Ensinamentos da minha mãe e “porque não ser ignorante com os outros”

Mãe é um ser mágico que nos apresenta, todos os dias, a coisas incríveis. Sejam elas coisas levianas ou coisas incríveis que você vai levar para todo o sempre.

Existem gestos de mãe que se perdem durante o seu crescimento, enquanto outros duram para todo o sempre. Um gesto que minha mãe sempre fez comigo foi olha pela janela do ônibus/carro, ver as luzes lá longe, das casas em morros e tudo mais e dizer, com a voz cheia de emoção “Tá vendo aquelas luzes, lá? Cada uma daquela é uma história. Em uma delas tem um pai de família chegando tarde do trabalho, em outra tem um casal discutindo, em outro tem uma criança chorando. Cada luz daquela é uma história diferente”.

Pode não ter significado muito pra minha mãe me dizer aquilo todas as vezes que passávamos por locais que tivessem essas luzes, mas pra mim é muito engraçado ver como isso me marcou. Como que hoje, ao olhar para as luzes à distância, eu fico imaginando cada família, cada história e cada detalhe daquela vida que acabamos esquecendo que existe para dar lugar ao nosso “eu”. Só a nossa vida importa, a de mais ninguém.

Pare pra pensar um minuto. Quantas luzes dessa você já viu em sua vida. Quantas luzes apagam e se acendem todos os dias e não nos damos conta da importância daquele sentimento que eu tinha quando era criança.

No dia a dia, minha mãe costumava dizer que deveríamos respeitar os outros, mesmo que eles não nos respeitassem, porque tínhamos que nos colocar no lugar dele. Se alguém está estressado, tem um motivo. E quando ela falava isso eu logo associava às luzes que ela me mostrava nas viagens. Aquela pessoa que estava me atendendo mal no balcão da padaria era uma daquela luz. Era uma família, uma discussão, era um problema. Tentávamos ao máximo não ser grosso com ninguém por conta disso, embora a vida tenha nos impedido, por muitas vezes, de sermos assim.

Outro ensinamento que guardo até hoje, vindo também da minha mãe, é que “Amanhã, nesse mesmo horário, já vai estar tudo bem”. Normalmente ela me falava isso quando eu tinha dentista marcado. Eu tinha pavor. Tinha muito medo de dentistas porque sempre doía muito e sempre ficava nervoso ao ter uma consulta marcada determinado dia. Aí quando ia pra casa à noite, pra não ficar pensando ela me falava isso. Eu refletia por alguns instantes e pensava que, realmente, fazia sentido. Eu não iria morrer. Era só uma consulta que tinha marcado e nada mais do que isso. Dali o medo ia embora e eu dormia tranquilo.

Sempre que estiver passando por um problema complicado, lembre-se que “amanhã, neste mesmo horário, você já estará bem”. Dependendo do problema, pode ser até antes de “amanhã”. Pense nisso.

Feliz dia das mães

Feliz dia das mães

Meu primeiro tapa na cara

Este post revela mais um lado incrível a minha infância.

O grande problema de morar em um prédio é o fato de que, dependendo da sua região, você acaba sendo obrigado a socializar apenas com os amigos do prédio, no máximo da escola, quando você utiliza os minutos de liberdade para saciar sua sede de socialização. Que merda de frase, não?

Pois bem. Há muitos anos atrás, morei em um prédio em Coelho Neto e lá tínhamos muitos amigos. Todos eles moravam no prédio mesmo. Como morávamos em um local com a rua extremamente movimentada, era impossível pedir para ir brincar na rua, ou qualquer chavão que o valha quando se é criança.

Todo tipo de estereótipo de amigos nós tínhamos naquele prédio. O legal é ver que aquelas crianças representavam o estereótipo de todas as pessoas que encontraríamos na vida. Tinha o filho da síndica que era o playboy sem regras. Tínhamos o vizinho fofoqueiro; o mais velho valentão e por aí vai. Todos eram representações exatas do que encararíamos em nossas vidas.

E um desses estereótipos era o da “namorada/amiga”. E ela atendia pelo nome de Daniela. Ou com dois L’s, mais possivelmente. Eu não saberia arriscar com certeza qual era nossa idade naquela época, mas nós insistimos no fato de que estaríamos namorando. Na verdade, até o estereótipo de “triângulo amoroso” nós tínhamos, uma vez que eu era apaixonado pela minha vizinha do lado e ela não me dava bola, enquanto namorava a vizinha de cima.

Daniella era gentil, muito legal e um doce de pessoa. Difícil que uma garota com 7, 8 ou 9 anos não seja (eu realmente não sei a idade que tínhamos, mas vamos deixar com 9 para não parecer muito errado). Todos os nossos amiguinhos sabiam que nós namorávamos. E namorávamos mesmo.

Lembro de uma vez que ficamos sentados na escada, conversando e nos beijando enquanto pensávamos o que iríamos fazer da vida. Não sei se eu fui muito precoce ou se realmente éramos apaixonados. O que importa é que nós namorávamos como adultos (exceto por estas partes sujas que vocês estão pensando. Nós tínhamos 9 anos, não 25).

(pensamento não relacionado: Não há coisa melhor no mundo do que abrir um biscoito recheado e comer o recheio. Complicado é para, depois, tentar achar uma utilidade para aquele biscoito inútil)

Certa vez eu estava conversando com meus amigos homens (talvez meu irmão e mais uns 2 vizinhos) e a Daniella apareceu na escada. Acenou para mim me chamando e voltou para a escada. O prédio tinha até elevador, mas como ele vivia caindo no fosso, ninguém era louco o suficiente para tentar usá-lo.

Saí de perto dos amigos e fui ver o que a Daniella queria. Tenho quase certeza que a cena na cabeça dela foi muito mais bonita e lúdica do que realmente foi. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Daniella disse “Não quero mais nada com você”. Quando pensava em esboçar uma reação, Daniella ergueu sua mão de donzela com peso de mão de pedreiro Jorge e lascou na minha cara. Eu nem sabia o que estava acontecendo e nem porque estava apanhando. Só sei que minha cara ardeu por alguns minutos até que eu conseguisse voltar ao meu corpo e correr atrás dela pra tentar esclarecer as coisas.

Ela correu e se trancou em casa. Eu fiquei sem entender e voltei pra casa, com o rosto latejando ainda. Procurando entender o motivo de tal brutalidade. Depois fiquei pensando se teria alguma coisa a ver com um certo bilhete que eu havia enviado para a Rafaela (a “outra”) e que, por acidente, tivesse caído nas mãos da pessoa errada, da Daniella, por exemplo.

Essa não foi a única decepção amorosa que tive. Certa vez também fiz uma serenata linda para uma garota chamada Anne. Ela também teria achado linda se ela tivesse ouvido a serenata, ao invés da mãe dela, que estava na janela e minha miopia não me permitiu diferenciar uma da outra. No fim das contas eu fui xingado e estapeado em duas situações em que eu deveria ter sido exaltado como um lindo e apaixonado capricorniano romântico. Mas como também não acredito em signos, me fudi duplamente.

O dia em que meu gato falou

Outro dia comentei no twitter (ou Facebook, não lembro) sobre a história em que meu querido amigo felino falou. Um ou dois amigos me encorajaram a contar a história, mas eu ainda sabia que teria problemas de credibilidade sobre a mesma. Ontem, em casa, comentei com a namorada a história e ela disse, com todas as letras “Me desculpe, mas é impossível acreditar nisso”. Eu me senti mal, traído, mas mesmo assim copmreendi a situação. Se fosse comigo eu estaria gargalhando e duvidando também.

Acontece que essa é uma história que eu sempre contei pros meus amigos e todos eles reagiam da mesma forma: “apontavam o dedo e riam”. Alguns não davam muita bola, como se quisesse passar a impressão de não querer duvidar de mim, mas também não queriam acreditar. Outros simplesmente afirmavam que eu estava mentindo. Até hoje eu não encontrei nenhum amigo que dissesse “Cara, eu acredito em você”. Mas veja bem, não estou reclamando. Se fosse a situação inversa eu também faria o mesmo.

Em meados de muito tempo atrás, quando eu era mais moleque, nós morávamos em um apartamento em Coelho neto, no Rio de Janeiro. Não sei se vocês conhecem, mas não faz diferença alguma conhecer o local para a história que conto.

Quer dizer, antes de falar sobre Coelho Neto, é melhor falar da origem do gato.

Pra começo de conversa, o nome dele era Haroldo. Minha irmã era fanática pelo Calvin e assim que ganhamos o gato (ou compramos, não me lembro bem) ela solicitou que este fosse o nome dele. Como ele era meio rajado de preto e cinza, ele parecia, exceto pelas cores, com um tigre, então minha mãe aceitou numa boa que este fosse o nome do bichano.

Haroldo ficou conosco muito tempo, depois sumiu e ninguém nunca mais soube dele. Durante mais ou menos um ano minha mãe repetiu o ritual de toda manhã aguardando-o na varanda de casa para dar ração a ele. Acho que foi mais ou menos como se tivesse perdido um filho, pra ela. Até hoje não deve estar totalmente recuperada.

Mas divago. Haroldo era um gato esperto e sempre se mostrou acima da média. Tinha aprendido a abrir portas (pulando e batendo na maçaneta), sabia onde devia fazer suas necessidades e todos amávamos ele. Até o dia que ele resolveu falar.

Em nosso prédio, morava uma outra família na frente da nosso apartamento. Como nosso apartamento era de esquina, a cozinha tinha uma área de serviço que dava de frente pra área de serviço do outro apartamento. Esta família tinha um gato chamado Tom (original, não?) e o Tom tinha o terrível costume de aparecer na nossa casa para comer a ração do Haroldo.

Neste dia, estávamos minha mãe e eu na cozinha, conversando enquanto ela preparava alguma coisa para o jantar. Como de costume, Haroldo estava deitado no meio da cozinha, como se ouvisse nossa conversa mas não quisesse participar. Estava apenas ali, curtindo um momento com a família.

O Tom também sabia abrir portas (o que invalida a minha teoria de que o Haroldo era especial por saber fazer isso) e utilizou deste conhecimento para pular para nossa varanda e dar uma patada na maçaneta revelando nosso pequeno encontro em família. Tom abriu a porta, saltou para o chão e foi a empurrando bem devagar, passando seu corpo por entre a fresta que havia se formado com o empurrão que havia dado.

A comida do Haroldo ficava ora na área de serviço, ora dentro de casa, na cozinha, pra ser mais preciso. E naquele dia ela estava na cozinha, mais ou menos próximo de onde Haroldo estava.

Assim que a porta abriu, minha mãe e eu nos assustamos mas logo ficamos tranquilo, porque vimos que era o Tom que estava entrando. Como nunca tivemos o costume de maltratar animais, deixamos ele entrar tranquilamente. Se o Haroldo não tinha problemas em ter um gato vizinho roubando sua comida não éramos nós que teríamos, né?

Mas ao que tudo indica, o Haroldo não ficava muito feliz com isso. Assim que o Tom adentrou pela porta, o Haroldo se levantou, pôs-se naquela posição que o gato fica todo “arrepiado” e que eu não sei o nome e proferiu as seguintes palavras: “AH VAGABUNDO”.

Minuto para você rir da minha cara.

Eu sei que é absurdo. Eu sei que você não acredita nisso, mas ele falou. Minha mãe e eu vimos. Nós dois estávamos presentes. Não foi ninguém que nos falou, não foi nenhum vídeo da internet que me fez acreditar nisso. Eu vi e ouvi.

Naquele mesmo momento minha mãe e eu nos encaramos e ficamos esperando nossa mente organizar o que havia acontecido para garantir que estava realmente sendo real. Imediatamente o Tom voltou por onde veio e foi para casa, o Haroldo deitou no chão como se nada tivesse acontecido e eu e minha mãe CORREMOS para a sala e ficamos lá, longe do Haroldo, até meu pai chegar.

Contamos para a família e todos nos ignoraram. Até hoje devem duvidar dessa história, mas eu posso garantir com toda certeza que ouvi o Haroldo falar. Não sei se foi um acidente, não sei se foi um espírito do mal que entrou nele, só sei que ele falou. Você pode não acreditar, mas até minha mãe pode comprovar que tal história aconteceu.

Procurei na internet por algum fenômeno parecido e o único que encontrei foi o vídeo abaixo, mas ainda assim não representa nem 1% da genialidade do Haroldo.

Tá querendo desquitar

Uma coisa que algumas pessoas podem não saber é o fato de que, na minha adolescência, eu era incrivelmente apaixonado pela boa música que a banda Raimundos fazia. Na verdade, até hoje eu ainda sou, mas fiquei muito tempo sem ouvir o som dos caras. Aquela época em que você decide ouvir coisas novas pra conhecer boa música e pra saber que você nunca devia ter se afastado de sua origem.

Não só pelas letras de duplo sentido, não só pelos acordes, não só pela atitude. A banda possuía um conjunto de qualidades que a fez difícil de superar, mesmo na época, em que muitas bandas do mesmo gênero surgiram no Brasil. A inteligência das letras, a agilidade nas rimas e as histórias, quase sempre baseadas em acontecimentos reais, faziam e ainda fazem a banda ser uma das minhas preferidas.

Na escola, naquela fatídica hora em que escolhemos quais amigos ficarão conosco durante o ano, e alguns durante a vida, eu me aproximei exatamente do cara que também era apaixonado por Raimundos. Como eu. Além de gostar ele também sabia tocar violão.

Do contrário do que você pensa, ele não era um bicho grilo, mais chato que o encontro anual dos hispsters de violão. O cara tocava as melhores músicas de forma perfeita, ainda por cima não gostava de Legião e não curtia essas bandas Ploc’s anos 80. Se uma pessoa sabe tocar violão e NÃO gosta de tocar Legião, esse alguém precisa ser meu amigo.

O nome dele era Cleiton e com ele eu tive as melhores aulas de música e de bandas novas. O cara era uma enciclopédia de bandas sensacionais. Hoje em dia estamos afastados, mas a lembrança da amizade e a certeza de um sentimento de amizade mútuo me confortam.

Em uma dessas situações chatas da escola, fomos obrigados a formar um grupo para compormos uma música, uma poesia ou um texto que retratasse o cotidiano de algum personagem. Não poderíamos inventar nada, tudo teria que ser baseado em algo que você viu. Seja a história de um vizinho corno ou como foi sua primeira vez em um puteiro, embora esta segunda opção não fosse bem o que te daria uma nota 10.

O tempo foi passando e os grupos se formando. Nós, que não estávamos muito preocupados com o trabalho largamos de mão e fomos viver nossas vidas. Até o dia da apresentação. Que pareceu chegar em um piscar de olhos.

Assim que a professora adentrou a sala e perguntou quem seria o primeiro a se apresentar meu coração bateu em slow motion. Como assim se apresentar? Era aquele o dia da apresentação? O tempo dado por ela passou tão rápido assim? Onde estávamos neste tempo?

Cleiton, Sérgio, Suilan e eu entramos em desespero. Sim, Suilan é o nome de uma amiga minha que também havia ignorado sumariamente o trabalho e naquele momento se pegava pensando no que fazer.

O primeiro grupo se apresentou com um texto estranho sobre o nascimento de uma criança. Eu não sei se foi a narração ou se as palavras escolhidas foram ruins, eu só lembro de ter pensado em suicídio algumas vezes enquanto ouvia os caras narrando as aventuras da mãe de um deles nessa “nova empreitada de ser mãe”.

De repente os grupos foram ficando indecisos. Ninguém mais tinha coragem de se apresentar e, a julgar pelo que ouvi, eles estavam com medo de se apresentar depois desse grupo do bebê. Ao que parecia, ele tinha sido mais legal do que eu havia ouvido, para causar medo nos demais.

Então eu me levantei e fui até a frente da sala. Chamei o pessoal e eles ficaram do meu lado, esperando para saber o que eu pretendia dizer, uma vez que ninguém esperava uma reação minha. Mas como diz o Capitão Nascimento “nada melhor do que uma crise para aguçar a criatividade”.

Então a professora perguntou sobre o que seria nosso trabalho. Eu olhei para o Cleiton, como que pedindo um sinal de cumplicidade e disse:

- Nosso trabalho é uma música que fizemos para um vizinho meu. Seu Vavá é o nome dele e ele tem tido problemas com seu casamento.

No momento em que falei o nome a galera entendeu. Algumas pessoas da turma já tinham nos ouvido cantando essa música e também tinham entendido, mas jamais seriam capazes de nos desmascarar.

Quando a professora deu o sinal para começarmos, nós cantamos essa música abaixo:

Sabe o que é melhor? Depois da cara de espantada da professora perguntando se nós mesmos tínhamos feito a música, foi ver que ninguém mais ousou levantar seu rabinho da cadeira para tentar desvendar nosso trabalho.

Depois que isso aconteceu eu tive certeza de uma coisa. Por mais que todos amem bebês fofinhos e historias sobre seu nascimento, Raimundos ainda é Raimundos e ninguém consegue desbancar os caras.

Mira, respira e bate.

Sabe a loja que contei onde morei por algum tempo? Por um bom tempo dividimos nosso espaço de vida entre a loja e a casa onde minha irmã mora agora. Um de nossos maiores passatempos forçados era caminhar da loja para a casa e da casa para a loja. Como sempre tive muitos irmãos (ou você achou que eles só surgiram agora, depois de velhos?) nós nos reuníamos em grupos para subir e descer o morro em qual se localizava a casa. Para chegarmos até ele tínhamos dois caminhos: um sem graça e com casas mais sem graças ou um com barrancos, árvores, cachorros loucos e frutas com gosto de inferno quente como a Índia. Por onde vocês acham que nós íamos?

Tenho muitas lembranças deste trajeto de aventuras e emoções que fazíamos, algumas deixaram rastros até hoje. Literalmente.

Apesar de todo o trajeto ser repleto de barrancos, árvores, cercas elétricas e coisas legais para brincarmos, uma das casas era especial em nosso rumo. Uma casa imensa, de esquina e repleta de árvores e espaço para nossa prática de mini arvorismo.

Era nessa casa que se localizava o melhor pé de jamelão (jamelãozeiro?)do universo, com seus milhares de “jamelãos” caídos no chão implorando para que fossem pegos, limpos e comidos. Não fazíamos isso por passar fome (pescar rã era, mas jamelão era por diversão mesmo), fazíamos porque era o que um grupo de crianças faziam na infância, diferente de hoje que gente com 11 anos precisa trabalhar para pagar pensão se não quiser ver sua mãe ser presa.

Um detalhe muito legal dessa casa e que permanece registrado em minha memória é que lá foi o primeiro lugar na minha vida em que eu provei jenipapo. A experiência por si só já daria um post inteiro. Se você nunca comeu, leia o parágrafo abaixo que ele te elucidará sobre o gosto do “jenipapo”.

Éramos bem pequenos, então não tínhamos problema nenhum em subir em árvores, por maiores que elas fossem. A árvore do jenipapo era uma árvore muito grande. Muito grande mesmo, quase não dava pra ver o chão por causa das folhas abaixo de nós. Subíamos com facilidade na árvore, nos acomodávamos e pegávamos uma fruta daquela que não sabíamos o gosto. Eu nunca tinha ouvido falar de jenipapo e a aparência dela não era das melhores mas jambo (tinha um pé de jambo em casa, então eu sabia como era) também não tinha uma boa aparência e era gostosa. Peguei uma das frutas e levei até a boca para saborear aquela dádiva divina.

Sabe quando você está mexendo com muitas folhas de papel e uma delas corta seu dedo? Imagina agora que esse papel que cortou seu dedo estivesse descendo pela tua garganta e cortando-a enquanto faz o caminho até seu estômago. Então, foi mais ou menos esta experiência que tive quando comi jenipapo. Se a morte pudesse ter um gosto, seria semelhante ao gosto de jenipapo.

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O cachorro era mais ou menos assim

A última lembrança dessa “Sessão da Tarde” infantil era de que nesta mesma casa havia um cachorro cego e louco. Daqueles que latia para um lado enquanto você passava pelo outro. Por mais furioso que ele fosse, ele nunca conseguia saber onde estávamos.

Nunca me perguntei como ele havia ficado daquele jeito, até que eu soube.

Um dos meus irmãos, anos antes de comermos jamelão daquele pé, foi solicitado a levar uma panela de casa para minha mãe. Seja lá o que ela quisesse fazer com a panela, a forma como ela foi entregue impossibilitava o uso da mesma. Diante dos questionamentos da minha mãe do porque a panela estar “com uma cara de cachorro esculpida” meu irmão foi bem enfático em dizer: “sabe aquele cachorro preto que avança em todo mundo? Então, eu passei lá e ele veio para cima de mim. No desespero eu bati com a panela nele e ele voltou chorando para o canto dele”.

Meu irmão não sabia disso naquela tarde, mas ele estaria facilitando nossas vidas e nossas estripulias muitos anos depois daquilo. Graças a uma bela panelada que ele deu no coitado do cão raivoso…e agora cego.

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Ainda bem que minha mãe não pediu para ele levar uma faca

Meu irmão, meu amigo e meu braço explodindo

Eu já contei várias vezes aqui sobre meus irmãos, aqueles bem sucedidos homens de família que outrora eram homens do gueto e faziam pequenos delitos por aí, né? Quer dizer, hoje em dia eles não são nem 1% do que já foram e isso é orgulhosamente bom de se dizer. Hoje posso dizer com total certeza que posso me espelhar em qualquer um deles que me tornarei alguém bom no futuro.

Pois bem, desses irmãos, um deles sempre se destacou em proximidade e coleguismo. Não por indiferença dos outros dois, que fique claro. Fato é que dois dos irmãos semi-meliantes não moraram comigo nem perto de mim por boa parte da minha vida, então era muito difícil existir uma proximidade entre nós. Atualmente sou bem próximo deles, sendo inclusive padrinho do filho dele, com orgulho. Já este que vos apresentarei hoje esteve sempre comigo, morando na mesma casa, ignorando o fato de eu destruir as coisas dele e contar para minha mãe todas as besteiras que ele fazia.

Seu nome é Ademar (música tema do Batman).

Você acha o nome feio? Muito mais bonito do que o nome bíblico do seu filho semi analfabeto, não concorda? Pois bem, continuemos.

Ademar sempre foi muito próximo de mim. Talvez pela idade mental, talvez pela falta do que fazer ou talvez por gostarmos um do outro mesmo. Para terem a noção da idade mental de Ademar, uma de minhas sobrinhas (filha do Cleber) nasceu com um problema gravíssimo e durante muitos anos de sua vida foi obrigada a ser operada, viver com sonda e esperar a boa vontade dos médicos de cuidarem dela. Nessa época, ela era MUITO magra e parecia sempre muito debilitada. Não sei se por descuido dos médicos ou do meu irmão, mas ela parecia mesmo uma criança doente.

Como falei, ela era bem magra, parecia sempre estar doente (devido às constantes visitas ao hospital) e tinha uma sonda que a impedia de ser feliz como criança. Porra nenhuma, devo dizer. Meu irmão Ademar (padrinho dela), colocava a garota em uma caixa de leite. Antes que se espante e olhe com dúvida para meu texto, deixa eu esclarecer. A caixa de leite a qual me refiro não é a caixa que guarda o leite, é a caixa que guarda as caixas de leite. Entendeu?

Pois bem, nessa época, Ademar colocava ela na caixa de leite e rodava pelo quintal puxando a garota enquanto ela se debulhava em gritar e cantarolar como se fosse uma cowgirl. Ela tinha lá seus problemas mas estava bem feliz, pra falar a verdade. Tudo isso culpa do Ademar.

Outra situação de carinho extremo de Ademar era quando ele tentava ensinar a esta mesma menina a falar palavras simples de nosso cotidiano, como “Faca” e “sofá”. Além do problema da sonda ela tinha também um problema na dicção que a impedia de falar os “F”, “V” e “S”. Quer dizer, não a impedia, mas ela substituía um pelo outro em todas as frases. Sendo assim, ela me chamava de “Zinícius”, chamava sofá de “fofá” e faca de “saca”.

Ademar, em seu auge da falta do que fazer, resolveu provar que não era doença que a impedia de falar isso (e não era mesmo e vocês devem saber disso mais do que eu) e resolveu ensiná-la a falar direito. Conclusão, até hoje ela fala pelos cotovelos sem trocar letra alguma. Ponto pra ele.

Pois bem, essa enrolação toda foi só para apresentar um pouco do irmão que tanto admiro.

Há anos atrás, quando eu ainda era um moleque muito pequeno, resolvemos brincar na rua de trás da minha casa. Eu era muito pequeno mesmo, devia ter uns 2 ou 3 anos, eu acho, mas como eu tinha irmãos mais velhos, eu acabava ficando no meio deles enquanto eles iam realizar tarefas saudáveis, como colocar uma bombinha nas asas de um morcego, como explodir tijolos com cabeção ou coisas assim.

Em uma dessas situações, acompanhado de um outro irmão, um dos amigos da gente resolveu ter a estúpido idéia de arremessar um desses explosivos para o alto. Claro que, como em um foguete, haveria contagem regressiva, todos teriam certeza de que só fariam isso quando fosse a hora certa e quando todos estivessem devidamente abrigado em suas barricadas. Isso teria dado certo, se a besta quadrada que era esse amigo não tivesse resolvido precipitar toda a brincadeira arremessando o explosivo para o alto e gritando “Corre, porra!”.

Naqueles instantes que se seguiram eu fui capaz de ver a velocidade incrível que o ser humano consegue se teletransportar de um ponto a outro em menos de 1/2 segundo. Foi como piscar os ohos e ver que não havia mais ninguém ao meu redor. Era como se eu estivesse fazendo parte de algum teste de elenco para participar de “I’m a Legend”.

Todas as pessoas ao meu redor sumiram. Desapareceram no ar como se fossem ninjas.

Eu, que nunca fui de correr muito, sempre atrás nas brincadeiras de apostar corrida, sempre atrás no futebol, sempre atrás em qualquer brincadeira que envolvesse correr, acabei ficando parado, sem saber exatamente o que fazer para fugir daquela situação.

Eu não acredito que tanta coisa assim tenha passado pela minha cabeça, afinal eu era muito pequeno para me lembrar detalhadamente, mas lembro com riqueza de detalhes quando eu vi o artefato bélico retornando de sua viagem aos céus e indo de encontro ao meu braço. Por cagaço do caralho sorte, o artefato bateu no meu braço e resvalou para o lado, explodindo a uma distância de uns 5 a 10 centímetros de mim. Não houve estrago algum comigo, não houve nem sequer um arranhão, mas pelo desespero da situação eu abri a boca a chorar.

Ah, agora que tu é adulto tu vem pagar de fodão e dizer que eu sou bichinha, mas eu queria ver se você com 3 anos, ao invés de ficar brincando de boneca com tuas primas e servindo de olheiro para os namoradinhos delas brincarem de médico estivesse em situação semelhante se você também não iria abrir o berreiro. Não foi uma escolha minha, foi quase que automático.

Os moleques que fugiram ficaram desesperados achando que meu braço tinha caído, que eu tinha perdido a perna ou que, na melhor das hipóteses, eu tivesse virado um super herói graças ao poder radioativo do explosivo.

Para azar meu e sorte deles, nada disso aconteceu, eu estava completamente intacto, exceto pelo susto de uma mini dinamite ter explodido a centímetros de distância de meu corpo.

Como por instinto eu corri para os braços da minha mãe, desesperado por ter escapado da morte certa. Minha mãe ouviu a história toda de forma assustada. Antes que pudéssemos ver, Ademar já tinha se dirigido ao local e ido tirar satisfação com a pessoa que quase me matou.

Não sei de foi por carinho, por dó (que dó, que dó, que dóóó) de me ver chorando ou simplesmente porque ele não tinha nada para fazer, ele já chegou distribuindo socos e pontapés nos envolvidos. Quem via de fora parecia que estava presenciando a visita do Taz Naquelas cenas em que ele vem rodopiando e destruindo tudo em seu caminho.

Ademar sempre me defendeu quando eu precisei e muitos anos depois ele foi um conforto para meus problemas, muitas das vezes sem nem mesmo saber disso. Em homenagem ao dia do amigo (amanhã), deixo aqui o meu muito obrigado a ele e toda sua valentia que me defendeu por anos e anos.

É claro que todos os irmãos foram muito importantes para mim, mas o Ademar sempre teve uma idade mental mais atrasada e por isso eu me identificava tanto com ele. Por ele ser quem ele é hoje e por eu ser quem sou eu agradeço a ele, meu querido irmão “Litofut”.

Mentir nunca foi meu forte

Eu nunca fui bom em mentir. Nunca consegui criar histórias me envolvendo em grandes confusões e nunca consegui manter por muito tempo as mentiras que eu criava. Ou minha cara entregava tudo ou eu ia acrescentando coisas até se tornar impossível levar a sério.

Se eu contasse que viajei para Minas Gerais e todos acreditassem, eu dizia, logo em seguida, que nesta viagem eu encontrei um esqueleto de um dinossauro raro e que meu nome foi parar nos livros de história. Nesse caso não era muito difícil que as pessoas percebessem que eu estava mentindo.

Mesmo sendo um jogador de RPG, mentir não fazia parte da minha rotina. Claro que jogadores de RPG são como atores, conseguem convencer quando dentro de um contexto, mas quando fora dele, o jogador se vê dentro de um mar de ética e acaba não sendo capaz de mentir. Claro que muita gente faz parte das exceções.

Aí veio a internet e a mentira começou a ser a base da vida de muita gente. Inclusive da minha.

Eu não mentia como forma de vida. Eu não mentia para prejudicar. Eu mentia apenas para me divertir. Era como uma espécie de trote, dado sem inocência em pessoas incautas.

Eu entrava em salas de bate papo com o objetivo de ser alguém que eu não era. Uma vez eu era astronauta, outra vez eu havia nascido na Dudinka. Poucas vezes as pessoas acreditaram em mim. Em alguns minutos de contradições elas já percebiam que eu estava mentindo.

Um grande amigo meu, iludido pelo poder da internet, começou a espalhar para meio mundo que ele iria conhecer aquela que viria a ser sua nova namorada. Uma menina que ele havia conhecido na internet e que suas riquezas ultrapassavam em muitos dígitos a riqueza do nosso amado Eike Batista. Para provar que sua amada era de verdade, este amigo até lhe solicitou uma foto. Dali em diante, ela ficou conhecida para nós como “A garota do Shampoo”.

Sabe aquelas modelos que não são famosas e que nunca serão? Aquelas que eles criam em laboratório, ou no photoshop, apenas para ilustrar um novo frasco de algum shampoo? Então, assim era sua namorada.

Inclusive, este virou um de nossos bordões, quando alguém dizia ter uma namorada mas esta ainda era uma incógnita para nosso grupo.

Diante de nossa incredulidade, este nosso amigo afirmou com veemência que sua nova namorada enviaria um helicóptero para buscá-lo em casa.

Assim, não há como garantir o que vou afirmar agora, mas posso dizer, com 100% de certeza que este meu amigo deve estar esperando o helicóptero até hoje, porque nunca o vimos afirmar algo daquele jeito.

Essa namorada do meu amigo é como muita gente da internet. Mente até onde não consegue ir mais. Quando eu percebia que minha mentira ia por água abaixo, eu deixava de lado e falava a verdade. Meu objetivo não era ser quem eu afirmava ser, era fazer com que alguém pensasse que eu fosse.

Outro amigo, tolo, devo dizer, que será chamado apenas de “Pacheco”, para evitar problemas em sua vida, era um rapaz ótimo, bom amigo, criativo (até demais), simpático e muito gentil, porém, Pacheco sofria de um problema muito grave em homens como ele, a inocência. Pacheco nunca saiu muito de casa, então era fácil acreditar em coisas que ele julgava ser verdade.

Pacheco era do tipo que gastava dinheiro real para ter armas e equipamentos mais “fortes” em jogos de computador. Ao invés de comprar em uma loja ou algo assim, ele subornava os responsáveis por manter o jogo para ganhar privilégios diante dos outros jogadores. Além disso, Pacheco adquiriu o costume de enviar dinheiro para uma namorada que morava em outro estado, com o objetivo da mesma comprar passagens para vir morar com ele. Sim, eles iam se casar. Ou algo perto disso.

Não foi preocupante a cerimônia, já que ela nunca existiu. Essa namorada do meu amigo, o informou que não poderia ir porque o pai dela descobriu e gastou todo o dinheiro dela, impedindo-a de ir, A NÃO SER QUE ELE ENVIASSE A MESMA QUANTIA DE NOVO.

Garota tola, né? Na verdade, não. Pacheco voltou a juntar a mesma quantia para enviar o dinheiro para ela. Juro que depois dessa situação, eu comecei a repensar em onde as mentiras na internet podem levar. Algumas pessoas realmente não sabem a hora de dizerem a verdade e muitas começam a gostar de mentir e levam isso como forma de vida, afinal, por que uma garota iria trabalhar se ela podia ficar o dia inteiro na internet convencendo seus namorados de enviarem dinheiro para ela?

Isso me lembra o fato de um outro amigo meu, em jogos online como Ragnarok, criar personagens femininos com a intenção de obter itens e ajudas que homens jamais receberiam em terrenos como aqueles. Incrível como o poder de uma vagina é grande no mundo online. E isso nem fica só no mundo de jogos online não, em qualquer lugar as mulheres são mais “bem tratadas”, na esperança de que ela perceba o quão foda você é e resolva dar para você. Assim, simplesmente por ter lido algo que você escreveu.

Se você é uma dessas pessoas, cuidado, tenho amigos que estão se passando por mulher em locais escuros da Rodovia Dutra para conseguir uma grana extra enquanto não conseguem emplacar suas atividades de cosplayer. Se eu fosse você (ou o Ronaldinho), tomaria mais cuidado nestas investidas.

Põe na conta do meu pai

Durante boa parte da minha infância eu desejei que meu pai fosse um daqueles caras que perdem o domingo todo sentado na mesa de um bar. Eu não tinha a menor noção do que isso implicaria à minha Familia. Mesmo se tivesse, acho continuaria querendo.

Era algo magicamente divino para a minha infância ter um pai sentado na mesa do bar, pura e simplesmente porque assim, eu poderia chegar ao balcão, em meio a cigarros e copos de cerveja e pedir um doce de abóbora “na conta do meu pai”.

Enquanto morei em Coelho Neto, tive um amigo que era feliz por ter este presente de deus. Todos os domingos era costume descer para a portaria e rodear a mesa de bar do pai do Adonis.

Refrigerantes, doces, churrasco, divórcio. Muitas eram as vantagens de se ter um pai sentado 24 horas em uma mesa de bar. Por sorte, meu pai preferia dormir.

É bem verdade que no passado não era assim, mas como eu não era nem nascido, não acho justo criticar meu pai por ter cometido os vacilos dele.

Hoje em dia, aos sábados e domingos, meu pai bebe a água quente vinda do inferno e depois se direcionado para a cama, local onde será encontrado nas próximas 9 a 10 horas após ter deitado.

Preguiçoso, você deve estar pensando. Eu ainda prefiro que meu pai beba e vá dormir na tranqüilidade do seu lar do que ficar sentado na mesa de um bar, consumindo os minutos de sua vida com seus “amigos de copo” enquanto seu filho, um tremendo de um pivete, quebra o boneco de seu pequeno amigo.

Por isso, quando você for criança (de novo), tenha cuidado com o que vai pedir para o futuro do seu pai. Pode ser que depois de 10 anos aquilo não pareça tão atraente quanto antes.

E você, que tipo de desejos estranhos tinha quando era criança?

O RPG e o ataque da vizinhança

Tem muita gente reclamando que o blog não está sendo atualizado, eu sou uma delas, inclusive.

A questão é que eu não gosto de ficar escrevendo qualquer porcaria (ha-ha), aí fica difícil fazer um post que seja interessante, pra mim, e que não se aproveite muito do estilo “X coisas” de ser.

Para acabar com essa ressaca, relatarei um caso que aconteceu comigo e com alguns amigos, há algumas décadas atrás.

Poucos sabem, já que eu sou uma pessoa que não gosto de comentar das coisas que tenho e faço (ha-ha), mas eu sou um assíduo jogador de RPG.

Sabem aqueles MMO que seu filho leproso joga se acabando aos berros para os amigos “matarem a porra do Poring”? Então, não tem nada a ver com isso.

O RPG que jogamos é o método mais “tradicional” do hobby. Ou, como chamamos, “o RPG de mesa”.

Não quero dizer que ele é melhor (embora seja), quero apenas alertá-los de que não passo 14 horas do meu dia evoluindo um pixel. Faço isso evoluindo uma folha de papel.

Na verdade, nunca chamamos assim, mas com o advento da internet e da computação, acabou ficando comum associarem RPG aos infantes remelentos que usam chapéu de Poring e gritam “yaaaaaaaaaaaay” pelas ruas, logo, nos sentimos obrigados a criar uma classificação para nos separar destas criaturas supra citadas.

Digo “criaturas” no bom sentido. Nunca escrevi nada que fosse contra as pessoas que gostam de mangá e anime. Isto posto, vamos seguir com a história.

Em uma época da minha vida, onde trabalhar era segundo plano, eu jogava mais RPG do que atualmente (sim, ainda jogo), ao invés de vagabundear pela rua atrás de algo melhor para fazer, como invadir uma fábrica de sofá, por exemplo.

Como eu era jovem, não tinha responsabilidade nenhuma e não precisava me preocupar com nada, eu costumava ocupar meu tempo jogando RPG. Assim, era comum me encontrar jogando RPG em todos os lugares que eu fosse visto. Todos mesmo!

É algo como um vício, você pode dizer. A diferença, na minha cabeça, é que um vício é algo que te prive de um “mundo”, prejudicando sua socialização e alterando seu estado de ser. No caso do RPG, socialização é a palavra chave para que ele exista, e nunca bebi nada durante as partidas, portanto, não era uma coisa que me tirava do meu estado “sóbrio” de espírito.

Uma ressalva, antes de continuar.

Muitos de vocês já viram o RPG ser associado a coisas ruins, como assassinato, rituais macabros, bruxaria, etc, etc.

Usar hobby para estimular o uso de drogas, sejam elas lícitas ou não, não é uma prática nova e nem será nos próximos 100 anos, portanto, se você conhece pessoas que curtem jogar RPG enquanto enchem o cu de cerveja, lembre-se que existe a mesma versão de pessoas que curtem encher o cu de cerveja enquanto sambam, enquanto jogam videogame, enquanto cortam cabelo, enquanto oram. Existem gente querendo se drogar em QUALQUER área de lazer.

RPG é um jogo. Assim como Ludo, Banco Imobiliário, War e tantos outros. O que acontece com essas pessoas é pura e simplesmente a única desculpa que viciados em drogas também possuem “BURRICE”.

Se algo te prejudica a ponto de você sair de seu estado natural e se achar uma grande encarnação de um vampiro milenar, você não é nem um vampiro, nem um jogador de RPG. Você é um completo idiota, ou, na melhor das hipóteses, você tem problemas.

E ainda assim é um idiota.

Sérgio e eu em um Encontro de RPG

Continuando.

Em um desses dias, onde o RPG seria mais uma vez a nossa diversão da tarde, rumamos para o ponto onde jogávamos sempre. Uma escola.

Perto de onde um dos jogadores morava (ainda mora, diga-se de passagem) existia uma escola pública que, não me pergunte o porque, estava sempre vazia. Não sei se a época em que jogávamos era férias, não sei se os alunos faltavam pra caralho mesmo ou se simplesmente a escola foi feita pra desviar dinheiro público. Em resumo, a escola estava sempre deserta, com um ou dois funcionários andando pra lá e pra cá.

Um desses funcionários era o vigia da escola e já tinha nos dado permissão para jogarmos ali, tanto dentro da escola, na quadra, quando do lado de fora, embaixo de uma árvore que nos dava uma pura e linda sombra.

Neste dia, por acaso, a escola estava fechada e o tempo estava chuvoso, nos forçando assim a procurar outro lugar pra jogarmos. Um lugar que nos fornecesse um abrigo da chuva.

Jogar em nossas casas não era viável. Dada a quantidade de crianças envolvidas, ia ser quase impossível alojar tanta gente dentro da casa de qualquer um dos jogadores.

Acho até que tentamos, mas realmente era inviável o abrigo de tanta gente.

No fim das contas, achamos um local pra chamar de nosso.

Segundo esse amigo que morava ali perto, a casa não possuía moradores. O dono dela morava do outro lado da rua, mas no momento a casa estava vazia.

Em frente a esta casa havia uma cobertura dessa de alumínio, que protegia muito bem as nossas cabeças da chuva. Assim, foi ali que ficamos toda a tarde jogando o nosso tão amado RPG.

É claro que não podíamos imaginar que isso geraria problemas para nós.

Acontece que, um dos garotos que estava jogando conosco, era neto de uma velha maldita e que tinha poderes negros associados ao diabo. Ou pelo menos, era assim que ele a descrevia.

A senhora, não muito feliz com a presença do neto no círculo de amigos, resolveu dar uma leve sacaneada em nós todos, indo direto ao dono da casa e afirmando com veemência que nós estávamos realizando práticas satanistas na calçada do dono daquela casa.

Aos poucos, acompanhamos diversas pessoas se aproximando com cautela, uns disfarçando, outros mais descarados e alguns com tochas e máscaras brancas semelhantes às do KKK.

O dono da casa foi o único corajoso a ponto de se aproximar de nós e dizer:

“Hey, vocês não podem fazer essas coisas aqui não”.

Nós ficamos sem entender nada. Era como se alguém estivesse nos impedindo de jogar Banco Imobiliário em sua própria calçada. Algo que ele teria o direito completamente, afinal, era sua calçada, mas nós não entendíamos o porque do RPG ser tão repugnado.

Na época, o RPG estava sendo amplamente divulgado como “arma do diabo para converter crianças inocentes às forças do mal”. Mas nós nunca imaginamos que as coisas estavam chegando àquele nível.

Um dos momentos mais lembrados, até hoje, foi quando o dono da casa, após nos expulsar, perguntou se “Poderia acender a luz”. Nós ficamos com cara de “Hã?” e ele não entendeu nada também, mas a acendeu mesmo assim, botando fogo em nossos corpos assim…mentira. Essa parte foi só pra impressionar.

Acontece que sempre víamos o RPG sendo tratado daquela forma na televisão e nos jornais religiosos, mas nunca havíamos visto isso acontecendo na prática.

É engraçado como algumas práticas são repudiadas sem ao mesmo conhecer a fundo o que está acontecendo.

Conheço pessoas que afirmam que o RPG nos faz mal por nos “levar para um mundo de faz de contas”, mas não tem problema nenhum em ler livros do Harry Potter, que faz EXATAMENTE a mesma coisa que o RPG, e que, no fim, tem o mesmo objetivo: Divertir.

Dinossauros e o incêndio iminente

Eu amo dinossauros. Pelo menos, amei por um bom tempo de minha humilde vida.

Durante uma pequena época de minha vida, munido de uma renda mensal advinda de venda de doces na porta de casa, eu decidi colecionar alguma coisa. Qualquer coisa que fosse. Qualquer coisa importante, lógico.

Eu sempre gostei de bonecos, conforme citei no texto onde o Thiago supostamente havia roubado meu boneco. Se você não o leu, ele nunca roubou.

Durante esta minha infância, eu nunca tive paciência pra colecionar coisas de forma organizada. Sempre fui ansioso demais pra ficar aguardando o próximo mês pra comprar apenas mais um boneco para completar uma coleção besta que eu estivesse fazendo. Nunca tive saco pra isso e não tenho até hoje.

Posso tirar uma foto da minha caixa de bonecos (sim, eu ainda os tenho) e mostrar pra vocês. Se vocês encontrarem mais de 2 bonecos da mesma “série”, eu dou todos a vocês. Nunca segui um padrão para comprar bonecos. Só comprava os que me interessavam e pronto.

Exceto os famigerados dinossauros.

Houve uma época, em que o Inmetro provavelmente não existia,  que uma enxurrada de brinquedos perigosos e assassinos foram largadas no mercado por empresários que só se importavam com seu dinheiro e nada mais. Hoje em dia até brinquedos feitos na china devem ter um selo do Inmetro para liberá-los no mercado brasileiro.

Um desses brinquedos largados nos camelôs eram os Dinossauros de borracha.

Os meus eram parecidos com estes

Os meus possuíam uma cor mais próxima da realidade, mas ainda assim a foto acima reflete bem como eles eram. Eram exatamente assim.

Eu comecei comprando um ou outro, só por diversão. Sabe quando você precisa de algum monstro gigante pra destruir a cidade e só tem bonecos maiores que os outros e tem que improvisar? Então, eu precisava de alguma ameaça real para desafiar meus “heróis”.

Como todo mês eu ganhava uma “mesada” dessa venda de doces, eu ia sempre na primeira segunda feira do mês com a minha mãe em algum lugar distante para comprar os dinossauros.

Minha mãe era dona de casa nessa época, então ela não podia largar tudo e todos para sair comigo apenas para comprar bonecos. Então, eu ficava aguardando algum dia em que ela fosse sair e pedia pra ir junto, na esperança de comprar meus dinossauros.

Minha mãe sempre teve uma ótima vantagem para andar na rua. Ela não se importava nem um pouco em andar a cidade inteira até achar o que estivesse procurando. Ela só priorizava as coisas que precisavam ser feitas, depois o passeio era todo meu, atrás dos meus dinossauros ou de coisas aleatórias que eu quisesse naquele momento.

Eu não lembro bem porque da minha fixação por dinossauros, mas eu lembro muito bem de uma das fixações insanas da minha mãe. Quando digo insana, quero dizer exatamente isso. Insanidade pura.

Minha mãe sempre teve graves problemas de memória. Problemas esses que nos levaram a criar um código para avisar que estávamos fazendo certa coisa. Nós dançávamos enquanto realizávamos tais atos.

Por exemplo. Se você sempre se esquece se trancou a porta ou não. Tranque a porta dançando, cantarolando “estou trancando a porta” e aquilo vai ficar marcado para sempre em sua memória. Ou pelo menos até você começar a confundir o dia em que dançou, se foi antes de sair de casa ou se a dança que está se lembrando é do dia anterior. Aí já é um novo problema e eu não tenho dicas pra isso.

Acontece que esta técnica ainda não havia sido desenvolvida por nós na época dessa história. Começo a imaginar até que ela só foi surgir por conta desta situação, em especial.

Como falava, minha mãe tem duas fixações insanas: Trancar portas e fechar a porra do clique do gás. A inclusão do “porra” foi por minha conta.

Eu realmente não sei o nome daquele “clique” do gás. É a alavanca que interrompe ou libera o gás para que o seu fogão comece a aquecer a santa comida posta em sua mesa. Não é o botão do fogão, é o “clique” que fica acoplado ao botijão.

Se você mora em prédio e não sabe do que estou falando, fecha o site e vá se jogar da janela. Ninguém gosta de você por aqui.

Estas duas fixações sempre foram alvos graves de preocupações alheias da minha mãe. Não importava o que ela estivesse fazendo. Se por um instante passasse um flash pela cabeça dela e ela lembrasse que “não fechou a porta/não fechou o clique”, fudeu, ela parava de fazer o que estivesse fazendo para correr desesperadamente pra casa.

Neste dia, pra variar, não foi diferente.

Havíamos andado boa parte da cidade em busca dos dinossauros e não havíamos encontrado nenhuma das barracas regulares em que comprávamos. Só nos restava uma última opção. Uma pequena loja que ficava do outro lado do viaduto onde estávamos próximo. Era coisa de 1 Km, ou menos.

Eu não tenho noção de distância, então, desconsidere.

Era bem perto. Só precisávamos andar um pouco mais, atravessar este viaduto e estaríamos exatamente onde a loja se encontrava.

Meu sorriso já estava estampado na cara. Toda a felicidade por qual aguardei um mês inteiro estava para se materializar em forma de uma criatura ancestral de borracha.

Caso você não saiba, eu tinha um pouco de esquizofrenia aguda e conversava com meus bonecos. Portanto, todos já estavam esperando ansiosos qual seria o novo desafio a ser enfrentado naquela tarde.

Vou fazer um teste para interromper um pouco seu raciocínio.

Pense em uma fruta. Agora pense em uma ferramenta. Pense em uma novela. Pensou? Pois bem. Nesta mesma velocidade em que você pensou nestas inutilidades, a minha mãe pensou “Porra, não fechei o clique do gás”.

Aí você me pergunta, com toda sua inocência, como eu soube o que ela pensou.

No instante em que começamos a subir o viaduto ela apertou minha mão mais forte, olhou pra mim com um semblante sério e perguntou “Você lembra se eu fechei o gás?”.

Caraca, quando ela falou aquilo eu já imaginei meu mundo acabando e ela me arrastando de volta pra casa em uma velocidade absurda. Como se alguns minutos que demorássemos ali fosse salvar a casa de ser carbonizada ou não.

A única diferença é que eu não precisei imaginar por muito tempo. Em questão de segundos ela começou a me arrastar pelo braço e fazer exatamente o que eu descrevi no parágrafo acima.

Eu ainda questioneu, disse que estávamos perto demais pra voltar. Ela me mandou ignorar os questionamentos de minha mente juvenil e disse para eu me calar porque estávamos voltando pra casa “Naquela mesma hora”.

Eu não tive tempo de pensar. Quando dei por mim já estava no ônibus voltando pra casa.

Eu não sabia o que fazer. Não sabia como agir diante daquela situação. Já tinha visto ataques de pânico da minha mãe frente a estas situações, mas nenhuma delas havia me prejudicado tão diretamente assim (porque naquela época, perder minha casa era bobeira em frente a não comprar meus dinossauros).

Ela veio no ônibus me pedindo desculpas. Explicou que voltava lá outro dia, “amanhã até”, mas que ela não podia deixar isso pra depois. Era mais forte do que ela.

Eu nunca fui bem em lidar com frustrações (Nem o Dexter, reflita) e fiquei mesmo muito chateado.

Antes de chegarmos em casa, uns 3 quarteirões antes (onde o ônibus maldito nos deixava), ela viu uma fumaça negra subinda em direção ao céu exatamente onde estaria a nossa casa. Ou pelo menos assim foi interpretado pelo nosso cérebro. Naquele momento eu senti um pouco de remorso por me preocupar mais com o dinossauro do que com a minha própria casa.

Corremos desesperados já esperando os bombeiros em nossa porta para nos dar a triste notícia. Como era de se esperar, o incêndio não era em nossa casa. Nem na de ninguém.

Lembra daquela história do Vitor, do velotrol? Então, algum infeliz resolveu botar fogo na caçamba onde o Vitor costumava “morar” e a fumaça parecia realmente vir de nossas casas.

No dia seguinte ela me levou, como prometido, no centro da cidade e eu pude comprar o meu tão querido dinossauro. Até que olhando assim, não parece ter sido um estrago tão grande.

O Tiranossauro foi o mais difícil de conseguir