de nós. (vide gráfico para entender) e que no menor deslize cairíamos direto em uma enxurrada de merda e sujeira que banho nenhum tiraria de nosso corpo, isso se saíssemos vivos da queda.

Conseguimos sair vivos, fomos para casa, mantivemos isso em segredo por muito tempo e depois de um tempo até minha sobrinha já sabia do acontecido. Fato é que em uma segunda vez, agora planejada e por pura zoação, realizamos o mesmo feito e tivemos problemas ainda maiores. Vômito do alto da árvore, uma vontade impossível de ir ao banheiro e uma quase queda permearam nossa segunda aventura na árvore. Mas esta eu deixo para um próximo dia, quando tiver esquecido os traumas da primeira noite em cima de uma árvore.

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