Se fudendo no busão

Fechecler! Falando assim nem parece um objeto desenvolvido por um idiota bêbado que tem como objetivo te impedir de realizar algumas tarefas básicas, como ir ao banheiro, coçar o saco sem ter suas bolas presas, abrir uma bolsa para sacar algum dinheiro ou simplesmente pegar algo dentro de sua mochila para comer.

Também conhecido como zíper, fecho ecler, fecho de correr, entre outros, o objeto foi desenolvido por um americano e, mais tarde, aprimorado por um sueco. Do contrário do que eu disse no parágrafo anterior. Não foi um idiota bêbado, foram dois.

Nosso alvo de hoje.

Nosso alvo de hoje.

Eu tenho carro (eu sei que foi uma mudança drástica de assunto, mas se quiser saber mais sobre fechecler, procure no google), mas enquanto ele não estiver todo regularizado e com o carimbo de “pode passear” ele não pode sair da garagem. Portanto, entendam os motivos de eu ter que ir pro curso de ônibus. Não é que eu goste de dor, calor e pessoas ao meu redor. Eu simplesmente preciso desse transporte vindo do inferno.

Visão do inferno.

Visão do inferno.

Todo sábado eu me dirijo a um curso na zona nobre de minha cidade. Na verdade, eu diria do meu estado, tendo em vista a distância que minha real cidade se encontra do Centro do Rio de Janeiro. Ao sair do curso eu tenho uma pequena rotina a ser seguida: Pego o metrô com os sobreviventes do curso, desço na estação da Central, compro algum biscoito para me alimentar até chegar em casa e algo para beber. Entro no ônibus e volto ouvindo alguns podcasts que eu curto ouvir. Para evitar entar no ônibus com a minha habilidade nata de ser desastrado, eu sempre ponho tudo na mochila e só volto a pegar quando estiver devidamente acomodado em meu assento.

O Rio de Janeiro nessa época tem feito um calor um pouco maior que no Senegal. Aquele calor onde cada hora que você pisa no chão, você tem a exata certeza de que o asfalto está um pouco mais mole do que ele deveria estar. Ou melhor, ele está mole, quando na verdade deveria estar rígido para que seus pés não chafurdem no piche. Pegar um ônibus com ar condicionado não é questão de luxo, é questão de sobrevivência.

Eu adentrei o transporte coletivo dirigido por Satã. Paguei minha passagem como todo cidadão faz e me dirigi ao fundo do veículo para analisar as melhores poltronas, a essa altura, poucas livres. Em meio a bêbados voltando para suas casas da noitada de sexta, mulheres de gosto curioso em relação às suas roupas e militares eu achei mais apropriado sentar-me ao lado de uma senhora com um rosto alegre e muito acolhedor, daqui pra frente chamada de Velha narcoléptica.

Assim que me sentei percebi que o ar de boa moça dava um ar de “saia daqui agora seu filho da puta”. Não consegui entender o porque, mas meu cabelo azul e minha cara de filho sem pai nem mãe deve ter feito ela ter pensamentos errados sobre mim.

Tentei o máximo possível não atrapalhá-la em seu lugar. Sentei-me, ajustei-me na poltrona e aguardei que meu assento aceitasse minha posição atual como “confortável”. Logo depois, saquei os fones de ouvido, liguei em um podcast e comecei a me preparar para meu ritual de sempre.

Tentei abrir minha mochila e o fechecler travou. Fiz alguma força para tentar abrí-lo e nada. Olhei para o lado e percebi que a senhora que outrora sustentava um ar de ódio contra mim, agora sorria levemente pelo canto da boca, como se estivesse regurgitando-se por minha desgraça. Também percebi que ela, silenciosamente, abriu um pouco mais as pernas e acomodou-se mais para perto de mim, o que uma mente treinada como a minha fez perceber que ela estava tentado dificultar minha vida, encurtando meu espaço e me fazendo parecer um T-Rex abrindo a mochila.

Continuei forçando o fechecler. Forcei tanto que meus braços começaram a dar sinais de cansaço, de tanto tempo que estava sustendo-os no ar, imaginando que aquela força iria me ajudar, ao invés de atrapalhar. Cerca de 10 minutos depois do ônibus ter deixado seu local de descanso, percebi que a velha narcoléptica havia caído num estado de sono profundo, quase um torpor vampiresco. Embora não houvesse estava encravada em seu coração, eu imaginei que ela não fosse acordar tão cedo. E, do contrário do que eu pensei, ela não cedeu espaço, continuou me jogando para fora de minha posição inicial mesmo depois de estar dormindo.

Eu pensei em todas as vezes que já havia passado por isso com o fechecler, e de todas elas eu tinha a certeza que já havia prometido fazer algo para facilitar minha vida, mas como vocês devem imaginar, eu esqueci. Não que não desse a devida atenção, eu dava, mas qual de vocês já solucionou um problema depois dele resolvido? Pois é, eu nunca.

Continuei com minha brava luta, tentando ao máximo impedir que alguma pessoa pudesse estar vendo e se deliciando com minha pouca habilidade em abrir uma simples mochila. Tentava disfarçar, imaginando que os olhares negativos estivessem do lado do fechecler e não do meu. Tentava por alguns minutos e descansava. Tentava mais um pouco e descansava. Tentava até a exaustão e descansava. Já estava vendo a hora de meus tendões explodirem e eu ficar paraplégico braçal (embora isso nem exista) ou algo assim. Era impossível que toda aquela força não estava sendo útil para vencer um simples pedaço de pano e alguns ganchos entrelaçados.

Por sorte, a bebida que eu havia comprado não estava na mochila, portanto eu podia repôr minhas energias (seria muito melhor se fosse um gatorade) e continuar tentando, até que não me sobrassem mais forças.

Não contente com a situação, o motorista do ônibus, o supra citado satã, havia entrado em uma rodovia e corria como se não houvesse amanhã. Se isso por um lado era ruim, por outro eu chegaria mais rápido em casa e poderia comer. A essa altura eu nem me preocupava mais com a mochila, mas sim com minha integridade. Foi aí que tive um estalo.

Se eu estivesse pelado numa banheira naquela hora, com certeza eu sairia correndo gritando “Eureka! Eureka!”. Integridade, essa era a palavra que eu precisava ter pensado. Vasculhei a mochila por alguns minutos e encontrei uma lapiseira. Não sei porque ela estava ali, mas estava. Obra divina, talvez. Rapidamente eu saquei ela da mochila, dei várias estocadas com ela no pano que prendia o fechecler (que do contrário que vocês devem estar pensando, não era o pano que vem com o fechecler, era um pano extra, posto ali por engenheiros loucos que acham que vão ajudar). As estocadas abriam uma larga brecha para que minha mão pudesse entrar na mochila e pegar algum objeto pequeno. Por sorte, se olhado pelo ângulo certo, um pacote de biscoito é um objeto pequeno.

Antes que as pessoas ao meu redor pudessem sorrir pela vitória da mochila. Eu saquei meu biscoito, triunfante como o artista brasileiro possivelmente pegará o Oscar (SE isso acontecer, é claro) e levantei-o sobre minha cabeça. Naquele momento podia ouvir o efeito sonoro de adição de item de Final Fantasy, impossível de ser reproduzido num texto, e sorri triunfante para todos aqueles que antes torciam pelo biscoito. Pelo que percebi, eles não estavam muito empolgados, pois a maioria já estava dormindo ou olhando pela janela contemplando as lindas paisagens. Nem a velha narcoléptica estava mais torcendo contra. Ela jazia lindamente, por assim dizer, nos doces braços de Morpheu.

Portanto, minha vitória exemplar sobre o fechecler não foi comemorada nem escrita nos anais da história, mas dentro de mim uma grande festa era realizada e hoje, na segunda feira, percebi que minha mochila continuou com o fechecler emperrado todo o fim de semana e que tive que pôr o PSP em um bolso menor simplesmente porque não tive tempo (lê-se, fiquei jogando videogame) para arrumá-la. Agora me digam, tenho ou não tenho que me fuder?

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6 comentários

  1. Muito bom esse.
    Nõ me contive e acabei rindo com “Não contente com a situação, o motorista do ônibus, o supra citado satã, havia entrado em uma rodovia e corria como se não houvesse amanhã.”.
    Também me indentifiquei bastante com “e de todas elas eu tinha a certeza que já havia prometido fazer algo para facilitar minha vida, mas como vocês devem imaginar, eu esqueci. Não que não desse a devida atenção, eu dava, mas qual de vocês já solucionou um problema depois dele resolvido? Pois é, eu nunca.”.
    Continue assim. Espero encontrar textos com essa qualidade mais vezes.
    Abraço.

  2. Nada como posts naturais como esse, que acontece com todos nós no dia-a-dia. Me vi em certas ocasiões, pois também escuto podcast’s no onibus e as vezes meu zipper também emperra. Muito bom. Parabéns.

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